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RESISTÊNCIAS SERTANEJAS E SUAS MARCAS NA TERRA: CANUDOS MAIS QUE UM CENTENÁRIO DE MEMÓRIAS – 1897/2007

Ebulição de movimentos armados de norte à sul. Governo totalitário. No fim do século XIX, o recém-criado Brasil República passava por inúmeras transformações econômicas e sociais. Do baile da ilha fiscal à assunção do poder por Deodoro da Fonseca(1889 a 1891) e, posteriormente Floriano Peixoto (1891 a 1894), os brasileiros que não estavam escudados nas academias fundamentados pelo positivismo, estavam morrendo, de fome ou estavam banhando o solo mestiço do Brasil com sangue aguerrido, resistindo as mudanças políticas que insistiam em aniquilar o “povo-massa”, utilizando uma típica expressão de Darcy Ribeiro. Neste período ocorreram duas grandes revoltas, que balançaram o território brasileiro. A partir de 1893 até 1895, o Rio Grande do Sul conheceu o “entrevero” que na historiografia tradicional ficou famoso como a “revolta da degola”, ou a Revolução Federalista. Como veremos, mais um movimento de resistência as mudanças políticas advindas da implantação da república, e da concentração de poder nas mãos dos cafeicultores. Um choque violento provenientes da disputa de poder entre os aliados de Gaspar Silveira Martins e os partidários de Júlio de Castilhos. Logo que foi se acalmando os ânimos na porção meridional do país, o sertão nordestino já não teria visibilidade nacional apenas pela seca e pela fome. Estes dois elementos, adicionados a uma crença popular imbuída na figura mística de um ícone, uma liderança assegurada pela identidade social, transformar-se-ia em uma grande ameaça à ordem e ao progresso do nascente Brasil alinhado com a modernidade. Estes fatos foram difundindos como A Guerra de Canudos.
Sobremaneira não é intuito esgotar a temática sobre Canudos e nem estender a discussão teórica, pois se faz de uma grande diversidade de “óticas – históricas” e é equivalentemente quantitativo. Sobre as minúcias organizacionais de Belo Monte, assim como todo o aparato político e social regional, a realidade sertaneja na última década do século XIX, tem que ser melhor observada. Sem contar a grande enxurrada de deserdados que emergiam das senzalas a partir de 1888 e a simpática Princesa Isabel. Enfim, são muitos fatores a serem levados em conta quando mencionamos Canudos. Neste ensaio opto por não me estender pelos meandros teóricos, devido a abundância de fontes que acredito senão for para aprofundar os dados existentes, algo fica a desejar a saga conselheirista e seus combatentes. Na historiografia nacional encontramos inúmeras obras que discutiram e rediscutiram Canudos, Belo Monte, Antônio Maciel ou Conselheiro, até o próprio sebastianismo presente na religiosidade cabocla. As representações sociais e a realidade sertaneja da época foram temáticas perenes de nossa historiografia. Foram muito bem estudadas as fontes primárias provenientes do exército brasileiro e das elites administrativas da época, Os sertões de Euclides da Cunha aos pareceres patológicos-psiquiátricos em As loucuras epidêmicas de Canudos do médico maranhanse Nina Rodrigues. No decorrer do século XX , muito foi produzido sobre Canudos. Na outra banda da gangorra, temos a obra Cangaceiros e fanáticos de Rui Facó reivindicando uma interpretação econômica e social para os fatos, na mesma enxurrada Edmundo Muniz com Canudos: a guerra social. De grande contribuição foram os trabalhos de José Calasans com inúmeras obras¹ sobre o assunto, resgatando os impactos culturais da figura de Conselheiro e Canudos na cultura popular e o historiador Marco Villa² que alicerça coerentes fundamentos à interpretação da constituição do movimento canudense. Em relação à demografia do arraial de Canudos que divulgasse a partir de 20 mil habitantes até chegar à 35 mil habitantes, enquanto Salvador que era a capital possuiria em torno de uns 175 mil a 200 mil habitantes. Segundo Villa, esse exacerbado dimensionamento da população sertaneja no arraial seria para justificar a resistência  frente as ofegantes ofensivas militares e para justificar o massacre empregado contra os conselheiristas. Outra interessante abordagem que este historiador traz à discussão é sobre a formação e consolidação da ideologia religiosa conselheirista, que não seria uma ingênua consciência camponesa. Era a consciência coletiva que impulsionava uma organização social voltada e objetivada para resistir e combater as duras formas de vida dos camponeses nordestinos. A abundante necessidade material de subsistência frente à escassez de amparo para os descendentes miscigenados daqueles que outrora ergueram a economia nacional.


