Entrevista com o poeta Afonso Estebanez feita por Rodrigo Poeta

*Nome: Afonso Estebanez Stael

*Data de nascimento: 30 de outubro de 1943.

*Cidade de origem: Cantagalo-RJ.

*Cidades que representa: Niterói/RJ e Cantagalo/RJ.

*Entidades a que pertence: Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências de Arraial do Cabo/RJ, Academia Brasileira de Poesia (Casa Raul de Leoni) e diversas outras entidades acadêmicas do Brasil.

*Atividades: Advogado, poeta e escritor.

*Email: juristeban@yahoo.com.br

*Site: http://www.poetasdelmundo.com/verinfo.asp?id=4085

1-Como você começou a gostar de poesia?

*Afonso: Meu interesse literário surgiu quando eu contava com apenas sete ou oito anos de idade. De origem humilde, havia limitações incontornáveis quanto à possibilidade de perfazer longas caminhadas para freqüentar uma escola pública dedicada ao antigo ensino primário. Os irmãos mais velhos freqüentavam precariamente a escola e me transmitiam o que aprendiam. Tais circunstâncias me levaram ao aprendizado das primeiras letras sem a ajuda direta de nenhuma escola. E assim, egresso das distantes regiões agrestes dos interiores fluminense e mineiro, pus os pés pela primeira vez numa sala de aula quando já estava solitariamente alfabetizado. Não pude permanecer na primeira série. Remeteram-me, desde logo, para a segunda. Comecei aí a receber as primeiras apreciações elogiosas a propósito das expressões poéticas que, inconscientemente, eu empregava nas redações escolares, então impregnadas de estímulos, sensações e impressões originários da infância cercada do fascínio pela natureza onde vivi os primeiros anos. Por causa disto, também não me remeteram à terceira série do primário. Submeteram-me extraordinariamente aos exames de ingresso no curso de admissão ao ginásio e, aprovado, fui parar no Seminário Arquidiocesano São José no Rio de Janeiro, onde permaneci em busca do sacerdócio secular até os dezoito anos. E veio durante aquele tempo de reclusão clerical a confirmação definitiva de minha vocação irresistível para escrever, vencidos alguns concursos internos. O contato profundo e permanente com os clássicos da literatura universal foi, então, fundamental para minha formação cultural.

2-Quem incentivou você?

*Afonso: Como disse, o contato profundo e permanente com os clássicos da literatura universal foi fundamental para minha formação cultural voltada para a vocação irresistível para escrever.

3-Que tipo de poesia você mais gosta e prefere fazer?

*Afonso: Terminada a euforia da poesia alternativa ou de resistência ou de contestação dos anos 70 e 80, e por causa dela censurado pelo regime militar, passei a desenvolver uma temática literária essencialmente lírica, de contemplação de uma temática “de amor” e “sobre o amor”. Isso não quer dizer que terminaram os motivos e as atmosferas de contradições humanas diante dos quais a poesia de protesto deve se calar. Está aí esse contexto apocalíptico de guerra e paz, de amor e ódio, de opressão e liberdade, de consertos e desconsertos, de construções e destruições, de justiças e injustiças, de pequenos intervalos de harmonia entre tragédias colossais, enfim, de circunstâncias que desbancam a ‘literatura de representação’ e a transformam em ‘literatura de realidade’. Estamos, portanto, sob o impacto da própria literatura global. Acredito que desde o início da década de 80 do século passado o impacto causado pela revolução da tecnologia capitalista – máxime a ocorrida no campo da comunicação humana – teria superado todos os outros concebidos ao longo da história a propiciar atmosfera capaz de produzir literatura. Lembra-me o semioticista alemão Walter Koch, segundo o qual a manifestação da literatura moderna atual foi marcada profundamente pelo surgimento dos novos e sofisticados meios de comunicação, dada a sua elevada capacidade de mapeamento das realidades internas e externas, em que a literatura, a partir de então, tem-se voltado para a única possibilidade antes vedada aos meios de comunicação de massa, a saber, ‘reproduzir as próprias estruturas’ ao invés de ‘apenas representar a realidade’. Então a literatura hodierna se transformou no próprio fato histórico, o que a tem obrigado a reagir, não apenas ao mercado da expressão/imagem literária, mas, principalmente, ao meio digital por artifícios tecnológicos de representação da realidade que, a priori, seria o seu fim imediato. Quanto a mim, absorvido o impacto da repressão política e cultural a partir dos anos 60 – a década da geração das ‘utopias’ – a partir dos anos 70 passei a me dedicar a uma literatura de pacificação de mim comigo mesmo. Seja, aquela literatura de mapeamento de minha própria alma, inquieta e literariamente investigativa.

