Chá da Cesta - 5: Estrutura organizativa

Estrutura organizativa

Confiaram nos operacionais veteranos: Manuel Pereira de Lima, João Jacinto da Câmara e André Vaz Pacheco. Manuel estava ao serviço de José do Canto desde a década de 80, fora ganhando a sua confiança, lograva agora alcançar a dos Herdeiros, continuou responsável pelas plantações. Manuel tratava das matas, do chá e até fazia chá. Deve ter aprendido com João Jacinto e Lum Sum e Chum Sem. Se calhar, até teve tempo para aprender com Francisco de Melo e João Jacinto Barbosa. João Jacinto da Câmara, ao serviço desde a década de 90, entrara para orientar a fábrica /oficina em 1892. Aprendera a fazer chá com Lum Sum e Chum Sem, manejava as máquinas, e era responsável por tudo dentro da unidade. Continuou sendo responsável. E o primo da mulher André Vaz de Castro manteve-se à frente do escritório. André aparece ao serviço do tio em 1896, substituindo Jacinto Pacheco de Almeida. Jacinto Pacheco de Almeida esteve à frente de todo o processo do chá até, pelo menos ao regresso, em 1894, dos dois últimos chineses. André, por seu turno, acompanhou todo o processo de arranque das exportações. Era importante que continuassem.

Assim como fora útil continuar com João Jacinto da Câmara, Manuel Pereira de Lima e André Vaz Castro, era igualmente útil obter o concurso do Procurador da Inventariante e cabeça de casal: Margarida. Como não era filho, não cumpririam exactamente o que dispunha o testamento de José do Canto de 1862, que seria um entre os herdeiros a administrar durante dois anos, mas deram a volta de forma pragmática, e repete-se pelo interesse: ‘Todos os dois anos escolherão meus filhos um de entre si, para administrar a dita (fl. 12 v.) terça (…).’

Em nome dos Herdeiros de José do Canto, pelo que seguimos nas cartas, é provável que em muitas questões, seguindo o conselho da esposa e os alvitres dos cunhados, Artur Hintze aproveitou o que fora feito pelo sogro: montou as máquinas mandadas vir ainda em vida pelo sogro em 1898, mandou vir máquinas, por exemplo, além de outras em 1899, ampliou a fábrica em 1900.

É provável que tenha assumido o compromisso de dar durante algum tempo continuidade, tempo para chamar a si o cunhado Poças e Eugénio do Canto e de montar a máquina: dois anos conforme o testamento. No entanto, pelo que se vê, foi renovando por mais alguns anos. A partir, sensivelmente, de 1909, rareiam ou deixam de existir referências directas a Artur. A solução administrativa foi dinâmica e acabou por incluir Guilherme Poças Falcão. De início era pouco prudente que fosse administrador: estava de fresco na família e nada ou pouco percebia sobre chá.

Num ano, morrem-lhe o irmão Ernesto, em Agosto de 1907, e a filha Emília, em Agosto de 1908. Naquele mesmo ano de 1908, o filho António entra na vida política activa. Mas a saúde iria fraquejar: em 1905 veio à Ilha tratar-se de padecimentos antigos, frequentava estações termais até no estrangeiro: ‘Partem para Lisboa, no próximo Funchal, o senhor Conselheiro Artur Hintze Ribeiro e sua Excelentíssima esposa. O Senhor Conselheiro Hintze Ribeiro que viera procurar alívios a padecimentos antigos agravados parte felizmente muito melhor.’

O clima da Ilha era-lhe prejudicial à saúde e o irmão queria-o a seu lado. Anos antes, o irmão Ernesto dizia-lhe que o clima da ilha lhe fazia mal à saúde. Até por feitio, segundo o mesmo irmão Ernesto: ‘(…) deixa-me dar-te um conselho de irmão e amigo, que é quase um pedido; vem fazer uma viagem até Lisboa. Estou certo de que te há-de fazer muito bem. (fl. 1v) Estás há muito tempo na Ilha; precisas distrair-te um pouco, mudar de ar, ver outros sítios e outras caras, conversar sobre outros assuntos que não sejam a laranja e o feijão. Até se pudesses vir com a tua mulher e teus filhos passar o Inverno, isso seria não só extremamente agradável para nós, mas estou convencido de que muito proveitoso para ti. ’ Até a esposa e os filhos preferiram mais tarde ficar pelo continente.

Segundo a neta: ‘o avô Artur (que era médico) estava um homem muito doente quando eu o visitava em menina. Sofria dum mal que progressivamente se ia agravando: a doença de Parkinson. Começou a andar curvado, sempre trémulo, e, finalmente não se levantava de uma cadeira. Um dia, quando estava em Sintra no verão, morreu quase de repente. ’ A partir de certa altura, as suas cartas são escritas pela esposa.

