Os nossos irmãos, os essénios
 25/06/2021 essénios
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Índice

A Comunidade essénia
Há utopias sonhadas e utopias tentadas. Umas assumem feições políticas, outras se mantém no terreno da religião. Algumas são apenas sonhos de filósofos, que jamais saem do papel. Neste rol alinhamos as Utopias renascentistas de Thomas Morus e Cidade Mágica do Sol, de Tommaso Campannela.
A Maçonaria é uma utopia filosófica e os seus cultores, não raras vezes, tem influenciado na vida prática dos povos. O seu envolvimento com a política é muito mais estreito do que com a religião, embora muitas vezes seja confundida com uma, justamente pelo facto de incorporar nos seus catecismos diversos motivos temáticos e litúrgicos inspirados por seitas religiosas, algumas inclusive, anteriores ao Cristianismo.
Uma das seitas que muito influenciaram a Maçonaria, na sua face espiritualista, foi a seita dos essénios, cuja organização, estrutura, doutrina e prática de vida a coloca na categoria de uma utopia politico/religiosa.
Os essénios constituíam uma comunidade místico-religiosa formada por iniciados nos mistérios da religião hebraica. Os seus membros acreditavam ser detentores do verdadeiro conhecimento sagrado, aquela sabedoria que Deus comunicara aos primeiros homens e que desaparecera da terra após o dilúvio. Muitos escritores de orientação espiritualista os fazem herdeiros dos atlantes, atribuindo-lhes diversos conhecimentos iniciáticos, que a eles teriam sido repassados por mestres egípcios.
Duas das tradições legadas pelos essénios à História do pensamento místico, tradições estas que são aproveitadas no simbolismo maçónico de vários graus superiores, são a ideia do Homem Universal e o mistério ligado ao verdadeiro significado do Nome de Deus. Tanto a mística do Filho de Deus que se faz Filho do Homem para redimir a humanidade pecadora, quanto o poder que se encerra no Inefável Nome de Deus foram tradições desenvolvidas pela doutrina essência e repassadas à tradição da Cabala. Pela Cabala elas entraram na Maçonaria e tomaram-se simbolismos utilizados para veicular ensinamentos morais no catecismo das Lojas de Perfeição e Capitulares, e nos graus filosóficos das Lojas do Kadosh [1].
Quem eram os essénios
Entre os judeus, os essénios podem ser considerados uma espécie de sociedade secreta, de carácter religioso, cujos membros discordavam da orientação imprimida à sua religião. Formando uma verdadeira Fraternidade, eles afastaram-se do convívio social e desenvolveram uma espécie muito particular de comunidade, que na verdade, tinha um objectivo bem definido: preparar uma nova sociedade de eleitos de Deus, que seria a herdeira da Nova Aliança, quando o Messias viesse ao mundo.
Neste sentido, eles desenvolveram um complexo sistema religioso de cerimónias de iniciação, semelhante ao das seitas iniciáticas do antigo Egipto e da Grécia Clássica. Exigiam juramentos solenes de obrigações fraternas e um estrito silêncio sobre as suas práticas, crenças e tradições, ao mesmo tempo que inculcavam na cabeça dos seus adeptos uma filosofia de vida que muito se aproximava das seitas ascéticas da época, particularmente os cristãos.
As pesquisas mais recentes sobre os documentos essénios encontrados em Qumrân, localidade próxima ao Mar Morto, em 1948, revelaram que as suas doutrinas tinham uma grande semelhança com aquelas pregadas por Jesus, o que levou muito autores a considerá-los como inspiradores dos cristãos.
A ideia que se fazia dos essénios, a partir de informações extraídas de escritores antigos, como Philo de Alexandria, por exemplo, que já no século I da era cristã confessava a influência que deles teria recebido, era a de que eles constituíam uma comunidade de magos, grandes conhecedores de segredos da natureza, detentores de uma sabedoria muitas vezes milenária, oriunda, talvez, de uma civilização desaparecida.
Por força de tais informações, os essénios sempre foram envolvidos por uma aura de misticismo e mistério. Porém, com as descobertas dos pergaminhos do Mar Morto, uma nova luz foi lançada sobre essa interessante comunidade, que sobreviveu por mais de dois séculos em condições políticas muito adversas, graças à prática de um tipo muito peculiar de Irmandade.
Síntese histórica
A comunidade essência foi fundada por um personagem misterioso, referido na sua literatura ora como Mestre Perfeito, ora como Mestre Verdadeiro. Não se sabe quem foi realmente esse personagem singular, mas acredita-se que tenha sido um sacerdote levita, que revoltado com a corrupção do clero israelita da época, (início do século II a. C.), retirou-se para a clandestinidade, arrastando com ele um vasto contingente de seguidores, insatisfeitos com os rumos que a religião vinha tomando em Israel.
