Juros, o que são - Todo Incognoscível 28

Este é um ensaio sobre economia, mas antes de continuar preciso falar a respeito do preconceito. O autor cuja ideia inspirou este ensaio é tido pela maioria dos meus amigos como uma espécie de Hitler, um facista. Isto se dá porque pessoas da extrema direita manifestaram simpatia por ele. Entretanto tal autor (Mises) era completamente avesso ao facismo e grande parte de seus escritos se deu contra a instalação de qualquer regime totalitarista. Inclusive o motivo para ter ido aos EUA foi a fuga do regime nazista. Suponho que tal simpatia da extrema direita se dá devido aos ataques que Mises fez ao comunismo. Tais ataques, se deram a partir da perspectiva teórica, foram motivados devido à tendência totalitária dos regimes comunistas. Chamar Mises de facista é puro preconceito.

Neste ensaio apresento os conceitos de dinheiro e de juros, naquilo que Mises mais me impressionou, mas tratarei o tema a partir de uma perspectiva diferente e mais didática. Mises parte da ação humana (as decisões que qualquer pessoa toma, mesmo no dia a dia) para deduzir toda a economia. Minha abordagem será diferente, vou usar um conceito extremamente simples, mas com grandes consequências, o conceito de ‘arbitragem’ e, a partir dele, vou explicar primeiro o dinheiro, depois os juros.

Aqui no DF se produz morango em Brazlândia, portanto o preço lá é extremamente barato, mas o consumo se dá em outros lugares, por exemplo, na Asa Sul. Então uma pessoa pode ver esta diferença de preços e agir para se beneficiar dela. Quanto mais o comerciante (que faz a arbitragem) compra, mais o preço do morango em Brazlândia sobe (para os produtores); quanto mais o comerciante vende na Asa Sul, mais o preço do morango cai (para os consumidores); e quanto mais o comerciante trabalha mais ele ganha o dinheiro (com a diferença entre o preço da venda e da compra). Como mostrei no ensaio anterior, cada pessoa só entra em uma transação comercial ao avaliar que está melhor com ela. O ponto importante da arbitragem para este ensaio é que quanto mais é praticada mais uniforme são os valores dos produtos.

Tal efeito se torna muito claro em relação a bens indiferenciáveis, como açúcar, milho e minério de ferro. As especificações do produto são muito precisas, o que torna indiferente a origem do produto. Assim o preço de cada commodity varia muito pouco e tal variação tem a ver com os custos de transporte e impostos. Um dos produtos que tem a característica de ser indiferenciado é o dinheiro, supostamente uma nota de 100 reais vale tanto quanto outra, mesmo que uma esteja em perfeitas condições e a outra esteja amassada e suja. Entretanto o termo ‘commodity’ se refere a bens que são usados como matéria prima, se fosse apenas por ser indiferenciado o Real seria uma commodity. Sempre que um comerciante compra morangos em Brazlândia e vende na Asa Sul ele está arbitrando o preço do morango (em relação ao Real), mas o comerciante também está arbitrando o preço do real (em relação a morangos). Assim se torna claro que o dinheiro é o bem que mais passa por arbitragem, é por isto que se torna o bem de referência a partir do qual os outros bens são negociados.

A arbitragem necessariamente envolve duas características: primeiro diferença de preços, se o preço for o mesmo ninguém se habilitará ao trabalho de comprar e vender; segundo diferença de “lugar”, ninguém compra em um lugar e vende exatamente no mesmo lugar em que se está sendo ofertado o mesmo produto a um preço mais baixo. Por ‘lugar’ me refiro não apenas à localização geográfica. Suponhamos que encontro uma bicicleta sendo vendida na minha quadra em um site, eu a compro, depois em outro site a revendo para alguém que mora na mesma quadra. Então a arbitragem não se deu num “lugar” físico, mas num digital. Da mesma maneira existem bens que são negociados a preços diferentes em sites diferentes (um exemplo atual são as moedas digitais, como o bitcoin). Se a diferença for significativa (maior do que a taxa de transação) uma pessoa pode comprar em um site (ou de uma pessoa) e vender para outra e, assim, arbitrar com a diferença. Desta maneira tornando a moeda ‘bitcoin’ com preço relativamente uniforme em qualquer lugar que esteja sendo negociada.

