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Entrevista com O Escritor e Poeta Richard Foxe

Uma entrevista que tive o prazer de realizar com o escritor recantista Richard Foxe, abaixo se vê um homem de muita vivência, transparência e sinceridade nos argumentos que defende. Recebi grandes ensinamentos em cada pergunta respondida por nosso nobre escritor. Aprendi com o que concordei ou não, das duas formas, sempre aprendemos. Valeu muito a pena ter realizado este trabalho, minha gratidão ao Richard Foxe por ter aceitado esta empreitada. Boa leitura para todos... Um abraço e felicidades...


FB – Esta é primeira pergunta oficial de todo entrevistado meu: Como foi sua infância?

RF - Antes de responder quero lhe agradecer por ter me dado a oportunidade de falar um pouco de mim e, o que mais importa, das minhas ideias. Bom, a minha infância foi vivida num mundo muito diferente do atual, pois nasci poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial (agora estou na terceira idade) numa nação devastada por bombardeios, combates, uma guerra civil sangrenta e a herança pesada dum regime clerical, ditatorial e imperialista de extrema direita: o Fascismo, o de verdade, não como hoje que tudo o que é de direita é imediatamente rotulado de “fascista”. Meus pais eram pobres, mas não miseráveis e, aos poucos, foram se erguendo na medida em que todo o País voltou a crescer. Embora nunca faltasse o essencial, fui educado à sobriedade, a nunca gastar o que não se tem, a economizar pensando no futuro, a trabalhar com afinco e a ser honesto. Esses valores sociais eram comuns à grande maioria da população numa época em que ninguém possuía um carro e poucas casas eram devidamente aquecidas. Ainda lembro-me do frio dos invernos em que a neve costumava cair abundante e a neblina úmida e gelada entrava nos ossos. De TV nem falar, já era muito se numa família havia um rádio. Mesmo assim, as aventuras que vivi na minha infância foram inesquecíveis e duvido que as crianças de hoje saibam o que significa a emoção de explorar as margens de um rio ou de ver uma seara iluminada por milhares de pirilampos.
Terminado o ensino fundamental, quando tinha apenas treze anos, entrei no ensino superior, que aqui dura cinco anos, tendo que levantar antes do sol de segunda a sábado, pegar um pinga-pinga até a cidade grande, mais outro ônibus para chegar na escola técnica na periferia da cidade. A carga horária semanal era de 42 horas (uma loucura!) e, no inverno, voltava pra casa que já era noite novamente tendo, obviamente, que estudar para o dia seguinte. Garanto que não foi moleza, mas terminei com sucesso e entrei na faculdade.

FB– Seus primeiros contatos com a literatura já se deram na infância mesmo?

RF - Sempre gostei de ler e, quando chegava o dia do meu aniversário, frequentemente recebia livros como presentes. Destarte li todos os mais famosos romances de aventura, como os de Júlio Verne, de Emilio Salgari (o criador de Sandokan), de Melville, Robert Stevenson e outros. É importante lembrar que na época a TV era preto e branco e só havia um canal que transmitia programas onde se falava principalmente de política; por isso preferia ler. Em torno dos dez anos de idade ganhei um livro de biologia para jovens e foi amor à primeira vista.

FB– O seu perfil mostra que, provavelmente, você vive na micronação San Marino, na Europa. Como é viver fora e acompanhar tudo que acontece por aqui? Fale um pouco desse país!

RF- Moro relativamente perto de San Marino e já visitei umas vezes essa micronação, mas, na verdade, não moro exatamente nela. Decidi pôr essa localidade no meu perfil pelo seu valor simbólico de pequena república praticamente insignificante do ponto de vista político, mas orgulhosa da sua independência. De uma certa forma eu sou o próprio San Marino: uma pessoa simples, sem pretensões, que não percorreu uma carreira brilhante não por incapacidade, mas por ter me recusado de buscar padrinhos em campo político. Devido querer sem independente e livre fui frequentemente hostilizado no meu ambiente de trabalho na Itália. Quem reconheceu o meu valor e a minha dedicação à Ciência foram os meus colegas brasileiros, muito mais corretos e imparciais que os italianos.

FB – Como tomou conhecimento do site Recanto das Letras? Quem está por trás do pseudônimo Richard Foxe?

RF - Descobri por acaso o Recanto vários anos atrás e pensei que, apesar de certos defeitos do site, ele oferece a possibilidade de divulgar a produção literária de qualquer um. Quanto ao codinome... Posto que não seja nos permitido escolher onde nascer, escolher o DNA, e até o nome é imposto pelos genitores, pelo menos que se possa ter a liberdade de escolher um pseudônimo de nosso agrado, como já fizeram inúmeros artistas, poetas, escritores e jornalistas. Quem sou eu? Basicamente um cientista aposentado que ainda adora investigar e aprender novas coisas. Um renomado recantista não deixa de afirmar que vai morrer católico; pois bem, eu pretendo morrer aprendendo. Nunca me canso de aprender e acredito na máxima de Sócrates: “Existe somente um bem: o saber. E apenas um mal: a ignorância”.