Uma ligeira síntese histórica ajuda a fazer uma ideia daqueles tempos. No século II a C., Israel fazia parte do chamado mundo helénico, pois desde o século IV a C. a Palestina tinha sido incorporada ao império persa, o qual por sua vez, fora conquistado por Alexandre Magno entre 326 e 323 a.C.
Após a morte de Alexandre, o seu império foi dividido entre os seus generais. A parte correspondente à Síria e Palestina ficou com Antíoco, que estabeleceu a sede do seu governo na Síria. Por volta do início do século II a C. reinava na Síria um dos seus descendentes, chamado Antíoco Epífanes.
O historiador Flávio Josefo dá-nos uma ideia do ambiente que reinava em Israel naquela época. Naquele tempo Israel era governado por uma casta sacerdotal, que além de orientar os rumos da sua política, também era responsável pela manutenção da pureza da religião de Israel. Mas essa casta só se preocupava em manter os seus privilégios, submetendo-se às pressões e influências estrangeiras, permitindo a opressão política e económica do povo e tolerando que a sua religião fosse contaminada pela idolatria dos cultos gregos e egípcios, que os exércitos de Alexandre tinham espalhado por todo o Oriente [2].
Os israelitas sempre foram muito ciosos a respeito da sua religião. Muitos preferiam morrer a adorar ídolos estrangeiros ou violar os preceitos da Torá. Essa situação, que existiu durante toda a época da dominação helénica, e se prolongou durante a ocupação romana, não raramente ensejava motivos para a eclosão de sangrentas revoltas.
Durante a época de Jesus, essa situação não se modificara, como se pode perceber no seu magistério. Jesus fazia ferrenha oposição à classe sacerdotal da sua época, conforme se lê nos Evangelhos. Essa classe, composta pelos escribas, fariseus e saduceus, interpretava a lei no seu próprio benefício e lançava sobre os ombros do povo cargas insuportáveis, “que nem com um dedo queriam levantar”, como ele dizia.
Na verdade, os escribas e fariseus que “se sentavam” na cadeira de Moisés e lançavam “cargas insuportáveis” sobre os ombros do povo, faziam parte de uma classe que, desde a conquista helénica, preferira aliar-se aos dominadores ao invés de defender as suas próprias crenças e tradições. Com isto não concordavam os “puristas”, os ortodoxos, os cultores da ideia de uma religião isenta de qualquer influência pagã. Esses “puristas” julgavam ser o culto à deuses estrangeiros, a maior das ofensas que se podia fazer a Jeová. Entre esses grupos de puristas, estavam os zelotes e os essénios.
O Mestre Verdadeiro
Um desses homens “puros” foi, sem dúvida, o chamado Mestre Verdadeiro, que fundou a comunidade essência. No início do século II a C., o sacerdócio era exercido pela família de Matatias, um rabino da tribo de Levi, famoso pelas suas posições de defesa intransigente da lei mosaica. O rei sírio Antíoco Epífanes, desejando quebrar a resistência israelita, quis implantar em Israel o culto a Zeus Olímpico. Com essa intenção, invadiu o santuário do Templo de Salomão em Jerusalém, colocando no altar do Santo dos Santos uma estátua daquele deus. Os israelitas não suportaram a violação do mais sagrado dos seus locais, e comandados por Judas, o filho mais velho do sacerdote Matatias, iniciaram a rebelião que ficou conhecida como a Revolta dos Macabeus [3].
Foi durante a Revolta dos Macabeus que um grupo de israelitas ortodoxos fugiu de Israel e se instalou na chamada “Terra de Damasco”. Liderados pelo chamado Mestre Verdadeiro (talvez o próprio Matatias, ou ainda um dos filhos), a sua intenção era praticar a verdadeira religião de Israel, na sua pureza primitiva [4].
O Mestre Verdadeiro, além de líder de invulgar talento, revelou-se profeta, legislador e poeta de excelente qualidade, a se julgar pelos hinos que compôs.
Durante todo o período de dominação helénica, o núcleo de reacção judaica concentrou-se em dois grupos: Os essénios e os zelotes. Quanto aos zelotes, o interesse para este estudo é secundário, tendo em vista que eles permaneceram principalmente no terreno militar. Foram eles, inclusive, que forneceram os combatentes que, nos anos 67-70 d.C., sustentaram uma guerra sem quartel contra as tropas romanas.
Já os essénios, conforme se percebe na literatura recuperada através dos pergaminhos do Mar Morto, pregavam uma resistência ora política, ora espiritual. Essa resistência estava sempre conexa com a ideia de um herói, um Messias, que libertaria Israel do domínio estrangeiro e renovaria a Aliança daquele povo com Deus.