4-Qual o seu estilo de fazer poesia, ou seja, qual o modo em que você faz a poesia?

*Afonso: Tenho explicado através de minha Oficina Literária que a poesia é causa, seja o combustível da alma humana em transitividade no mundo interior, até o ponto em que, impulsionada, a alma toma uma atitude e produz um efeito no mundo exterior, que é o próprio poema resultante em concreto. Simples como o sol e a flor. E nada disso tem que estar atrelado a uma época, a uma escola, a um estilo, a uma forma ou a um modo. Simplesmente não tem que ter motivo nem razão. Seria limitar a liberdade de expressão concebida como patrimônio indisponível da individualidade humana. Penso resumidamente como o notável amigo Tchello d’Barros: “Alguns teóricos são radicais ao dizer que não existe poema sem o chamado ritmo. Seria o ritmo a base fundamental do poema. A metrificação é uma decorrência do ritmo. Aliás, alguns defendem que deve haver algum tipo de métrica mesmo em versos livres. Já outros, dizem que o tema é a coisa mais importante a se considerar num texto que se pretende ser um poema. James Joyce privilegiou o estilo e a linguagem. Jorge Luis Borges apostava nas metáforas. Alguns puristas defendem a forma – as formas fixas – como base segura para se escrever um poema. Penso que estes são alguns dos elementos com os quais o poeta deve lidar. O mais importante talvez seja a possibilidade de alguém conseguir no meio disso tudo encontrar sua voz pessoal, seu estilo único (...)”, “numa escrita peculiar e autoral” (...). “Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante vos será acrescentado!”. Assim, declaro-me liberto das amarras das teorias acadêmicas e faço versos como quem morre se não puder escrever. Esse é o meu estilo: o da arquitetura com palavras que se encontram e se abraçam e se amam numa relação de prazer estético harmonioso e infinito. Mas para não dizer que sou avesso a ‘teorias literárias’, admito que minha poesia neo-parnasiana é simbolista por atavismo literário, moderna pela impossibilidade de fuga da realidade atual e imprestável como exemplo para quem faz poesia para sobreviver ao vampirismo do capitalismo financeiro inexorável.

5-O que representa ser poeta para você?

*Afonso: Aqui, aproveito o que nos deixou gravado na memória o saudoso Arthur da Távola, seja que, para mim, ser poeta é ser um “diferente”, no sentido de que a alma de um diferente é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que ele guarda para os poucos capazes de o sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana dos quais só o diferente é capaz de usufruir. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois – dizia. Todavia, no campo da competição humana atual, ser poeta é ser um combatente. Como tal, compreendido e reconhecido apenas depois que morre em combate.

6-O que representa a poesia para você?

*Afonso: A Poesia para mim é uma espécie de porta secreta de ingresso na ‘terra do nunca’, em que transitamos para além de onde nada mais exista, qual pensamento obstinado num gozo sem motivo. Aí então, reconhecemos rostos amigos, lembramo-nos de coisas esquecidas e nossos olhos se tocam num sorriso sem sofrimento como plácidas mãos que compartilham pão e vinho num velho convívio (Excerto do poema “Pastoreio II”).

