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A CACHAÇA DO CAPA ONÇA

A CACHAÇA DO CAPA ONÇA

Autor Moyses Laredo

Uma certa manhã, bem cedo, quando seguia para a nova sala, que a Prefeitura me reservara para desenvolver meus trabalhos, do Projeto Rondon, ao passar por um bar, que ficava do outro lado da calçada, lugar que sempre avistava uns tipos mal-encarados, bebendo e jogando bilhar (de três bolas), neste dia, um deles chamou bem alto, com um vozeirão rouco catarrento - Galego! Galego! Vem cá, vem cá! - Não estava acostumado com esse apelido, (a todas as pessoas de pele branca, ganham esse apelido por lá), parei, me virei e vi um sujeito gesticulando, entendi ser comigo, não havia ninguém na rua, atravessei e fui ao seu encontro, ele se adiantou passou a mão no meu ombro e me conduziu pra dentro do barzinho mal iluminado com poucas mesas, encostou-se no balcão, desemborcou um copo da bandeja, batendo forte com o fundo no balcão, mandou o homem do bar encher bem, da mais pura e cristalina cachaça já vista, o homem ainda argumentou, - Homi, o menino é de fora! - Mesmo assim, o sujeito mal-encarado com seu chapéu de palha grossa desfiado nas abas, barba rala, rosto bexiguento, zarôi, daqueles que, um olho apontava para um lado e outro pro outro, daquele tipo quando mata porco à machadada, ninguém quer segurar as orelhas pra ele bater, porque um olho mira a cabeça do porco e o outro, em quem segurar azurêa dele. O homi tinha também uma falha enorme na sobrancelha, prováveis marcas de brigas, como daqueles gatos de rua. Seus dentes separados e de vários tamanhos e cor, com predominância para o verde limo, pareciam ter todos nascido sem ordem natural na boca. Para completar, o hálito era horrível, valha-me nossa, era fétido como ácido butírico, (aquele encontrado nos piores vômitos), me inquiriu, quase nariz com nariz, perguntando se eu não bebia o que eles bebiam? E por que? Se eu me achava melhor do que eles? Na mesma hora, senti o clima e o bafo repugnante também, porque as pessoas com bafo tem tanta coisas pra falar? (acho que é para desabafar!!!) me afastei com a cara toda chuviscada de cuspe, fiz pose, derrubei um pouco de cachaça nas mãos, passei no rosto, (para desinfetar) eles se olharam, achando novidade a minha presepada, segurei o copo olhando bem pra ele e o levei à boca, com aquela água claríssima translúcida, me afobei no primeiro gole e senti o fogo satânico que emanava de dentro daquele inocente copo de geleia, era pura larva vulcânica incandescente, descendo goela a baixo, a cada gole, vazavam, vapores do puro álcool, pelas narinas, como uma caldeira aliviando a pressão. Eles gostaram, riram, e tomavam várias doses de uma entornada só, não pude entender como bebiam aquilo de forma tão natural, de vez em quando, o sujeito de bafo fedorento, se lembrava de mim e levantava o meu cotovelo, da mão que eu segurava o copo, gesticulando para continuar a beber. Tomei fôlego voltei a engolir outra talagada bem devagar, depois, só submergia os beiços no copo, igual aqueles meninos barrigudos que nunca tomaram guaraná. Quando começava a arder os beiços, mastigava umas piabinhas fritas, colocadas como tira-gosto, nessa marcha derrubei duas terrinas delas, enchi o bucho de piabas fritas misturadas com cachaça, mesmo assim, não conseguia beber o resto do copo de uma só vez.
As piabinhas, variavam de tamanho, a maior tinha no máximo 7,0 cm, poderiam ser usadas como peixinhos de aquário. Os pescadores que eram moradores de perto, vendiam-nas nesse dito bar, o que conseguiam num dia inteiro pescando no riacho. Assim que traziam, as bichinhas, algumas ainda se debatendo, eram jogadas, do jeito que vinham do riacho, na frigideira feita no disco de arado até a boca com óleo quente, com escamas, bucho e tudo, algumas até ensaiavam uma nadadinha no óleo quente, mas, paravam no meio do caminho fritas e crocantes. Sempre que passava para a salinha, que a Prefeitura havia me preparado, via vários homens, mulheres e meninos, de cócoras, na beira do riacho pescando, ficavam ali o dia inteiro, as piabinhas eram fisgadas com alfinete cabeça, dobrado feito anzol com um pedaço de minhoca magra se contorcendo na ponta como isca, tudo amarrado com linha ponto 30 de costura, à uma vara fina de bambu. Dedicavam o dia inteirinho ali quietinhos, na verdade estavam arranjando o que comer. Nas entressafras, um batalhão de homens não tinha trabalho e se viravam como podiam. No final do dia conseguiam perto de 1 Kg ou mais, de piabinhas, que eram vendidas a pouco mais de R$ 1,00 real, nos botecos, ali, centavos valia.
Ainda de copo meio vazio, (ou meio cheio?) fiquei embromando como podia, até cheguei a soprar forte no copo várias vezes para ver se aquela desgraça de cachaça evaporava um pouco, mas nada, a bicha estava bem destilada, puxei conversa para manter o grupo animado, contei as minhas histórias de caçadas na Amazônia, tudo inventado! cada uma mais cabeluda que a outra, que até eu mesmo não sabia o final! Contei uma, que certa vez caçando à noite na mata, foquei a lanterna e vi uma cobra, a maior já vista naquela região, a danada media quase três palmos, ...olhei pra eles para ver se estavam prestando atenção, quando um deles disse: - Mas Galego, por aqui desse tamanho de cobra faz é mato! Aí eu completei, para a gargalhada geral, - Mas ela media isso, de olho pra olho!!! E tome conversa doida pra cima deles, a cada uma contada, se entortavam de rir, suas gargalhadas chuviscadas de cuspes e tosses catarrentas, vinham acompanhadas com o bafo fedorento direto na minha cara, e eu, esgrimava aquilo tudo com a cabeça, tentando desviar da minha puxada de ar. Conversa vai bafo vem, até que o copo todo foi entornado, isso já perto das onze da manhã.
Um amigo, notando minha ausência fez procuração e acabou me encontrando, estava mais pra lá do que pra cá. Como ainda conseguia me manter de pé, porque cruzei as pernas, mas a cabeça começava a girar, meio tonto, pedi por sinais que o amigo me levasse dali, ele alegou alguma coisa para os homens que sorriram, e ainda me acompanharam até ao carro, ganhei alguns sopapos nas costas, em forma de cumprimentos, ouvi ainda um deles dizer: - Galego macho esse! Soube depois que o sujeito do bafo era conhecido como “capa-onça”, matador muito temido naquelas bandas. Escapei fedendo, com trocadilho, assim mesmo!

Molar
Enviado por Molar em 27/06/2020
Código do texto: T6989757
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Sobre o autor
Molar
Manaus - Amazonas - Brasil
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