Chamando-se a si mesmos de “convertidos, penitentes, pobres, justos, santos, eleitos, etc.”, os essénios diziam que o seu grupo era a verdadeira Israel, aquela nação cujo modelo Deus teria transmitido a Abraão como grupo e realizado através de Moisés como nação. Acreditavam que por ocasião da fuga dos israelitas do Egipto, Deus teria transmitido a Moisés a verdadeira sabedoria, a qual ele teria depositado na Arca da Aliança, segredos esse que Moisés não revelou no Pentateuco, mas transmitiu oralmente aos sacerdotes mais antigos da tribo de Levi [5]. Esse era um dos segredos que os essénios se julgavam depositários, e por conta dessa sabedoria eram capazes de realizar muitos prodígios, inclusive curas milagrosas e intervenções nos poderes da natureza [6].
Acreditando que a maioria dos ensinamentos bíblicos tinha sido escrito em código, eles desenvolveram uma interessante forma de interpretação do Livro Sagrado, que certamente deve ter servido de inspiração para os rabinos que desenvolveram a grande tradição da Cabala.
A organização dos essénios
Os essénios fundaram uma verdadeira Fraternidade, com características de sociedade secreta. Para se tomar membro dela era preciso que o neófito fosse portador de três atributos básicos: ser israelita, inteligente e disciplinado. Exigia-se do candidato um juramento para com a Irmandade e para consigo mesmo, no qual ele se comprometia a submeter-se à disciplina da Ordem e a perseguir os objectivos pelos quais se tornara membro dela [7]. Em princípio, o iniciado deveria viver na comunidade durante um ano antes de se tornar membro efectivo. Após este período, ele tornava-se um “numeroso ou sectário pleno”, ocasião em que deveria juntar os seus bens aos da comunidade [8]. O objectivo da comunidade era não só preservar a pureza dos fundamentos da religião israelita, mas principalmente preparar um Messias, um líder que fosse capaz de libertar o povo de Israel da influência estrangeira e reconstituir depois, o reino de Deus sobre a terra. Toda a sua organização e o conjunto da sua doutrina eram dirigidos para esse objectivo.
Não só o Messias deveria ser preparado, porém. Quando o seu reino fosse instalado, ele iria necessitar de “quadros” para governar. Assim, toda a rígida disciplina da Fraternidade era orientada também para a produção de “juízes, guerreiros e administradores”, enfim, todo o “staff’ necessário para a administração da nova sociedade que seria fundada com a sua vinda.
Na infância, e até os 20 anos, o iniciado era instruído no Livro da Meditação e nos Preceitos da Aliança; a partir dos 20 anos, passava a viver na Comunidade dos Irmãos e podia casar-se. A partir dos 25 anos poderia ocupar cargo na Congregação; com 30, ser juiz e liderar grupos. Todo esse processo era realizado mediante uma análise de mérito, onde se avaliava a “inteligência e perfeição de conduta” do iniciado, pois como previam as Regras da Irmandade, todos os homens estavam sendo treinados para formar a elite que governaria o reino que seria instalado pelo Messias.
Em função desse objectivo, os essénios desenvolveram uma organização eclesiástica, uma organização militar e uma organização judiciária. Os juízes seriam em número de dez, eleitos periodicamente entre os Irmãos com idade entre 25 e 60 anos; após os 60 deixariam a função; um sacerdote com idade mínima de 30 anos e máxima de 60, “detentor de todos os segredos dos homens e conhecedor de todas as línguas faladas na terra”, seria o juiz supremo da congregação judiciária.
Quanto à ordem militar, entre 25 e 30 anos, o irmão poderia ocupar funções de intendente; entre 30 e 45 podia-se ser cavaleiro, entre 45 e 50 oficial de campo, e entre 50 e 60, comandante de campo. Havia também um Conselho Superior da Comunidade, do qual participavam “os homens de renome”. Esses homens eram escolhidos pelas suas virtudes, o seu desempenho nas funções administrativas ou militares, ou dotes sacerdotais.
Esse Conselho constituía uma espécie de Parlamento, que por sua vez era controlado por um Colégio composto de doze irmãos e três sacerdotes, “perfeitos em tudo o que é revelado em toda a lei, para praticar a justiça, a verdade, o direito, a caridade afectuosa e a modéstia de conduta, uns em relação aos outros, guardar a fé sobre a terra, com uma disposição firme e um espirito constrito, para expiar a iniquidade entre aqueles que praticam o direito e sofrem a angustia da provação e para se conduzir com todos na medida da verdade e da norma no tempo” [9].