7-Quais os grandes ícones da poesia brasileira e mundial, que agradam mais você?

*Afonso: Nacionais: difícil negar a importância de muitos ícones da poesia brasileira, como estes que cito porque marcaram épocas na história da literatura nacional: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães, Menotti del Pichia, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Rubem Fonseca, Raul Bopp, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Mário Quintana, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Ferreira Gullar, Cecília Meireles, Paulo Leminski e Helena Kolody, entre outros eventualmente não relacionados. Universais: aqui, abstendo-me de apontar os maiores ícones da poesia universal de todos os tempos que sempre foram objeto de todos os tipos de estudos e análises (Homero, Píndaro, Safo, Anacreonte, Horácio, Virgílio, Ovídio, Sêneca, Petrônio, Apuleio, Dante Alighieri, Giovani Bocaccio, Francesco Petrarca, Michelângelo, Luiz Vaz de Camões, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, William Blake, Paul Verlaine, James Joyce, George Eliot, Charles Dickens, Walter Scot, Dostoievski, Leon Tolstoi, Eça de Queirós, Cesário Verde, Antero de Quental, Émile Zola, Eugênio de Castro, Arthur Rimbaud, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, William Faulkner, S. Eliot, Virginia Woolf, Mário de Sá-Carneiro, Cesar Vallejo, Franz Kafka, Marcel Proust, Rainer Maria Rilke, e uma infinidade deles), reivindico a oportunidade de apontar o que consta de minha biografia cronológica: na época em que fui censurado pelo regime militar (1970), a ciranda cultural do “Grupo Salina” chegaria a fazer roteiro artístico nas embaixadas de vários países europeus e sul-americanos onde Che-Guevara pudesse ser interpretado como um modelo de “poeta-embaixador dos movimentos revolucionários da América Latina”. O grupo não escolhia momento nem lugar. Não era um serviço meteorológico da arte no Brasil. Mas divulgava a poesia falada em seu estado bruto, vista como engajada. Levava para o aconchego das praças públicas e pátios das universidades as evidências sócio-políticas contidas nas mensagens emergentes de Fernando Pessoa (poeta português universalista mais lido no mundo), Pablo Neruda (poeta socialista chileno e Prêmio Nobel de Literatura em 1971), Garcia Lorca (poeta mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver), José Marti (o grande mártir da Independência de Cuba em relação à Espanha), Wladimir Maiakóvsky (o primeiro poeta russo moderno a engajar política e ideologia à poesia), Bertold Brecht (poeta socialista renovador russo e Prêmio Lênin da Paz em 1954), Mao Tse-Tung (poeta chinês teórico, marxista, político, revolucionário, soldado e governante comunista da República Popular da China) e Ho Chi Minh (o nome mais conhecido do grande líder revolucionário do povo vietnamita e dos povos explorados em todo o mundo), passando por Rimbaud (jovem pensador francês considerado gênio da literatura revolucionária, para quem a poesia não serviria para ritmar a ação, mas para antecipá-la), Rabrindanath Tagore (escritor e poeta indiano, cuja obra oferece ao mundo uma mensagem humanitária e universalista), Omar Khayyan (poeta, matemático, astrônomo e reformista islâmico) e Eugene Evtuchenko (poeta soviético que relata as visões e anseios de uma geração que, mesmo não tendo visto de perto os horrores da guerra, tem sofrido suas dramáticas conseqüências; em estilo épico-lírico que lembra o de Maiakovski, Ievgueni Ievtuchenko polemiza o enfrentamento ao conformismo intelectual e artístico a que deu lugar o cenário da poesia sem paixão do período stalinista). Com efeito, a revolução cubana introduzira a hispanoamericanização nos ambientes universitário e artístico brasileiros. Até Ferreira Gullar declamava em público a canção “Guantanamera”! Conforme análise erudita de Anibal Bragança, “passaram a ser conhecidos entre nós Violeta Parra, Mercedes Sosa e outros” ícones do espírito revolucionário da época. Dizia-se que a denúncia, a contestação e a busca da mobilização do público marcavam a disposição daquele movimento cultural. E que não se podia tolerar qualquer espécie de ditadura. E que, culturalmente, o princípio do pensamento revolucionário era “a universalização da particularidade humana”. Foi quando adotamos o simbolismo universalista da Gabriela Mistral, a paixão da poemática da Florbela Espanca, a consciência popular do Stephen Spencer, as idéias emergentes da Beat Generation com a cara da Roger McGough e a voz feminina da Carol Ann Dufy, etc.