Agora vamos generalizar um pouco mais o conceito de ‘lugar’ na arbitragem, vamos incluir também o tempo. Suponhamos que uma fábrica de macarrão tem trigo suficiente para sua produção, seus estoques estão cheios. Entretanto, ela quer garantir o trigo para a produção do ano que vem. Daí ela pode oferecer um preço por tal trigo para ser entregue no futuro. Um produtor de trigo pode oferecer o trigo a um preço muito inferior, mas a oferta é para agora. Um comerciante, pode perceber esta oportunidade e construir um galpão, comprar trigo hoje (ao preço atual) e entregar no ano que vem. O comerciante, neste caso, fez uma arbitragem do preço do trigo em relação ao “lugar” tempo.

Vou comparar a arbitragem geográfica (do morango) com a arbitragem no tempo (do trigo) para mostrar como são semelhantes. No exemplo do morango temos um comerciante que diminui a diferença entre os preços entre Brazlândia e a Asa Sul. Isto beneficia quem produz o morango (quanto mais demanda mais o preço do morango é pressionado para cima), beneficia quem compra o morango (pois quanto mais morango ofertado menor seu preço) e beneficia o comerciante (pois sua fonte de renda é justamente a diferença entre o preço que comprou e o preço que vendeu). No exemplo do trigo temos o produtor que é beneficiado com a compra do seu trigo, temos a fábrica que tem assegurada a segurança de ter o trigo no futuro e o comerciante que ganha com a diferença entre a compra e a venda.

Nos ensaios anteriores mostrei que o “melhor” do comércio se dá de acordo com a avaliação de quem entrou no comércio e se dá de acordo com informações incompletas e com capacidade de avaliar as informações imperfeita. Eu, por exemplo, eu já comprei frutas e as deixei apodrecer. Se eu soubesse que isto aconteceria não as teria comprado. Além disso, o “melhor” se dá sob a ótica de quem participou do comércio. A minha compra do morango é a melhor para mim e para o vendedor (segundo a avaliação de cada um de nós, caso contrário a venda não teria ocorrido). Mas não necessariamente é o melhor para o vendedor de morangos concorrente (que deixou de vender para mim) ou para a pessoa que estava vindo após mim, que talvez tivesse escolhido a caixinha de morangos que eu peguei. Feita esta ressalva quanto à 'melhor', vamos continuar o ensaio com outra reflexão a respeito do conceito de arbitragem.

Nos dois exemplos anteriores usamos a arbitragem entre dois produtos, no primeiro caso foi ‘dinheiro’ por ‘morango’, no segundo foi ‘dinheiro’ por trigo. O que faz sentido, pois por que alguém trocaria um bem exatamente pelo mesmo bem? Por que alguém trocaria trigo por trigo ou dinheiro por dinheiro? Ao lembrarmos que ‘tempo’ entra na equação então faz bastante sentido. Suponhamos que a pizzaria Tomate’s tivesse comprado excesso de queijo e houvesse a chance dele estragar, ela aceitaria de bom grado dar um pouco do queijo para a concorrente e pedir em troca uma quantidade menor de queijo no mês que vem (caso contrário todo o queijo vai se perder). Ou o contrário, caso a demanda estivesse extremamente alta a pizzaria poderia pedir queijo a outro restaurante, pedindo um pouco de queijo agora e pagando com uma quantidade superior de queijo no futuro.

Este tipo especial de comércio de um mesmo produto (adquirido num momento e devolvido num momento posterior) tem um nome específico, se chama “empréstimo”. Aquilo que é emprestado também tem um nome específico, se chama “principal”. A diferença entre o que é recebido e o que é pago se chama “juros”. O passo final para entender os juros é mostrar que eles só podem ser entendidos dentro de um determinado intervalo de tempo. Por exemplo, pegar 100 reais hoje e devolver 110 reais amanhã (10% ao dia) é bem diferente de eu pegar 100 reais hoje e devolver em 362 dias (10% ao ano). E este é o ponto mais incrível do que são os juros: por que alguém aceita pagar cento e dez reais por cem reais?? E em quanto tempo aceitaria? Darei um exemplo hipotético para apresentar um conceito incrível em relação aos juros, o conceito de ‘preferência temporal’.

Este ensaio mostra porque o dinheiro é útil: em regra um bem aumenta de preço quando sua demanda aumenta e reduz quando sua oferta aumenta. A arbitragem se dá quando um comerciante percebe que tal diferença de preços existe. Ao comercializar ele compra onde está barato (fazendo pressão para alta de preços) e vende onde está caro (fazendo pressão para baixa de preços). O comércio se dá usualmente entre dois produtos, sendo que o mais comum é usar o dinheiro (como o real, no Brasil). Quando se dá este comércio há uma arbitragem em relação ao preço de ambos os produtos, da mesma maneira que a arbitragem contribui para deixar o preço do queijo mais uniforme (em relação ao real) também contribui para deixar o preço do real mais uniforme (em relação ao queijo). Como o real é arbitrado em relação a todos os produtos da economia ele se torna um bem com preço relativamente uniforme em relação a cada um deles, portanto se torna indiferente fazer o cálculo usando o produto (como o queijo) ou usando o seu preço em reais.