A doutrina dos essénios
Os essénios eram ascetas que desprezavam os prazeres dos sentidos e a acumulação de bens. O tesouro comum só devia ser utilizado para prover as necessidades mais estritas. Um essénio, ao entrar para a comunidade, devia votar “ódio eterno aos homens da fossa pelo seu espírito de entesouramento. Ele deixará para a Irmandade os seus bens e a renda do trabalho das suas mãos, tal como um escravo em relação ao seu amo, e tal como um pobre diante do que lhe tem domínio. Mas ele será um homem pleno de zelo para com o preceito e cujo tempo é destinado ao dia da vingança” [10].
Dessa forma, todo membro, ao ingressar na Ordem, tinha que entregar a ela todos os seus bens. Esse regime de comunhão foi observado também pelos primeiros cristãos, como se observa nos Actos dos Apóstolos, e o desprezo pelos bens materiais constituía um dos pontos mais altos da doutrina ensinada por Jesus [11].
Acima de tudo, porém, os membros da seita deviam observar e estudar a lei mosaica. A lei devia ser cultuada, pois a comunidade era, mais que tudo, “a casa da lei”. Isto explica também o facto de Jesus, não obstante ser considerado pelos judeus como um reformador da lei mosaica, sempre concitou os seus discípulos a segui-la. E no conceito de observação à lei, estava o respeito aos rituais e celebrações estabelecidas pela religião, bem como os cuidados com a higiene corporal.
Para os essénios, a Gnose divina que Jeová revelara à Moisés não fora exposta nos cinco livros do Pentateuco. Era uma sabedoria secreta que consistia no conhecimento do Nome Verdadeiro de Deus, na prática do direito justo, e na aprendizagem dos comportamentos necessários para se atingir a perfeição.
Os essénios acreditavam que no homem coexistiam dois espíritos. Um presidia o bem o outro presidia o mal. O presidente do bem era o Príncipe da Luz e o do mal o Príncipe das Trevas, chamado Belial ou Satã. Nesse sentido, o mundo seria um campo de batalha dividido entre esses dois princípios [12].
Para eles, o mal não podia ser vencido simplesmente pela acção humana. Era necessária a intervenção divina, o que ocorreria quando o Messias começasse o seu ministério. Escolher entre o bem e o mal não era uma opção humana. Deus elegia os seus escolhidos, mas mesmo os escolhidos podiam ser desviados para o mal. Para os não escolhidos não havia possibilidade de opção para o bem. Os escolhidos eram aqueles que Deus reuniu na “Congregação”, ou “Casa da Verdade”. Esses eram os ’’Filhos da Luz”. Essa era uma diferença entre os ensinamentos essénios e cristãos, pois Jesus, ao contrário dos essénios, advogava um livre-arbítrio para os homens, no sentindo de que estes podiam escolher entre o bem e o mal. Para os essénios essa escolha era feita por Deus.
Por outro lado, todos aqueles que aderiram à cultura estrangeira, desprezando a Aliança, eram “filhos das trevas”.
O combate entre o bem e o mal
A ideia de um combate entre trevas e luz, na verdade, não é originária dos essénios. Foi tomada de empréstimo aos antigos egípcios, que já viam no psicodrama de Osíris e Seth uma luta entre esses dois princípios. Mais tarde os persas desenvolveram essa mesma ideia, identificando o Deus Marduc como o deus da luz e Arimã como deus das trevas.
Entre os povos antigos sempre se acreditou que tudo que existe no universo é produto da reacção interactiva entre dois princípios contrários, que podem ser o espírito e a matéria, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a luz e as trevas, etc. Na história da humanidade, uns assumem o papel de um deus do bem outros do deus do mal. Segundo essa concepção, tudo, na sociedade humana, é produzido pela reacção à acção que um dos lados provoca no outro. Essa ideia, bastante antiga
também aparece em tempos modernos, fundamentando o materialismo dialéctico desenvolvido por Karl Marx, que faz na luta entre o capital e o trabalho o motor da História [13].
No caso dos essénios, eles assumiram o papel dos filhos da luz e retiraram-se para as terras de Damasco para não serem corrompidos pelos filhos das trevas, e ali, separados do mal, preparar uma reacção contra a acção deles. Os filhos da luz, quando ocorresse o triunfo, seriam vingados de todos os males que os filhos das trevas lhes tinha infringido. E mesmos aqueles que estivessem mortos ressuscitariam para participar do conflito final entre os defensores dos dois princípios, ocasião em que o mal, por fim, seria vencido [14].
O Messianismo
Uma das mais interessantes concepções essénias foi a alegoria do Homem do Céu e o Homem da Terra. Delas derivou-se outra figura que ficou conectada à pessoa de Jesus Cristo, com o enigmático título de Filho do Homem.