8-Você já participou de recitais de poesia? Se participou, cite alguns de grande importância?

*Afonso: De muitos: promovíamos recitais em calçadões e praças públicas, pátios de universidades, embaixadas, institutos educacionais públicos ou privados, casas noturnas, academias de letras, livrarias, cafés culturais, saraus de câmara, etc. Os mais importantes para mim foram os realizados no Salão Nobre da Ordem dos Advogados do Brasil-Subseção/Niterói em 1987, quando do lançamento da Primeira Antologia de Poesias do Advogado Fluminense, ocasião em que venci o primeiro concurso público de poesia dos advogados do Estado do Rio de Janeiro, com o poema “Canto de Abrição”, e por ocasião do lançamento, em outubro de 1988, do caderno de poesias intitulado “Canto de Abrição e Outras Sinfolias de Beira-Campo”, no Salão Nobre da Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas (FNTIU), no Rio de Janeiro.

9-Qual a sua visão sobre a cultura, principalmente no campo da literatura?

*Afonso: Substancialmente, tem havido pouca ou quase tímida alteração culturalmente revolucionária no atual ambiente da chamada poesia contemporânea no Brasil, a despeito do advento do privilégio da comunicação digital, esse democrático acerto de contas entre a ciência tecnológica e a história da comunicação humana. Mais à frente explico melhor esta questão, de palpitante indagação cultural.

10-Você já publicou algum livro? Se já, cite o nome dele e o ano em que foi publicado?

*Afonso: Só no país: “Canção que Vem de Longe”, poesias (1966), J. Gonçalves Editora - Niterói/RJ; “Livro de Viagem ou do Depoimento”, poesias (1971), Editora Olímpica Ltda, Livraria São José, Rio de Janeiro/RJ; “Em Tempo de Lótus, Lírios e Acácias...”, antologia poética em participação com os poetas maçônicos J. Alves Filho e J. A. Galdino da Costa (1978), Papelaria Brasil Ltda - Niterói/RJ; “Canto de Abrição e outras Sinfolias de Beira-Campo”, caderno de poesias e haicais (1988), Edição do Autor, Rio de Janeiro/RJ; “Do Penoso Ofício de Sonhar”, Poesias Reunidas, vol. I, edição artesanal, Editora InSaNno/SP. Obra inédita: “Tori” (Cento e cinqüenta haicais clássicos selecionados). Todas estas obras estão esgotadas.

11-Você já fez algum projeto ou participou de algum em referência a poesia?