“... a consciência natural e desejável das classes camponesas, ontem e hoje. Ou seja, o caminho para a revolução social.” (VILLA APUD MACEDO E MAESTRI, 2004)


Entre outras obras e autores, diferentes aportes teóricos deveriam ser consultados para poder-se ter um alcance reflexivo à altura da vivência entre a peregrina figura de Antônio Maciel e a consolidação e derrocada de Canudos, em honra dos sertanejos e sertanejas que ali pereceram. Belo Monte, uma outra história de Canudos dos historiadores José Rivair de Macedo e Mário Maestri foi a obra selecionada como suporte para esta reflexão sobre um “evento-paradigmático” ocorrido no sertão da Bahia entre 1886 e 1887. Estes historiadores trazem como eixo principal as raízes de Antônio Maciel colocando sua posição de sujeito letrado e com talentos estrategistas e não como um indivíduo com variações psicológicas. Desnudam o mito do beato singular, arraigada à Conselheiro, mostrando-nos que era comum nos sertões a presença de diversos “monges”, beatos, peregrinos messiânicos e curandeiros.  Enfatizam a mobilidade militar e estratégias de guerrilhas utilizadas pelos sertanejos como características chave para entendermos a resistência consciente de Canudos. Mas, principalmente alertam para um fator de grande peso na saga de Belo Monte e sua gente:


“Uma comunidade que atingiu as proporções assumidas por Belo Monte não sobreviveria nem resistiria isolada, por tanto tempo, a ataques maciços e violentos. Pouco se sabe sobre as relações mantidas entre o Conselheiro e o arraial de Belo Monte com as comunidades baianas vizinhas, sobretudo das imediações, antes e durante o conflito armado. Possivelmente, novos estudos revelarão que Belo Monte foi  apenas um epicentro de uma convulsão social mais ampla, a capital de uma república sertaneja rústica e informal.” (MACEDO E MAESTRI, 2004)

Os autores determinam outros fatores de importância para o compromisso dos historiadores com os sujeitos históricos que viveram em Belo Monte. O compromisso com o resgate do perfil de indivíduos como Pajeú João Abade, Antônio Beatinho e tantos outros e outras que passaram despercebidos pela história. Partindo da ótica da produção de patrimônio material e imaterial que foi gerado pelo evento Belo Monte/Canudos na estrutura contemporânea aos fatos é de tão grandiosa relevância para a história dos famigerados latinos americanos, que nós, brasileiros, não temos noção. Temos uma enorme contribuição das tradições populares que transmite sua cultura através oralidade. No nordeste é peculiar a literatura de cordel, os cânticos e cantigas através dos festejos populares, onde a história é reinventada. “A lira é arma de combate em muitas oportunidades. Versejando e cantando, o vate e o cantor contribuem para a vitória do seu grupo, exaltam seus heróis, ferem fundo os adversários...” nos invade de profundo significado as palavras de José Calasans sobre o poder ideológico da cultura popular na transmissão de experiências do passado. Até o desfecho dos fatos podem ser revertidos.
Somos dotados da inconsciência dos fatos, em toda sua materialidade. O que venho propor neste humilde ensaio é um olhar sobre Canudos do que restou. A história daqueles que não sabiam escrever, mas deixaram que seus vestígios os eternizassem, na história. A cultura material tem grande contribuição para a interpretação do arraial de Belo Monte e de seus moradores. Através da cultura material produzida em um determinado local, podemos analisar com mais precisão qualitativa dos valores culturais empregados na época. Como por exemplo, qual o valor de determinado patrimônio para aquela comunidade que estamos apontando, no caso do arraial de Canudos, as igrejas e locais santuários. Até que ponto, despediam esforços nas suas construções religiosas e que valor tinha este patrimônio material para a comunidade? Os registros materiais podem nos ajudar como se conformava os processos de status social dentro do arraial. Quais as marcas que foram deixadas pelos ardentes combates entre sertanejos “fanáticos (por liberdade e melhores condições de vida)” e as tropas militares bem armadas e sedentas em restabelecer a ordem nos sertões a qualquer custo. As marcas no solo do sertão baiano onde implantou-se a utópica e corajosa comunidade de Belo Monte/Canudos liderado por Conselheiro e seus “generais”, herança dos sangrentos combates podem nos revelar algumas coisas.
Arqueologia histórica e as histórias da guerra de Canudos: uma valiosa contribuição

