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História da Monotonia

A semelhança dos fatos, seres e atitudes persegue toda a história da humanidade. Muito já se falou da ciclicidade da vida, de tudo que já se passou ou que está para acontecer. Por exemplo, o ser humano é extremamente limitado e assim por diante, seu comportamento também. Ninguém melhor do que Borges para exemplificar tal fato:

“Para que seu horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais de seus amigos, descobre entre os rostos e os aços o de Marco Júnior Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e já não se defende, exclamando: ‘Até tu, meu fiho!’. Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias; dezenove séculos depois, no sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e lhe diz com mansa reprovação e lenta surpresa (estas palavras devem ser ouvidas, não lidas): “Pero, Che!”. Matam-no e ele não sabe que morre para que se repita uma cena.”

A hereditariedade proporciona também esta limitação. Por isso torna-se possível existir a idéia do consciente coletivo. Por isso torna-se possível estudar o comportamento humano. Tudo acaba por compor a eternidade: as idéias. Toda raça humana é o reflexo de seu único integrante. Assim como acontece em todas as outras raças que temos conhecimento. Assim por diante, com todas as idéias do mundo inteligível. Aquele que existe no mundo inteligível traz a imagem no mundo sensível, mas um pouco deformada. Esta deformidade permite a existência de exceções que desafiam a essência da idéia original. Porém a idéia da essência pode ser tão deformada que consiga transformar completamente sua manifestação no mundo sensível, proporcionando a nós, habitantes deste mundo real, comparações que chegam ao ponto de materialização.
Como exemplo, tomo o tabuleiro de xadrez. Muitas vezes tomado como outras idéias, como um labirinto, uma mandala ou um quarteirão. Estes exemplos são explicados por Cinara Ferreira Pavani, na revista Letras de Hoje, nº 93, no texto There are more things – Uma análise simbólica:

“De certa forma, essas imagens se aproximam, no sentido de simbolizarem a multiplicidade de caminhos e a busca de um centro. O jogo de xadrez e o labirinto são igualmente associados à mandala, centro em que se chega à conciliação de contrários, à unidade e à serenidade. A mandala é o símbolo da procura da intimidade num labirinto iniciático.
(...)
A esquina dobrada lembra o tabuleiro que, na sua forma quadrada e constituída de casas, é similar a um quarteirão com suas ruas e esquinas”

No texto de onde são citados os trechos acima, analisa o conto There are more things de Jorge Luís Borges. Pavani faz uma comparação do conto com tabuleiro de xadrez, comparando cada movimento do protagonista com uma jogada, um lance.
Tira-se daí mais um exemplo de transposição deformada. A idéia de conto escrito, existente no mundo inteligível, chega até nós modificada, deturpada, como um tabuleiro de xadrez; o protagonista, nos chega como um jogador, pensando antes de cada movimento e os caminhos por ele tomado são infinitos, assim como infinitas são as combinações do xadrez. Mais deturpada ainda é a imagem que chega a nós do tabuleiro como um quarteirão, comparando as casas e as esquinas. Deturpada, mas não de todo irreal. Tendo em mente que a imagem do homem é um reflexo da sua idéia original, temos uma unidade. Trabalhando com esse fator, o homem, e com as combinações de resultado (e aqui, incorro em comparação com as combinações também existentes no xadrez), pode-se supor existir tal quarteirão, assemelhando-se ao tabuleiro de xadrez. O que é mais possível que se imagina, pois o fato ocorreu na realidade.
Tendo em mãos um quarteirão de condomínio que nas periferias comporta oito casas e no seu interior, mais trinta e duas distribuídas igualmente, cria-se a idéia deformada do tabuleiro de xadrez. E se nessas casas estiverem distribuídas casas ocupadas com alguma ordem hierárquica e um número mínimo de 32 casas sempre vazias, pode ser reproduzido não só a forma estática do tabuleiro, mas também as jogadas. A infinidade de possibilidades existente no mundo somada ao limitado comportamento humano – se aceitarmos aquele que inventou o xadrez é um reflexo da mesma imagem daquele que construiu o condomínio, ou até seja o mesmo homem, conforme Schopenhauer acreditava – permitiu que o mate pastor, uma jogada rápida e simples, fosse realizado. A infinidade somada ao fator do consciente comum humano pôde recriar tal experiência. Este é só um modo de exemplificar as variações das reflexões das idéias deturpadas.
O que quero mostrar no texto não é somente a existência da infinidade, que todos já conhecem, mas a da repetição inconsciente dos atos da humanidade. Nossa vida é baseada em ciclos, e raras são as novidades. O que acaba por trazer a inevitável monotonia.
Sitrucian M
Enviado por Sitrucian M em 20/11/2007
Reeditado em 04/02/2017
Código do texto: T745182
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Sobre o autor
Sitrucian M
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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