*Afonso: Trabalhos inseridos nos seguintes projetos: “Antologia Poética do Grupo Salina”, 1969, coordenação e organização de Cesar de Araujo, Edição Reportagem, Niterói/RJ. “Antologia de Poetas Fluminenses”, 1969, coordenação e organização de Jacy Pacheco, Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Publicações de “Poesia Falada” dos 1º, 2º e 3º Torneios Nacionais da Poesia Falada (1968, 1969 e 1970), Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Imprensa Oficial, Niterói/RJ. “Poesia Cartaz do Grupo Salina”, 1970, Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, coordenação e organização de Cesar de Araújo e Gastão Neves, ilustração de Miguel Coelho, Niterói/RJ. “Mutirão de Poesia”, 1983, coordenação e organização de Walmir Ayala e Sérgio Ribeiro Rosa, Editora Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ. “Primeira Antologia Poética dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro”, 1988, Departamento de Integração Cultural da Ordem dos Advogados do Brasil, coordenação e organização de Cesar de Araújo, sendo presidente da Subseção/Niterói da OAB/RJ Solange Mattos, Celu Editora Ltda, Niterói/RJ. “Poesia do Brasil”, vol. 7, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Bento Gonçalves/RS, Out/2008, Org. Artur Gomes e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 19/24. “Poesia do Brasil”, vol. 8, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Porto Alegre/RS, Out/2008, Org. Ademir Antônio Bacca e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 19/24. “Poeta mostra a tua cara”, vol. 5, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Porto Alegre/RS, Out/2008, Org. Ademir Antônio Bacca e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 16/18, figurando ainda entre os “Poetas do Brasil”, segundo blogger cultural do conhecido poeta brasileiro Ademir Antônio Bacca. “Poesia do Brasil”, vol. 10, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVII Congresso Brasileiro de Poesia, Porto Alegre/RS, Out/2009, Org. Ademir Antônio Bacca e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 13/18. “Argila” 13, Dezembro de 2008, Revista da Academia Brasileira de Poesia (Casa Raul de Leoni-Petrópolis/RJ), Org. poeta Sylvio Adalberto, Ed. ParkGraf, 2008. Poesias, Crônicas e Reportagens Esparsas em Revistas e Jornais (1962/2004): “Academia Brasileira de Letras”, “O Fluminense”, “O Prelo”, “A Tribuna”, “O Centro Norte”, “Gazeta de Cordeiro”, “Jornal da Região”, “Classitudo Notícias”, “Folha Serrana”, “Jornal Manchete”, “Krônicon Cultural”, “Boletim da Academia Itaocarense de Letras”, “Letras Fluminenses”, entre outros.

12-Qual a poesia sua pela qual você mais possui afeição?

*Afonso: É o poema de crítica social “Canto de Abrição”, vencedor do Primeiro Concurso Estadual de Poesia do Advogado Fluminense (1987), seguido por destacados nomes da literatura brasileira como Estanislau Fragoso Batista, Elio Monnerat Sólon de Pontes, Emil de Castro, Ennio Quintanilha Sanches e Alaôr Eduardo Scisínio (publicado in Primeira Antologia Poética dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro, Ed. OAB/RJ, Subseção Niterói, Celu Editora Ltda, 1988, 268 pags).

Eis:

CANTO DE ABRIÇÃO

(Folclórico: Folia de Reis)

Tempo haverá em que

o canto ficará

completamente mudo.

A lágrima será como semente

da palavra salgada

que os olhos plantarão

entre os lábios...

Meu senhor dono da casa

escuta prest’atenção

vem abrir as vossas portas

pra esse nobre folião...

Devastarão casa por casa

cada palmo de chão será salgado

arrancarão todas as portas

e janelas dos sentidos

como o corpo num ritual

de sucessivos fluxos menstruais.

Sempre a história se repete

como a fábula inventada

por um rei que tem de tudo

e um povo que não tem nada...

Mas eu atirarei minha canção

no telhado da minha casa

e a chuva arrastará meus versos

pelas calhas esgotos e canais

e os desaguará em mar aberto

como barcos que despertam

na restinga da manhã...

As noites se perderão

para sempre de seus dias

mãos cheias virar-se-ão

sobre o chão das mãos vazias.

Transmitirei meu canto

boca a boca

como flor que germina

pelo olhar.

Espalharei meus barcos no vento

e minha asas no mar...

No banquete solidário

da miséria consentida

só não morre quem não come

porque a fome é dividida...

Cada grito renascerá

no som do apito de fábrica

cada pranto reprimido

será chuva derramada.

Meu pai se chama João Caco

minha mãe Caca Maria

juntando Caco com Caca

sou filho da cacaria...

De verde as folhas lavadas

nos arbustos das colinas

aos pingos encharcarão

as ramagens de resina...