Afigura do Homem do Céu, como bem lembra Schonfield, é de inspiração persa. Ele representa a figura do deus Mitra, que por sua vez é uma projecção de Aura-Mazda, o Deus reconhecido como sendo o princípio da luz. Esse deus, segundo as tradições persas, assume forma humana e habita entre os homens. E interessante verificar que os persas tinham em Mitra uma espécie de mediador, ou salvador da humanidade, papel esse que Jesus viria a assumir entre os cristãos.
O Mitraísmo, tal como as religiões do Egipto, Pérsia e Mesopotâmia, era uma religião solar. O sol era sempre representado como aquele que permite a vida na terra. Mitra era o representante solar, cujo nascimento se comemorava no dia 25 de Dezembro. Nesse dia pagava-se tributo ao sol, pelo sacrifício de um cordeiro, cujo sangue redimia aqueles que nele se lavavam.
As analogias existentes entre o Mitraísmo e o Cristianismo são notórias. Os próprios líderes da Igreja cristã ficaram estarrecidos com tais semelhanças, pois eles achavam que a sua crença era original e os mitraístas as copiavam, por inspiração do demónio. Tanto que proibiram qualquer referência ao Mitraísmo nos trabalhos desenvolvidos pelos escritores cristãos. São Justino, no século II, acusa os praticantes dos mistérios de Mitra de “imitar propositadamente os ritos cristãos’ por inspiração do demónio, e Tertúlio, o patriarca da Igreja, na mesma época, denuncia os praticantes desse culto, dizendo que “o demónio, através do mistério dos seus ídolos, imita até a parte principal dos mistérios divinos. Mitra marca com o seu sinal a fronte dos seus soldados; ele celebra a oblação do pão; oferece uma imagem da ressurreição, apresentando ao mesmo tempo a coroa e a espada (…)” [15].
O Messias, um deus solar
A religião solar dos persas exerceu profunda influência no espírito místico dos essénios. Na tradição judaica, o mundo também tinha sido criado a partir do surgimento da luz [16]. O sol era o símbolo da vida, o evento a partir do qual Deus criara os seres viventes. Flávio Josefo diz que os essénios “não faziam nada, nem pronunciavam qualquer palavra antes do nascimento do sol. A ele ofereciam determinadas orações, que somente os iniciados sabiam, e que se presumiam ser muito antigas. Essas orações imploravam pelo nascimento do sol” [17].
Daí o desenvolvimento da ideia, presente em alguns escritos essénios, de que o Messias era um “Ser de Luz”, vindo do sol para libertar o mundo do mal, representado pelas trevas. Esse “libertador” era o Homem do céu, identificado mais tarde como o Adão-Luz dos gnósticos mandeanos e o Metátron das lendas rabínicas [18].
De acordo com essénios, o mal só poderia ser vencido pela intervenção divina, através de um enviado de Deus à terra  [19]. Esse mensageiro era o Messias. Entre os judeus sempre houve polémica sobre o que seria esse personagem. Para alguns, ele seria um sacerdote que estabeleceria dogmas definitivos a respeito da religião. Para outros, ele seria um rei que libertaria o povo de Israel de todas as opressões, estabelecendo um reino eterno de liberdade, harmonia e ordem.
Na visão dos essénios esse personagem dividia-se em três atributos, e não se chegou a um consenso entre os historiadores, se eles pensavam em três personagens diferentes ou apenas um, que integrasse todas essas facetas. O “Escrito de Damasco” fala de um Messias Rei, (Messias leigo), um Messias Profeta e um Messias Sacerdote. Para os fariseus, seita a qual pertencia a maioria das autoridades israelenses, o Messias seria um rei que viria precedido por um Messias Sacerdote.
Jesus e João Batista
Para os essénios, entretanto, apenas o Messias Sacerdote seria o verdadeiro enviado de Deus, pois assim lhes teria ensinado o profeta Malaquias. A fórmula repetia a história de Moisés, que teria sido o sacerdote, e Josué, que teria sido o guerreiro. Mais tarde essa fórmula foi apropriada pelos doutrinadores cristãos que viram em Jesus o Messias que continha em si ambos os atributos, de guerreiro e sacerdote, enquanto João Batista seria o profeta.
Não é sem razão, portanto, que muitos historiadores, e uma expressiva maioria de escritores de orientação espiritualista acreditam que tanto Jesus Cristo quanto João Batista eram essénios. A própria crónica da vida de ambos parece confirmar essa tese. João Batista era um asceta que vivia rigorosamente de acordo com as regras daquela Irmandade; a sua pregação ocorreu na mesma região geográfica em que a comunidade de Qumrâm se desenvolveu e as suas visões se assemelham sobremaneira às visões essénias.
