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Dileta

A falta de originalidade é,  arrisco, a principal característica do amor.  Pelo menos,  do romântico.  Ao arrepio de toda genialidade que já o escreveu, ou cantou,  ele insiste na platitude.  Tem começo,  meio e fim.  Sim,  um fim sumário.  Indefectível.  E,  deste destino inapelável, deste termo dogmático, nasce toda poesia, e prosa, que em desepero tenta dar, ao amor, a imortalidade que ele promete,  mas não pode cumprir.

Intróito erigido,  forçoso, penso, ir ao óbvio.  Ululante.  Este amor, figadal,  que torce-nos as tripas,  constrange,  beligerante,  o coração, é o pathos. Este eros ensandecido que barafusta a Razão à gaveta do esquecimento.  Que ridiculariza Suas tentativas de chamar-nos ao cálculo das consequências e, assim, pesar o sensato e por ele decidir.

Agora, o não tão óbvio assim.  O nada,  em verdade.  É possível,  aliás só é possível,  este pathos,  na impossibilidade.  Sim, no impossível.  Quando ela, a paixão,  dá seus passos no chão batido do ideal.  Na imaginação que ergue-se,  soberana,  na,  e da,  falta.  Isso! Como o helênico já havia elaborado no Simpósio,  aqui traduzido por Banquete.

Aí,  talvez, possamos, com algum esforço,  entrar em contradição com as alegações do primeiro parágrafo.  Eis,  então.  Alguns querem exatamente esta medida da paixão! Do amor querem viver sua falta,  sua recusa,  para que a construção das ideias que ela enseja seja o alimento das sensações conflitantes e, por isso,  vivas de um jeito outro inalcançáveis!

Aqui,  se claro  não ficou,  entra você.  A protagonista desta estória, uma com o verniz do querer inaudito. E,  neste,  interpreta seu papel como a mais habilidosa das personagens.  Transindo-me com a única régua que podemos nos casos onde o inviável é a realidade. Que me atravessa  sem digressões.

Mas, pois sempre há um mas em tudo,  toda narrativa tem seu poente.  Aquele que ela merece.  Esta não conseguiu escapar ao vulgar de todas.  E, aí reside sua beleza.
O contrário a colocaria na prateleira dos clichês mais cinzas.  De um púmbleo mortalmente intolerável.

Pois, o poeta já não foi pedagógico? "Posto que é chama..."

MementoMori
Enviado por MementoMori em 12/01/2021
Código do texto: T7157763
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
MementoMori
Não-Me-Toque - Rio Grande do Sul - Brasil, 45 anos
40 textos (1015 leituras)
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