A sobra que cai de cima

não se bebe nem se come...

Como água não mata a sede

como pão não mata a fome...

Nossa voz terá o calor da luz

no interior de uma choupana

na floresta.

A chuva correrá por claros vales

como fios de lã levados pelo vento.

Os pássaros imigrarão de seus mistérios

e as flores da manhã se regozijarão

como sinos diáfanos de luz

que não se ouvem senão com o coração...

Não quero toda a farinha

somente um pouco do pão

com que vossa mãe Maria

esposou meu pai João...

Os pés dos pequeninos pisarão lá fora

não como as botas que hoje pisam

a relva da esperança

fecundada pelo orvalho.

Eles terão o seu caminho certo

como as reses os sulcos do campos.

Quem sobreviver verá

em passos desencontrados

o diabo passar no rastro

sob as cinzas dos reisados...

Todos entoaremos

uma canção que não se ouvia mais.

Os olhos verão coisas inacreditáveis...

E os homens se tornarão

mais unidos pelo amor

como irmãos num só rebanho

pela voz de um só Pastor!

Nosso ódio não tem mais ira.

Andamos de pés trocados

festejando os desmomentos

dos remates acabados...

Meu senhor dono da casa

escuta prest’atenção...

Vem abrir vossa loucura

pro meu canto sem razão.

Afonso Estebanez

(O poema “Canto de Abrição” foi o vencedor do Concurso de Poesia do Advogado Fluminense, patrocinado pelo Departamento de Integração Cultural da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado do Rio de Janeiro – Subseção Niterói – “Prêmio Varig 1988”. Comissão Julgadora – escritores: Luiz Antônio Pimentel, César de Araújo, Alexandre Kellner e Henrique Chaudon)

13-Como você analisa essa explosão de "poetas" no orkut? Todos que estão na rede são poetas?

*Afonso: Bem, até os grandes repórteres da literatura universal do passado também teriam usado o mesmo sistema tecnológico “moderno” se pudessem voltar ao cenário contemporâneo. E nós, os das artes, ciências e letras da atual geração, estamos inseridos neste contexto em decorrência, apenas, do fato histórico de estarmos vivos no momento do milagre da tecnologia. Mas historicamente a literatura brasileira continua na vertente do sincretismo cultural, enquanto fruto da combinação de concepções artísticas de tendências regionalistas diversas, numa fusão de elementos às vezes antagônicos, mas culturalmente reverentes à herança do passado histórico da literatura estereotipada do “pré” e “pós” modernismo. A atual poesia brasileira é produto deste fenômeno cultural, fracionada pelos diversos movimentos regionais desarticulados pela sedução da ‘síndrome do apocalipse’ em que estamos vivendo. Nem todos os que estão na rede virtual do Orkut são poetas no sentido rigorosamente técnico, mas o são do ponto de vista da comunicação humana, ainda que com um domínio primário do poder de expressão poética – o que não deixa de ser uma espécie de uso da “metalingüística”. Em plica o ‘antologista’ Paulo Sabino que “O uso contínuo, repetitivo e mecânico da língua torna-a enfadonha, rotineira. O poema, ao contrário, faz-se por deslocamentos da língua e acarreta no seu ponto ideal uma ruptura da monotonia em vários campos da realidade: arte, política, subjetividade, comportamento, gosto, moral. Na escrita poética, suspende-se o valor lógico-utilitário das coisas cotidianas e com ela transportamo-nos em movimentos de fruição e reflexão novos, inesperados, anteriores mesmo à compreensão, pois antes de ‘entendermos’ os versos, sentimos que com eles uma parte de nós — antes sedimentada — lançou-se para uma zona de prazer e surpresa. Entendamos a monotonia como um fato da linguagem. Ou, ainda, como uma patologia nascida das repetições, do ramerrão de fórmulas e clichês. Contra ela, textos — sobretudo em versos, estas pílulas superpotentes — capazes de avançar contra o ritualismo do tédio com uma linguagem fundada no deslocamento, na verticalidade e na pluralidade”. É daí que surge essa espécie de “síndrome do antologismo”. Por último, devo-me explicar com mais detalhes sobre minha visão atual da cultura no âmbito da literatura contemporânea.