Este ensaio também explica porque existem os juros: os juros são a expressão da preferência temporal. Quanto maior minha preferência temporal, maior minha disposição em pagar por um bem para tê-lo agora. Uma pessoa ao lado pode emprestar um bem (como o dinheiro, por exemplo) em troca de mais do mesmo bem mais tarde. Mas também é possível um comerciante perceber que alguém tem uma preferência temporal extremamente alta em uma ponta e outra pessoa com uma preferência temporal mais baixa em algum lugar, tal comerciante pode arbitrar a diferença (este papel costuma ser desempenhado por bancos).

No ensaio anterior mostrei que o preço que alguém decide pagar por um bem é completamente subjetivo. Entretanto, o preço no mercado é a expressão do que toda a população está disposta a pagar naquela determinada condição. Até porque se alguém decide vender muito mais barato alguém vai comprar, mesmo que seja apenas para revender (arbitrando o preço). Se alguém anunciar a um preço extremamente mais caro ninguém vai comprar, pois ao lado o mesmo produto pode ser encontrado mais barato. Portanto, o preço é intersubjetivo (expressa tanto minha disposição a pagar por determinado produto como a disposição de todas as outras pessoas que se encontram no mesmo mercado). Exatamente o mesmo se dá com os juros.

Se a minha preferência temporal é alta, estou disposto a pagar muito para ter um bem hoje (mais do que estou disposto a esperar e economizar para pagar pelo bem no futuro). Quanto estou disposto a pagar a mais para ter o bem hoje? No exemplo extremo da pizzaria que está com a casa cheia e esgota o seu insumo principal (o queijo), ela se dispõem a pagar um juros de 20% ao dia, pois todo o queijo comprado será vendido na forma de pizza na mesma noite e com o pagamento será possível ter lucro e pagar o empréstimo no dia seguinte. Já um estudante pode pegar um empréstimo para pagar a faculdade e começar a pagar apenas após se formar, mas para tal aceita juros de 5% ao ano, pois não tem certeza de que seu diploma dará garantia de um bom emprego.

Do outro lado temos pessoas que gostariam de gastar seu dinheiro, por exemplo viajando para a praia. Mas que aos juros de 5% ao mês preferem guardar mais alguns anos para, ao invés de viajar, dar entrada em um imóvel. E também temos pessoas que guardam e aceitam apenas 1% de juros ao ano, vão guardar de qualquer maneira… Mas se render juros, melhor! Estas são pessoas que tem uma preferência temporal baixa, guardam para realizar algum sonho, ou mesmo por prudência.

Agora, da mesma maneira que o preço do trigo é arbitrado, o preço da preferência temporal (juros) também é arbitrado. Uma pessoa vai guardar mesmo que a juros de 1% ao ano, é hábito dela guardar, ela quer ter segurança que uma boa poupança provê. Entretanto, no contexto do mercado esta pessoa será remunerada a juros de mercado. Da mesma maneira que o trigo tem um preço uniforme os juros também tem um preço uniforme: mesmo quem ia guardar de qualquer maneira vai receber uma remuneração de 6% ao ano só por deixar o dinheiro em um investimento muito conservador, pois esta é a remuneração de mercado para um investimento conservador. O mesmo ocorre na ponta de quem compra. Um jovem que quer muito dinheiro para ir a uma festa cara pode estar disposto a pagar 20% de juros em 15 dias (pois é quando entra seu salário). Entretanto ele vai pagar os juros de mercado do cheque especial, digamos 2% por 15 dias.

Peraí, mas eu conheço duas pessoas que pegaram empréstimo, inclusive foi no mesmo banco. Uma pagou juros de 1% ao mês e a outra pagou juros de 5% ao mês! Se os juros são arbitrados, não deveriam ser aproximadamente os mesmos juros para ambas as pessoas?? Tal diferença é explicada pelo risco do calote. Uma linha que desconta as parcelas da folha de pagamento (um consignado) cobra menos juros do que um empréstimo para alguém que nem sequer tem renda comprovada.