FB- Acompanhando suas publicações, percebi certo ceticismo seu em relação às coisas espirituais, mas olhando um e-livro seu, encontrei a seguinte mensagem: “A falta de compreensão do sentido da vida muitas vezes deixa a pessoa mais angustiada do que a certeza da morte. Eu acredito que existe um sentido espiritual para a vida, pois não somos apenas matéria.” Você acredita ou não em Deus? Se não acredita, onde você direciona sua esperança ou sua fé? Tem fé em alguma coisa?

RF - O livro ao qual está se referindo foi escrito por um agrônomo mineiro e hospedado na minha escrivaninha, portanto aquela frase não é minha. No entanto, não sou cético com relação à dimensão espiritual. Quanto à pergunta se acredito ou não em Deus, a resposta não pode ser simplesmente sim ou não. Antes de tudo teríamos que concordar sobre o significado da palavra “Deus”. Para as religiões abraâmicas, Deus é um ser com atributos e sentimentos humanos: Ele ama, odeia, é ciumento, se arrepende, se sacrifica, mata até as crianças, se vinga, etc. Pois bem, eu não acredito nem um pouco nesse Deus que foi criado pelo homem, e uma análise objetiva e escrupulosa das Escrituras confirma que tudo não passa de uma visão mitológica. Ademais, trata-se duma divindade utilitarista à qual as pessoas se dirigem para pedir um emprego, uma cura ou a solução de problemas práticos, muitos dos quais simplesmente ridículos, como um carro que não pega, um jogo de futebol, passar numa prova (se passa estudando, não rezando!) e assim por diante. Os crentes não se dão conta que um Deus com essas características ou é um palhaço ou um ditador sádico. Bem diferente é o Deus das religiões orientais, principalmente do Hinduísmo que seria mais uma filosofia do que uma religião. Já sei que vai me dizer que o Hinduismo é politeísta, pois eles adoram inúmeros deuses, mas essa é apenas aparência e a aparência engana; na verdade os hinduístas dizem o seguinte: Deus -que eles chamam Brahman- é único e infinito. Sendo infinito, deve ter infinitos atributos e cada um desses atributos se manifesta com um deus diferente; então, quando o fiel adora um desses deuses, na verdade adora um dos infinitos aspectos do Absoluto, do Brahman. A imortal poetisa Cecília Meireles tinha uma verdadeira admiração por essa visão religiosa que expressou em muitos de seus poemas.
Mas, voltando à pergunta, talvez seja correto dizer que sou mais pelo panteísmo, no sentido que Deus é o próprio Universo e tudo o que nele estiver contido. Caso alguém me pergunte polemicamente: “E quem criou o Universo?” respondo “E quem criou Deus?” pois, basicamente, não há diferença entre admitir um criador eterno e um Universo eterno que veio da energia quântica do nada. Essa postura, além de eliminar os defeitos das religiões dogmáticas, nos coloca num plano de universalidade no qual vale um dos preceitos chaves do Hinduísmo: “Tat tvam asi” que quer dizer “Tu és aquilo”, você é o outro e o outro é você numa dimensão caracterizada pelo não-dualismo, como podemos ler, em forma poética, em muitos textos de Cecília Meireles. Termino afirmando que é um grave erro identificar religião com espiritualidade e não é um oximoro afirmar que até um ateu pode ter uma dimensão espiritual bem mais profunda que a de um cristão. Afinal, orar não significa repetir jaculatórias feito papagaio, mas refletir sobre nós mesmos e o lugar que ocupamos no Universo. Nesse sentido, posso afirmar que passo boa parte do dia orando. Quanto à fé, tenho fé na centelha que nos define como humanos, no sentimento de justiça, no anseio pela liberdade, na empatia que podemos ter para aqueles que mais sofrem por causa da falta de justiça e de amor.

FB - Você tem livros publicados ou planos futuros de fazer algum trabalho literário impresso? Tem aptidões artísticas em outras áreas?

RF - Uma vez mandei imprimir um livro de poesias e consegui vender cerca de vinte cópias. Foi um fracasso, portanto nunca mais vou publicar livros. Entretanto, além de ter mais de 70 artigos científicos publicados em revistas internacionais, colaboro com uma revista cultural italiana na qual escrevo textos sobre temas como ciência, literatura, história e até contos. Atualmente prefiro publicar na minha escrivaninha no Recanto das Letras onde se encontram doze livros de minha autoria, mais o que acabei de mencionar, mais o Cap. XXXI do famoso romance italiano “Os Noivos”, no qual se fala da chegada da peste em Milão no ano de 1630. Não sei desenhar e não avancei muito no campo musical, porém faz um ano que comecei a praticar jardinagem.