14-Como você avalia as antologias?

MOVIMENTO DA POESIA BRASILEIRA

CONTEMPORÂNEA NO MUNDO VIRTUAL

Por *Afonso Estebanez

Substancialmente, tem havido pouca alteração culturalmente revolucionária no atual ambiente da chamada poesia contemporânea no Brasil, a despeito do advento do privilégio da comunicação digital, esse democrático acerto de contas entre a ciência tecnológica e a história da comunicação humana.

Os grandes repórteres da literatura universal do passado também teriam usado o mesmo sistema tecnológico “moderno” se pudessem voltar ao cenário contemporâneo. E nós, os das artes, ciências e letras da atual geração, estamos inseridos neste contexto em decorrência, apenas, do fato histórico de estarmos vivos no momento do milagre da tecnologia. Mas historicamente a literatura brasileira continua na vertente do sincretismo cultural, enquanto fruto da combinação de concepções artísticas de tendências regionalistas diversas, numa fusão de elementos às vezes antagônicos, mas culturalmente reverentes à herança do passado histórico da literatura estereotipada do “pré” e “pós” modernismo. A atual poesia brasileira é produto deste fenômeno cultural, fracionada pelos diversos movimentos regionais desarticulados pela sedução da ‘síndrome do apocalipse’ em que estamos vivendo.

Do ponto de vista da velocidade do estreitamento tecnológico no campo da comunicação, a produção artística brasileira continua transmitindo ecos sintonizados com a tradição visual do século passado, a despeito dos “futurismos”, dos “cubismos”, dos “concretismos”, das “vanguardas”, das “marginalidades”, das “alternatividades”, dos “modismos” que, como produto final, não representam renovação culturalmente substancial das chamadas escolas tradicionais – já superadas – dos “ismos” que, nada obstante as suas idiossincrasias e contradições próprias da arte experimentalista no país, antecederam, com registros – histórico e social – igualmente contemporâneos, aos atuais movimentos artísticos brasileiros, em particular os literários.

Porém, na carona do neo-iluminismo global do mundo moderno, as transformações técnico-digitais havidas no âmbito da literatura, máxime quanto a forma, estilo, conteúdo ou espaços virtuais, são o lado positivo do novo sistema de comunicação artística através das letras e outros gêneros de arte, no que apontam para o resgate da qualidade oprimida pelo patrulhamento de uma quantidade incontrolável de criações não contextualizadas, resguardada a ventura do convívio cultural contínuo com a população artística feminina que, desde recentíssimo passado, vem fazendo a história da arte brasileira acontecer, notadamente no espaço dominado pelo feudalismo literário do país.

Entendo, assim, que os avanços proporcionados pelo mundo digital na esfera da linguagem ou da técnica de qualquer produção artística, pluralista, anarquista, marginal, contestatória ou reacionária, na verdade não trouxeram transformações fundamentais no contexto da arte contemporânea culturalmente obediente aos antigos cânones da arte neoclássica, levando-se em consideração que sempre haverá – face ao conceito de atemporalidade – uma tendência irreversível da arte contemporânea para a controvérsia cultural fundada nas contradições humanas modernamente expressas pelos inúmeros recursos e imagens da lingüística e da metalingüística.

Continua intransponível, portanto, a magia da expressão literária tradicional que temos apregoado aqui e alhures, assente na beleza da arte da comunicação humana através da linguagem materializada segundo a combinação dos sons e tons dos fonemas, palavras ou expressões, escritos ou emitidos oralmente para se referir à realidade ou à ficção inerentes aos mundos objetivo ou subjetivo, com habilidade, talento, equilíbrio, beleza e harmonia.