DANIEL

Voltando atrás, Artur, a viver em Lisboa, e Poças Falcão, vivendo em São Miguel, foram forçados a adaptar-se rapidamente à situação: era preciso orientar as plantações, a apanha, a produção e a venda do chá. Até poder, repartir-se-ia entre a Ilha e o Continente. Talvez a sua última viagem à Ilha tenha sido em 1915: ‘Partiu para Sintra o Dr. Artur Hintze Ribeiro.’

Fora para o continente, segundo a neta, ‘para ficar perto do irmão Ernesto, cuja carreira se revelava uma prodigiosa ascensão.’ Segundo a mesma, ‘o avô embevecia-se perante o irmão. Por ele faria, (e fez) muitos sacrifícios.’ O mesmo não se poderia dizer da avó, ‘pois arrancada à sua terra, ao pai querido e admirado, à teia confortável dos parentes e conhecidos de sempre, veio para o continente sem entusiasmo. Mas gostava muito do marido e, é claro, seguiu-o.’

Artur terá eventualmente pensado em regressar, até esteve (terá estado) a dirigir os destinos do chá por algum tempo na Ilha, mas, achou (se calhar com o cunhado) que havia uma alternativa, a criação de uma empresa: os Herdeiros de José do Canto. Assim, deu-se um passo de um empreendimento com o patrão à frente de tudo, sem tempo para nada, como fora no caso de José do Canto, para um modelo empresarial moderno, tipo sociedade, em que os proprietários (espécie de accionistas), nomeavam um procurador/administrador.

No tempo do sogro, era diferente, estava totalmente absorvido pela administração da Casa. Dizia ele, supomos que ainda na década de 90, possivelmente, numa carta escrita entre a Quaresma de 1891 e Maio/Junho de 1896, em francês: ‘J’ai aussi un bureau, et j’y passe pendant 8 mois de l’ánnée, 6 heures par jour avec 2 clercs.’ Seria improvável que qualquer um dos Herdeiros pudesse ou quisesse fazê-lo.

Por isso tinha dificuldade em ir além do trabalho: ‘(…) Ce nést pas qu’avec difficulté et grand effort que j’écris le peu de français que j’ais l’honneur de vous addresser et pou le faire il me faut du temps et de la tranquilité, ce que malheureusement me manquet presque toujours. Je administre directement mês biens-fonds, et Je suis obligé d’être fermier, forestier, jardinier, conducteur de travaux, etc, etc. et aux temps des recoltes, il me faut être um peut partout.’ Os tempos eram outros, havia meios de transporte melhores e mais rápidos e havia o telégrafo.

Administrando o Chá Canto

Em Junho de 1899: Era absolutamente necessário angariar novos vendedores que oferecessem preços mais vantajosos garantindo maior diversidade na colocação do chá. Meses depois, em Junho de 1899, faria dentro em breve um ano que José do Canto falecera, o genro Artur Hintze Ribeiro, recebia, por parte de C. Mahony Amaral, uma proposta de colocação de chá em Lisboa: ‘(…) julgamos oportuno o momento para oferecer a Vossa Excelência os nossos serviços como vendedores de chá. A nossa situação neste ramo permite-nos efectuar vendas nas melhores condições do mercado, pois que, tendo uma secção especial exclusivamente destinada a esse negócio, a clientela é todos os dias visitada para se recolherem as encomendas que nos são dadas para o chá dessa Ilha e do que importamos dos mercados de Londres e de Hamburgo, em grandes quantidades. Inútil é, pois, dizer que as consignações que temos recebido dessa Ilha são sempre tratadas em paridade do chá que nos é enviado do estrangeiro, o que facilita a sua introdução no mercado, embora este se torne quase sempre renitente na aceitação do que é produto nacional. As vendas efectuadas até agora têm dado resultados além da expectativa em que se estava, e nos contamos ainda que será melhor, se formos auxiliados pelos proprietários dessa Ilha, cultivadores de chá. Portanto, ser-nos-ia muito agradável que Vossa Excelência quisesse entrar em transacções connosco, enviando-nos consignações de chá das suas propriedades a exemplo do Excelentíssimo Senhor Visconde de Faria e Maia e outros cavalheiros, que nos têm distinguido com as suas remessas.’ Prova do interesse crescente pelo chá de São Miguel, oito anos depois, do Porto, chegava pedido idêntico, de Júlio de Carvalho: ‘(…) Desejo receber amostras e preços. Compro todo o ano e qualquer porção.’

Mário Moura

Doutor em História do Atlântico

Universidade dos Açores

Lugar Areias, Rabo de Peixe, Setembro de 2019

Mário Moura
Enviado por Mário Moura em 02/02/2020
Código do texto: T6856656
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