E mais, o risco do calote é extremamente claro para algumas pessoas. Um servidor (que por lei não pode ser demitido) em um consignado (descontado direto da folha de pagamento) apresenta um risco muito conhecido (e muito baixo). Tal empréstimo se assemelha muito a uma commodity, é um produto padronizado, portanto tende a preços semelhantes. Já um empréstimo para um ambulante tem os riscos muito difíceis de serem calculados. Uma empresa que movimenta suas contas por muitos anos estima que pode oferecer um empréstimo devido ao perfil de movimentação. Tal avaliação varia muito de cliente para cliente. O que torna este tipo de empréstimo mais parecido com a venda de morangos, cada morango tem uma aparência, um sabor. Há produtores que conseguem morangos orgânicos e doces, há produtores que produzem com muito agrotóxico e o morango é muito azedo e é difícil avaliar qual é qual. Daí o preço do morango variar mais do que o do trigo. De maneira semelhante, cada pessoa (da iniciativa privada) tem uma renda e compromissos financeiros muito diferentes e é difícil estimar quanto elas podem comprometer de sua renda com parcelas de empréstimos. Este é o motivo pelo qual os juros variam tanto entre as pessoas.

A esta altura você pode estar pensando. Entendi que a arbitragem é um mecanismo que mantém os preços relativamente uniformes dentro de um mercado, entendi que os juros podem ser considerados o preço da preferência temporal. Mas… Eu vejo no jornal que a taxa de juros da economia (taxa SELIC no Brasil, FEDs rate nos EUA) é determinada pelo Banco Central. Bem, este é o terceiro ensaio de economia. No primeiro escrevi sobre a diferença entre valor e preço. No segundo escrevi sobre como o dinheiro facilita a distribuição de bens e demanda. Neste (terceiro) expliquei que os juros são o preço da preferência temporal. Nos próximos escreverei sobre as falhas do sistema: explicarei por que um ente centralizado (neste caso o Banco Central) é menos capaz de decidir um preço (neste caso o preço dos juros) do que o mercado. No último ensaio mostrarei o lado cruel do mercado - embora escrevendo a partir de uma perspectiva consistente com a escola austríaca esta é uma crítica que nunca vi elaborada, portanto entendo que será uma contribuição original.

REVISÃO

DINHEIRO É O BEM MAIS ARBITRADO

Neste ensaio mostrei como os preços no mercado podem ser entendidos a partir do conceito de arbitragem. Quando há o comércio, no mínimo dois bens são trocados. No comércio o morango é comprado onde é mais barato e é vendido onde é mais caro, fazendo com que o preço nas duas praças fiquem um pouco mais uniforme. Neste processo cada pessoa envolvida entende que se beneficiou do comércio (caso contrário ficaria de fora da transação). Da mesma maneira que é possível entender comércio como a arbitragem do morango (comprá-lo barato em algum lugar e vender caro em outro lugar), também é possível entender como a arbitragem do dinheiro (em relação ao morango). O dinheiro foi comprado (por morangos) onde é barato é vendido onde é caro (em relação aos morangos).

O dinheiro, assim, é arbitrado em relação a praticamente todos os bens de um mercado e, por isto, tem seu preço relativamente uniforme. O que faz com que seja um bom bem de referência (para os contratos comerciais).

ARBITRAGEM NO TEMPO É JUROS

Também vimos que a arbitragem não necessariamente ocorre em um lugar físico, pode ser em um lugar virtual (comprar em um site e vender em outro) ou mesmo pode ser no “lugar” tempo, (comprar agora e vender depois). Uma vez que o tempo entra na equação se justifica comprar e vender exatamente o mesmo produto, aceito vender meu dinheiro agora e receber depois (mais caro). O nome desta diferença de preço do mesmo produto quando vendido no futuro é “juros”. E os juros, da mesma maneira que qualquer produto, são decididos no mercado. O empréstimo, assim, é como qualquer comércio, qualquer pessoa só entra nele se entende que está melhor do que estaria caso não o pegasse. Entretanto, o empréstimo tem sua peculiaridade em relação ao comércio em geral. Primeiro usualmente se dá na compra e venda do mesmo produto (dinheiro), segundo ele é ponderado pelo risco do calote.

CONCLUSÃO

A beleza da escola austríaca de economia é sua simplicidade. A partir de conceitos extremamente simples é possível derivar outros conceitos. Que dão conta da complexidade da economia. Para mim, como cético, é importantíssimo notar que a escola austríaca resolve tais problemas sem apelar para “essência”, “real” ou qualquer recurso metafísico de origem obscura. Entendo que a escola austríaca é adequada para entender o mercado, inclusive naquilo em que diverge dos meus valores. O último ensaio desta série será mostrando a consequência indesejada (de acordo com meus valores) do mercado livre e sugerindo uma maneira de resolvê-la.