Não há necessidade de nenhum derrame de estudos analíticos, didáticos, pedagógicos ou metodológicos da literatura contemporânea, porquanto a lingüística convencional vem sendo aos poucos superada pela compreensão da ciência da metalingüística, que no conceito dos estudiosos do século passado (Bakhtin na poética de Dostoievski) descreve os aspectos não verbais da comunicação que englobam o tom de voz, o ritmo da fala, as pontuações e outras características que vão além da palavra falada, a nos lembrar que extraímos dela o significado tanto dos termos usados como da forma com que eles são expressos, evidenciando aqueles aspectos da vida do discurso que ultrapassam os limites da lingüística dogmática.

“Alguns teóricos são radicais ao dizer que não existe poema sem o chamado ritmo. Seria o ritmo a base fundamental do poema. A metrificação é uma decorrência do ritmo. Aliás, alguns defendem que deve haver algum tipo de métrica mesmo em versos livres. Já outros, dizem que o tema é a coisa mais importante a se considerar num texto que se pretende ser um poema. James Joyce privilegiou o estilo e a linguagem. Jorge Luis Borges apostava nas metáforas. Alguns puristas defendem a forma – as formas fixas – como base segura para se escrever um poema. Penso que estes são alguns dos elementos com os quais o poeta deve lidar. O mais importante talvez seja a possibilidade de alguém conseguir no meio disso tudo encontrar sua voz pessoal, seu estilo único (...)”, “numa escrita peculiar e autoral” (...). “Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante vos será acrescentado!” (Tchello d’Barros).

Emitido por erudito ativista considerado por muitos e por nós outros como um dos artistas visuais contemporâneos mais completos da atual geração, o conceito em destaque, registrado no transcorrer do XVI Congresso Brasileiro de Poesia no palco cultural de Bento Gonçalves/RS no ano passado, traz conotação de isolamento laboratorial da espécie artística digital stricto sensu, ainda nascente, da arte literária contemporânea em desenvolvimento global no Brasil. Considerando que o movimento literário concentrado no sul do país tem o status de acentuado formador de opinião sobre literatura brasileira contemporânea e considerando, ainda, o desencanto de expressivos nomes da literatura nacional e sua ausência do mundo virtual, o que se observa é o cumprimento da velha profecia popular: substituem-se as embarcações, mas as águas a navegar são as mesmas.

Forçoso concluir, portanto, que a poesia contemporânea no Brasil, em nome da velocidade imposta pela tecnologia virtual, repousa num confuso estado de flerte com os movimentos iconoclásticos dos anos 20, porém às avessas, como aparente rejeição ao receituário cartesiano da época: sabe muito bem o que quer, sem que precise saber o que não quer. Talvez por isso os estardalhaços dos vanguardistas de hoje são bem mais festivos do que aqueles mais inocentes dos anos 60, em que os modernismos se confundiam com a variação de facções poéticas regionais. Mas no mundo virtual está impondo características modernas que merecem alguma análise mais aprofundada.

Por fim, como a proclamação da poesia neo-parnasiana consagrada constitui ainda o fundamento primário da cultura poética no país, extrai-se que não há divergências entre as cores artísticas desse contagiante arco-íris de correntes literárias. Há apenas desencontros...

O poeta Claudio Willer (1991) teria sintetizado a poesia contemporânea no mesmo patamar de sua época: “Infelizmente a negação das vanguardas em seu aspecto mais enfático e autoritário tem servido para justificar o academicismo, a volta ao passado, ou então, sub-repticiamente, a escolha da tendência certa da vanguarda, disfarçada de contemporaneidade ou até modernidade”. E isto é como repetir a dança de uma valsa vienense no último baile da ilha fiscal, excitado pelo perfume glamouroso da corte neo-parnasiana...

Rodrigo Poeta
Enviado por Rodrigo Poeta em 14/03/2010
Reeditado em 14/03/2010
Código do texto: T2138803
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.