“Andando pelo parque é possível ver no chão cartuchos, pentes e projéteis relacionados aos combates, trincheiras, sepulturas, restos de edificações e eles mostram algumas coisas interessantes.”
“... nos distanciávamos de uma arqueologia da morte para fazer uma arqueologia da vida em Canudos.” Zanettini

O arqueólogo Paulo Eduardo Zanettini desde a década de 1980 vem pesquisando a área onde se situava o arraial de Canudos. Os estudos preliminares iriam ser utilizados para a implantação de um parque estadual visando o desenvolvimento do semi-árido baiano. Zanettini participaria de um projeto da implantação de um parque histórico no projeto Canudos, juntamente com a Universidade do Estado da Bahia (Uneb)  numa área de aproximadamente 18 Km², estudando os vestígios relacionados aos conflitos bélicos. Primeiramente, este pesquisador aponta que a escolha do local por Antônio Conselheiro não foi apenas por “iluminação divina”, pois nos arredores do arraial era abundante os afluentes do rio Várzea-Barris, tornando a região bem irrigada e consequentemente apropriada para a implantação de uma ocupação humana. A região demonstrou enorme potencial arqueológico com sítios caçadores coletores pré-coloniais e de grande importância paleontológica com restos de coníferas fossilizadas. A região reocupada no período conselheirista apresenta notável significância do ponto de vista científico.
Na década de 1970, a região onde era o arraial foi inundada pela implantação do açude Cororobó, que para os descendentes dos sertanejos sobreviventes de Canudos, não passava de uma estratégia para apagar a memória dos combatentes do “arraial – santo”. Os trabalhos de prospecções arqueológicas começaram  praticamente uma década após os primeiros contatos com a área de estudo. A triste constatação de Zanettini, não foge à regra da depredação do patrimônio cultural brasileiro: “...a ausência de proteção conduziu, em uma década, à redução ou desaparição por completo de vestígios que outrora brotavam do chão. Encontramos gente de Canudos comercializando souvenires da guerra.” Quando a comunidade comercializa sua memória de maneira extremamente danosa e irreversível, faz parte da falta de políticas de educação patrimonial para a preservação e proteção do patrimônio cultural.
Quando começou uma extrema seca no açude Cocorobó, em 1996, o arraial de Conselheiro começa a surgir, proporcionando a realização das escavações arqueológicas.