Quanto a Jesus, é certo que pregava uma doutrina que muito se aproximava daquela veiculada por eles. Acresça-se a isto a fama de “milagreiro” que sempre acompanhou a sua saga. Essa fama também era associada aos essénios, cujos conhecimentos de medicina eram considerados fantásticos.
Há muitas outras aproximações que podem ser feitas acerca do fenómeno Jesus e a seita dos essénios. Laperrousaz cita, entre outras, o facto de Jesus ser levado pelo demónio a um deserto para ali ser tentado. Esse deserto tem sido identificado como a solidão que os essénios impuseram a si mesmo. Da mesma forma, o deserto onde Jesus teria sido levado é situado no local onde os Pergaminhos do Mar Morto foram encontrados [20].
Também o facto de Jesus ter recrutado os seus primeiros discípulos na região próxima a Qumrâm provoca muita especulação. Jean Daniélou, citado por Laperrousaz, releva ainda o facto de Jesus celebrar a ceia na véspera da Páscoa, o que mostra que ele seguia o calendário essénio e não o calendário judeu tradicional [21].
Para muitos autores, os Pergaminhos do Mar Morto demonstram, de maneira insofismável, que os fundadores do Cristianismo eram, de facto, oriundos da seita dos essénios. Isto explicaria a presença de algumas lacunas do Novo Testamento, bem como certas questões enigmáticas a respeito da vida, da doutrina e do magistério de Jesus, que nunca foram explicadas a contento pelos exegetas dos evangelhos canónicos.
Explicaria também a origem do gnosticismo, doutrinas que impregnaram de tal forma o primitivo cristianismo, levando a Igreja de Roma a promover uma verdadeira cruzada contra esses chamados “heréticos” da nova religião.
“Levando-nos a conhecer o meio imediato em que surgiu o Cristianismo”, escreve Daniélou, “as descobertas de Qumrâm resolvem um número considerável de problemas que a exegese não chegava a solucionar: a origem de João Batista, a data da Páscoa, a origem da hierarquia, o vocabulário de João, a origem do gnosticismo. E provável que a utilização do conjunto de documentos, as comparações que geram, aumentem ainda de forma expressiva o número dos enigmas resolvidos. Por conseguinte, pode-se dizer que essa descoberta é a mais sensacional já feita” [22].
A influência dos essénios
Diversos centros comunitários dos essénios se desenvolveram a partir do século II a.C. Algumas tradições referem-se à aldeia de Nazaré, onde Jesus foi criado, como sendo um centro dessa comunidade. Sabe-se que entre eles desenvolveu-se também a prática mística, bastante antiga, aliás, de usar roupas brancas e não cortar os cabelos. Acreditava-se, com base em antigas tradições, que nos cabelos estava a essência do elo que liga Deus aos homens. Esses homens consagrados a Deus eram chamados de “nazarenos”. Sansão é descrito na Bíblia como sendo um desses homens, e Jesus teria sido criado numa aldeia de “nazarenos”.
Os essénios eram também conhecidos pelos seus conhecimentos de medicina. No Egipto, a sua comunidade era conhecida como “Os Terapeutas”. Acreditava-se que possuíam conhecimentos que se assemelhavam a poderes mágicos. Tais conhecimentos provinham de fontes muito antigas, provenientes talvez, de uma civilização extinta. Eram também mestres na escrita criptográfica e no uso do simbolismo para transmitir os seus conhecimentos. O uso de pseudónimos aparece frequentemente na sua literatura. Títulos como “Mestre Verdadeiro”, “Mestre da Justiça”, “Sacerdote da Iniquidade”, “Leão da Ira”, “Tempo da Promessa”, etc., eram expressões por ele desenvolvidas para mascarar pessoas e factos, evitando assim a repressão das autoridades seculares. Escreviam palavras invertendo a ordem das letras, misturavam alfabetos de diferentes línguas, inventavam eles mesmos alfabetos.
Os essénios e a Maçonaria
Não somente os primeiros cristãos devem grande da sua doutrina aos essénios. Também muitas das seitas gnósticas se inspiraram na sua doutrina, as quais, em maior ou menor parcela, tiveram influência no desenvolvimento das tradições maçónicas, principalmente nos chamados graus Rosa- Cruzes, onde se desenvolveu a lenda de Ormus [23].
E fácil perceber a relação que a doutrina professada por aqueles místicos judeus tem com a Maçonaria, na sua face espiritualista. Os Obreiros da Arte Real também acreditam na construção de uma sociedade justa e perfeita, fundamentada no mérito e no trabalho árduo, aliado à disciplina e no respeito às tradições. Essa sociedade um dia já existiu e pode ser recuperada. Os essénios acreditavam nisso, e por isso julgavam-se guardiões dessa sabedoria perdida, que só poderia ser repassada aos seus iniciados.
