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O Livro Impossível

A importância da influência de pequenas mudanças já é fato conhecido por todos. Muito já se comentou do efeito borboleta, teoria do caos, etc. Certa vez, alguém escreveu um livro que dispõe de duas interpretações. A primeira é deduzida até a penúltima frase do romance. A segunda é deduzida após a leitura da última frase e releitura do romance. Pouco menos genial – certamente o é este quem vos escreve, quando comparados analista e analisado da obra acima – é a obra de Roberto Moreno. Ainda utilizando a idéia da influência de pequenas mudanças, Moreno escreveu o livro El Revés onde faz uma pequena análise da influência católica em um pequeno país europeu através da história de uma moradora de um orfanato de subúrbio. O livro começa com a frase “Estavam todos de acordo quanto à necessidade de decidir o futuro de Liss”. O livro teve pouca notoriedade, porém, através de algumas amizades, Moreno conseguiu que sua obra fosse publicada por uma editora pouco conhecida. Anos depois, Moreno reescreve o livro, porém com o nome de Al Revés, o qual começa com a seguinte frase “Não estavam todos de acordo quanto a necessidade de decidir o futuro de Liss”. À primeira vista, o gênio de Moreno consistia menos em sua habilidade como escritor do que em sua subestimação da memória humana. O livro não teve nenhuma editora interessada e permaneceu escondido do grande público, entre os pertences do autor. Desiludido, Moreno abandonou as letras e tornou-se funcionário público dos correios de seu país. Fatalmente morreu em seu segundo dia de trabalho ao cair no poço do elevador. Funeral vazio e caixão de madeira barata.
O erro de Moreno foi sim, superestimar a memória dos leitores, esperando que alguém fosse fazer a análise comparativa de suas duas obras. Isto só foi acontecer agora, passados muitos anos da morte do autor, através de um grande acaso. Há alguns anos fui visitar minha avó paterna para lhe felicitar pelo seu octagésimo aniversário encontrei-a remexendo em um grande armário em seu quarto. Falei alguma palavras de regozijo – nunca fui muito bom nisso – mas ela não deu muita atenção; procurava algo em uma grande pilha de papel amarelado. Distraí-me olhando a mobília espalhada pelo quarto, recriminando por nunca ter notado nos pequenos tesouros que compunham aquela peça. Com uma pequena demonstração de triunfo, ela retira do armário um pequeno bolo de papel um pouco maltratado pelo tempo e entrega em minhas mãos. Li escrito à mão em sua capa de papel: Al Revés. Ela contou ser o livro que meu trisavô sonhava em publicar, mas nunca conseguira. Agradeci o presente, convencendo-me ser aquilo fruto da esclerose da matriarca. Nunca descobri por que ela me dera aquilo. Guardei o livro mais como recordação familiar do que como documento literário. Por tempos, deixei-o em cima de minha escrivaninha, ao lado do computador, esperando que ele trouxesse a inspiração que não trouxe – meu erro – ao meu trisavô.
Certa noite, após massacrar os dedos e os olhos tentando escrever um artigo sobre Herbert Quain, desliguei o computador sem salvar a matéria e joguei-me em minha cama e adormeci entre sonhos intranqüilos. Veio em minha mente, um livro de dimensões perfeitas, porém incompleto. Possuía somente capa e contracapa, e assim que era aberto ele sumia. A única forma de torná-lo possível seria juntando com seu miolo. Porém, seu miolo era invisível, sem capa e contracapa. Era o livro impossível e perfeito. Acordei e imediatamente vieram as palavras de minha avó, sobre a tentativa frustrada de meu avô de publicar seu segundo livro. Houve um primeiro livro, e eu deveria descobrir ele. Foi então que encontrei El Revés em um sebo de feira não custando mais que 10 contos e logo a genialidade de Moreno me foi revelada. O livro é o mesmo, só mudando a frase inicial. Porém, esta pequena mudança é suficiente para alterar não só a essência da história, mas cenários e personagens. Citando alguns exemplos, em El Revés a história se passa na Europa e a protagonista é uma menina católica. Em Al Revés, o protagonista – notem que ele é homem – é protestante e a história está ambientada na América Latina. Tudo feito somente mudando uma palavra no início. Talvez seja o livro impossível que sonhei e é uma pena que genialidade do autor esteja fadada a atingir este único parente distante.
Sitrucian M
Enviado por Sitrucian M em 19/11/2007
Reeditado em 04/02/2017
Código do texto: T744021
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Sobre o autor
Sitrucian M
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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