O local batizado de “Vale da Morte” mostra toda a brutal realidade dos soldados e combatentes conselheiristas, que enfrentavam seus desígnios com tanta coragem , muitos foram enterrados em valas comunais,e muitas vezes juntamente com animais. Nos registros arqueológicos apareceram ossos de cavalos em valas comunais com centenas de soldados. Os oficiais recebiam melhor tratamento sendo sepultados com honras e glórias em valas individuais. Um dos agentes tafonômicos deste sítio arqueológico, são os bodes que em época de seca procuram repor o cálcio de sua alimentação nos sepultamentos rasos que ficam expostos na superfície.
Uma das descobertas mais interessantes ocorreu na Fazenda Velha, onde foram encontrados vestígios de intensa ocupação humana, onde na maioria dos registros escritos diz que Conselheiro escolheu o local porque era desabitado. “Escavando ao redor das ruínas da casa sede da fazenda recolhemos uma enormidade de fragmentos de louças inglesas, francesas e holandesas, características da produção européia dos séculos XVIII e XIX que nos mostravam de imediato que a tal edificação foi ocupada durante essa época. O lixo deixado por seus ocupantes não mente e indicava que ela foi intensamente ocupada ou, pelo menos, intensamente equipada para receber visitantes com o que havia de melhor em abundância nas cidades do litoral como Salvador no decorrer do século XIX. O que se podia encontrar na época em casas de famílias de certa posse no Recife ou em Salvador também existia lá. Desses documentos, na verdade o lixo da casa, podemos tirar algumas conclusões. Conselheiro não escolheu a esmo esse local. Não se tratava de fato de um lugar ermo e desabitado, dados que pesquisas realizadas mais recentemente vêm comprovando. Para a arqueologia, algumas respostas podem ser imediatas, bastando interrogar o próprio sítio arqueológico.
No interior do parque, defronte a Canudos, identificamos os alicerces de outras casas de fazenda pertencente à gente importante como a família Macambira, os irmãos Vilanova. Ao seu redor, os caraterísticos cacos de louça européias, indicavam que esses grupos dominantes na hierarquia canudense mantinham hábitos distintos aos da hoste conselheirista que vivia abaixo na "Tróia de taipa e palha". Eram pessoas diferenciadas que ocupavam uma posição física distinta. Não residiam no interior da cidadela. E se escreveu tanto a respeito da igualdade em Canudos...”
Um dos locais mais freqüentados pelos moradores de Belo Monte foi  praça das Igrejas, onde os pesquisadores conseguiram fazer uma impressionante reconstituição a partir das fotos tiradas em 1897 por Flávio Barros. Dedicaram-se ao estudo da fundação destas igrejas, evidenciando vestígios de metal e em menor número de madeira. Belo Monte era extremamente singular no sertão baiano, pois era a única que possuía duas igrejas faceadas, marca inerente ao Bom Jesus Conselheiro. Além disso, foi evidenciada a estrutura de uma capela, ou uma pequena igreja com a dimensão de 306 m².
Atualmente funciona o Parque Estadual de Canudos (PEC) em pleno semi-árido baiano onde é necessário marcar horários para a visitação. É onde funciona o memorial de Canudos, que visa à manutenção da memória local conjuntamente com a comunidade. Logo após a derrocada de Belo Monte sobreviventes do genocídio e seus descendentes voltaram a repovoar a região, nas margens do rio Várzea-Barris. O arraial de Canudos ainda transborda esperança na memória de sua comunidade.

¹ O grande folclorista José Calasans escreveu A guerra de Canudos na poesia popular(1952), Canudos na literatura de cordel (1984), No tempo de Antônio Conselheiro (1959) e Quase biografia de jagunços (1986).
² VILLA, Marco Antônio. Canudos: o povo da terra. SP, Ática, 1995.
Consulta:
MACEDO, José Rivair; MAESTRI, Mário. Belo Monte: uma outra história da guerra de Canudos.4°ed.SP; Expressão Popular, 2004.
Internet:
http://www.itaucultural.org.br/arqueologia/
http://www.comciencia.br/reportagens/arqueologia/arq19.shtml
Leonardo Gedeon
Enviado por Leonardo Gedeon em 17/10/2007
Reeditado em 23/10/2007
Código do texto: T698582
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Sobre o autor
Leonardo Gedeon
Torres - Rio Grande do Sul - Brasil, 35 anos
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