A analogia é evidente. A própria organização do currículo maçónico guarda certa identificação com o sistema adoptado por aqueles ascetas. Através de um sistema de ensinamentos morais o catecismo maçónico forma, simbolicamente, uma plêiade de guerreiros, juízes, sacerdotes e outros próceres, destinados à edificar, defender e conservar o que de melhor existe na cultura da humanidade [24].
Os essénios acreditavam que eram detentores de segredos iniciáticos de grande relevância, tal como os maçons. Não é que a Maçonaria, enquanto sociedade formalmente instituída, seja guardiã de segredos dessa ordem. Aliás, nem acreditamos que tais segredos existam no repertório da cultura humana existente, seja do presente, seja do passado. O que há são leis naturais que a razão humana ainda não logrou entender e por isso as cataloga no conceito de sobrenatural. Entender o processo pelo qual essas leis são formadas e como actuam, constitui a verdadeira sabedoria.
Na verdade, no cerne dessa ideia está um processo pedagógico de ensinamento. E que a fórmula pela qual esse conhecimento de nível superior, que permite ao homem entender o processo pelo qual a natureza trabalha e as sociedades são construídas e mantidas, só pode ser deduzida através de um método que seja capaz de integrar uma iniciação, uma ritualística e uma prática de vida. Essa foi a formidável intuição dos essénios e a sua grande realização. Eles eram os guardiões da tradição hebraica, na sua forma mais pura. Não é suficiente pensar uma filosofia. É preciso vivê-la para que ela não se torne apenas uma distracção mental. As mesmas verdades que eles intuíram já tinham passado antes pela sensibilidade dos sacerdotes de Heliópolis, que a desenvolveram no conceito, ao mesmo tempo religioso e sociológico da Maat, e pelos iniciados nos mistérios antigos, persas e greco-romanos, que os utilizavam como forma de educação superior das suas elites.
Alegorias maçónicas inspiradas pelos essénios
É originária dos essénios, como já nos referimos, a ideia de que é preciso a formação de um Homem Universal, reflexo terrestre do Homem do Céu, perfeito em conhecimento e obras, pleno de virtude e em harmonia com Deus, pois que ele é o herdeiro da Nova Aliança. Não é por acaso, portanto, que nos graus superiores da Maçonaria, correspondentes às Lojas de Perfeição e Lojas Capitulares, se insistirá tanto na alegoria da Arca da Aliança, na prática da verdadeira justiça, no exercício das virtudes que fazem um homem justo e perfeito em todos os sentidos.
Outra tradição cultivada na Maçonaria, que tem nos essénios a sua fonte, é aquela que se relaciona com a Procura da Palavra Perdida. Essa Palavra Perdida não é outra coisa senão o Verdadeiro Nome de Deus e o seu significado sagrado, que os essénios reverenciavam como sendo o “Segredo dos Segredos” [25].
O reencontro com essa sabedoria perdida teria o condão de conferir ao seu possuidor a totalidade do conhecimento do universo e faria dele um ser superior. Essa crença animou a especulação dos cabalistas durante séculos e os maçons a adoptaram como alegoria para simbolizar a aquisição da Gnose, que é a meta última e definitiva dos praticantes da verdadeira Arte Real. Por isso é que a influência desses antigos irmãos, “Filhos da Luz”, não pode ser desprezada em qualquer estudo que se faça sobre a cultura maçónica.
João Anatalino Rodrigues
Notas
[1] Capítulos (Lojas de Aperfeiçoamento) e Kadosh (Lojas de Ensino Sagrado), são títulos designativos das reuniões maçónicas dos graus mais avançados, dos graus 14 ao 33 do Rito Escocês.
[2] Flávio Josefo- Antiguidades dos Judeus- Livro II, Kleger Publications- Londres, 1976
[3] Cf. Primeiro Livro dos Macabeus, A tribo de Levi, desde os tempos do patriarca Jacó, tinha sido estabelecida como guardiã das tradições religiosas do povo de Israel.
[4] A “Terra de Damasco” é o local conhecido como Qmran, próximo ao Mar Morto, onde existem muitas cavernas, as quais os essénios transformaram em moradias.
[5] Conforme se lê em Êxodo, 10:26, Deus manda Moisés colocar na Arca “o testemunho que Eu lhe der.”
[6] Como os milagres realizados por Jesus, relatados nos Evangelhos. Essa seria uma prova de que Jesus, se não era egresso da colónia essência, pelos menos era partidário da sua doutrina e conhecia os seus segredos.
[7] Tradição também adoptada na Maçonaria.
