Entrevista - MANO CÁKIS (Literatura e Educação) - Suzano, SP

Descoberto para a militância política de resistência ainda na adolescência, através da música – foi vocalista e guitarrista da banda Habitantes do Valetão, além de tocar no grupo de rap Sobreviventes – Cláudio Cákis (ou Mano Cákis), também editou os zines do “Movimento de Resistência Sobreviventes''. Hoje educador e poeta com um currículo reconhecido, não deixou a arena, ao contrário, luta diariamente na seara libertária da arte, cultura e educação.

1) EF - Quem é Cláudio Cákis?

CC - Sou um sobrevivente mano, um cara que descobriu na escrita uma válvula de escape, uma forma de combater os conflitos e anseios, de se livrar das drogas e do crime. Um cara que hoje vive, sente e acredita.

2) Como as coisas aconteceram em sua vida, para que chegasse até este estágio bonito, o da arte?

Tudo foi natural. Eu tinha sonhos, objetivos, mas a curiosidade fez com que desviasse meu caminho e dessa forma os sonhos ficaram pra trás, os objetivos já não se concluíam e uma caminhada destrutiva comecei, sem perceber a gravidade.

Ainda na infância sempre escrevia pra me libertar, com raiva e ódio das brincadeiras que filhinhos de papai racistas faziam comigo. Eu pedia pra professora fazer eles parar, ela não fazia nada. A reação era chorar no fundo da sala ou brigar com os caras, eu escolhia a segunda opção.

Na adolescência, o que escrevia era minha falta de perspectiva, ao mesmo tempo a fé e esperança de não ser mais uma vitima da droga como muitos que conheci. Descobri depois que sou um adicto, um cara obsessivo e compulsivo, que precisa se tratar. Desde então venho me tratando, sou especial, sou mutante.

Conheci um sarau depois que fui selecionado pra sair na revista Trajetória Literária 3, concurso literário aberto a todo território nacional.

3) Como e quando você descobriu a prática da arte como instrumento para a cidadania?

Eu expressava meus pensamentos, conflitos e sentimentos por necessidade, sem saber da importância que seria pra minha vida futura como é hoje, uma válvula de escape, uma ferramenta de construção de identidade, resistência e consciência que tenho. Portanto, eles não surgiram como hobby ou entretenimento artístico, surgiram como uma necessidade quando li Graduado em Marginalidade do mano Sacolinha. Percebi que meus escritos também são arte, porque falava do povo, da quebrada. Personagens reais, sem massagem, realidade crua e dura e bonita, pela luta e resistência das pessoas por contrariam as estatísticas do sistema, desconstruindo toda a historia.

4) E como as coisas foram acontecendo, a partir de então?

Participei pela primeira vez de um concurso literário e fui selecionado em 7° lugar pra sair na revista Trajetória Literária III. Mais tarde obtive a mesma colocação no 1° Concurso de Literatura Erótica em parceria com a Secretaria da Saúde, passei a frequentar saraus e a produzir meus textos com mais afinco.

5) Em paralelo, o que foi acontecendo em sua vida, você voltou a estudar? Casou? Fez oficinas?

Já cursei Pedagogia na ativa , mas depois de 1 ano abandonei o curso. Hoje faço História, tô terminando. Não casei porque nem penso nisso, tô me estruturando mas me relaciono com as mulheres naturalmente, não preciso casar... não tô afim. Sobre as oficinas, já fiz no Ponto de Cultura Círculo das Letras, em Suzano. Faço na escola onde leciono, passo adiante o que sei pra quem quiser. É tudo um processo. Como já disse, a escrita pra mim vem como uma válvula de escape, uso como ferramenta pra extravasar meus sentimentos e nas oficinas falo dos gêneros, de alguns autores e a produção é um ato individual de cada participante.

6) O que você curte? O que lê, ouve e assiste?

Curto música boa de variados ritmos. Leio documentos e livros dos meus manos, erótico, marginal, periférico, filmes trash de terror.

7) Como você prefere que o chamem, de professor ou educador? Por quê?

De educador, porque contribuo com a transformação das realidades de forma concreta, faço parte dela, de forma ativa não só profissional.

8) Quais são seus planos para o futuro?

Viver.