[8] Costume adoptado pelos primeiros cristãos e pelas Ordens iniciáticas medievais, especialmente os Templários.
[9] Regras XXII- E.M. Laperoussaz- Os Pergaminhos do Mar Morto
[10] Idem, Regra XXIV- Foi observado também nas Regras redigidas por São Bernardo de Clairvaux para a constituição dos Cavaleiros Templários.
[11] Flávio Josefo, escrevendo acerca dos essénios, diz que eles desprezavam as riquezas, e que a comunidade de bens que observavam era realmente admirável.” Os essénios”,. diz aquele autor, “mantém entre eles uma lei, segundo a qual, todos os novos membros admitidos à seita fazem, por si mesmos, confisco dos seus haveres em favor da Ordem; resultando daí, que em parte alguma se verá ali, seja a miséria abjecta, seja a desordenada abastança. As posses do individuo juntam-se ao existente cabedal comum e eles todos, como verdadeiros irmãos, se beneficiam, por igual, do património colectivo.”
[12] Ideias que também foram esposadas pelos maniqueístas e pelos cátaros.
[13] Karl Marx acreditava que era a forma pela qual os homens ganhavam a vida que determinava o seu modo de pensar. Assim, as transformações na ordem material determinavam as transformações de ordem ideológica. Como as transformações materiais dependiam da forma como as sociedades se organizavam para produzir, a cultura da humanidade dependia das técnicas de produção. Essa é a razão de a Maçonaria, no ritual de um dos seus graus filosóficos, evocar as teses marxistas, como objecto de estudo.
[14] Essa crença foi magistralmente desenvolvida pelo autor do Apocalipse. Nesse estranho e enigmático livro, escrito à maneira essência, o autor desenvolve a alegoria da luta entre os filhos da luz contra os filhos das trevas, identificando os primeiros com os cristãos fiéis e os segundos com os seus perseguidores. Veja-se que a Maçonaria do Rito Escocês muito se vale do simbolismo do Apocalipse para desenvolver alguns dos seus mais importantes graus filosóficos. A tradição maçónica muito se utiliza do simbolismo contido na luta entre a luz e trevas. O próprio Maçom muitas vezes, é chamado de” filho da luz”.
[15] Hugh Schonfield – A Odisseia dos Essénios, pg. 178
[16] “Disse Deus: faça-se a luz; e fez-se a luz. E viu Deus que a luz era boa; e dividiu a luz das trevas. E chamou à luz dia, e as trevas noite; e da tarde e da manhã, fez-se o dia primeiro.” Génesis, 1:3
[17] Flávio Josefo – Antiguidades dos Judeus, pg 243
[18] Um dos mais importantes graus da Maçonaria do Rito Escocês (o 28°) é dedicado ao Mitraísmo. Esse é mais um vínculo entre as tradições maçónicas e os essénios, que conservaram e desenvolveram essas tradições, por si sós, denotativas de um profundo conteúdo espiritualista
[19] A tradição messiânica em Israel, no entanto, é fundamentalmente, uma ideia dos fariseus. E bom não esquecer que os fariseus formavam uma casta sacerdotal, puritana e fundamentalista, que chamavam a si mesmos de perushins, que quer dizer “distinguido”. Formavam uma espécie de Confraria religiosa, semelhante a uma sociedade de pessoas seleccionadas entre a elite judaica, que socorriam uns aos outros, praticando ainda a filantropia, promovendo a educação religiosa do povo e exercendo o poder político através do Sinédrio, uma espécie de Senado, cujos membros eram eleito entre eles e os Saduceus, outra Confraria semelhante à dos fariseus. Os fariseus assemelhavam-se, em muito à moderna Maçonaria. E da mesma forma, sendo uma sociedade de homens, não conseguiu evitar que a corrupção se instalasse no seu meio, como se nota nos Evangelhos cristãos.
[20] Regras XXII – E.M. Laperoussaz- Os Pergaminhos do Mar Morto.
[21] Idem, pg. 56
[22] E.M. Laperrousaz – Os Manuscritos do Mar Morto, pg. 176 a 180
[23] Referência aos graus filosóficos, ligados principalmente à tradição templária.
[24] Daí os títulos adoptados nos altos graus da Maçonaria, tais como Cavaleiro do Sol, Grande Comendador do Templo, Grande Inspector Inquisidor, Sublime Príncipe do Real Segredo, etc.
[25] Note-se que Jesus jamais pronunciou o nome de Deus, e proibiu, inclusive, os seus discípulos, de fazê-lo. Designava-o sempre por “Pai”. Entre os essénios, o Inefável Nome de Deus era uma tradição do mais alto valor
iniciático.

Publicado na revista Freemason- Lisboa, Portugal- 25-6-2021.