FB – Como você tem visto o mundo atual com esta pandemia que estamos vivendo e como enxerga a posição das autoridades de saúde e dos governantes nessa situação?

RF - Conforme escrevi no meu texto intitulado “As piores pandemias de todos os tempos”, também a Covid-19 é um evento natural que nada tem a ver com um suposto “castigo de Deus”. As autoridades erraram em não se precaverem antes, apesar de ter passado pouco mais de cem anos da famigerada Espanhola que vitimou pelo menos 50 milhões de pessoas entre 1917 e 1919. Era pra ter criado um sistema de alerta rápida fundamentado na transmissão imediata dos dados sobre os contagiados. Pelo contrário, o governo da China tentou esconder o sol com a peneira negando, por orgulho, que houvesse uma epidemia e quando o estado de calamidade foi declarado era tarde demais. Não morando no Brasil pouco sei de como estão atuando as autoridades sanitárias daí; só posso dizer que a saúde na Itália foi pega de surpresa e os doentes de coronavírus foram internados junto a pacientes com outras patologias com o resultado que também esses foram contaminados e muitos morreram. Nas primeiras semanas faltava até o equipamento básico nos hospitais: jalecos, desinfetantes, luvas, máscaras e oxigênio. Agora a situação sanitária italiana melhorou bastante, mas a economia está em frangalhos.

FB – Vivemos um mundo cada vez mais digitalizado, aonde as informações chegam com muita rapidez e muitas notícias são descartáveis e nada possuem de uteis para nossas vidas. Os jovens são os que mais absorvem este mundo virtual e tudo que ele nos traz. Isto faz, acredito eu, que o desinteresse pelo que realmente tem conteúdo fica cada vez maior, como por exemplo: Ler bons livros, ouvir boas músicas e se instruir de maneira mais adequada de uma forma geral. Em sua opinião o que deveria ser feito para incentivar um meio termo entre a modernidade e a necessidade de aprender algo que realmente pode melhorar e desenvolver culturalmente o meio em que vivemos?

RF - A postura das novas gerações não é avulsa à realidade da nossa sociedade onde o efêmero, as fofocas e o gossip representam as únicas áreas de interesse. Os filhos não são diferentes dos pais. Faça uma enquete, pergunte o nome de um ator de telenovela ou de um campeão de futebol e todos saberão responder. Mas se perguntar quem descobriu a penicilina –o primeiro antibiótico- que salvou a vida de bilhões de pessoas, duvido que alguém conheça a resposta. Hoje em dia sabemos tudo do que nos rodeia, dos nossos carros, do nosso smartphone, do nosso computador, etc., mas basicamente nada sabemos de nós, do que realmente somos e do que mais precisamos. O que falta é a fé num ideal superior, numa religião capaz de satisfazer a nossa sede de conhecimento. Não estou me referindo a nenhuma religião revelada e dogmática, mas àquela, universal, que foi definida como “religião do pensamento”, que tolera todas as doutrinas e todos os cultos, e valoriza sumamente o culto da Justiça. Essa fé, que teve seus mártires (um deles foi Giordano Bruno), não tem profetas ou sacerdotes; e nem precisa de templos e de igrejas, pois o seu tabernáculo é a consciência do ser humano. A solução é ensinar aos jovens o valor da não-violência, do respeito: antes de tudo, daqueles que têm uma cor da pele diferente ou uma identidade sexual diferente ou uma opinião política ou religiosa que não coincide com a que lhes foi inculcada pela família ou pela mídia. Ensinem a eles que ninguém tem a verdade no bolso e que a palavra tolerância não significa fraqueza, mas força interior. Ensinem que ser homem não quer dizer ser macho e que, como homens, não sempre se pode vencer, mas que devemos aprender a enfrentar as inúmeras derrotas cotidianas porque é delas que mais se aprende.

FB – Li um dueto seu com Verdana Verdannis intitulado “Ouro: O Metal dos Deuses”, que considero uma das maiores obras primas publicadas por aqui e um dos melhores poemas que já li. No texto, no meu entender, corrija-me, caso esteja errado, vocês contam a origem desse metal tão cobiçado pela humanidade e que divide o mundo causando terríveis dores e injustiças. Qual o caminho, em sua opinião, para que o homem não se contamine pelo poder desse metal?

RF - O ouro é apenas um metal bonito. Na verdade o que contamina o ser humano é a cobiça pelos bens materiais. Se não existisse o ouro seria outra coisa: terras, ovelhas, gado, escravos, ferro, pérolas, dinheiro, etc. A origem do mal é a falta duma dimensão espiritual do homem que o leva à busca duma ilusória felicidade fundada sobre a posse de algo valioso, mas que não pode satisfazer as suas necessidades mais profundas. Sabemos que no pronau (pátio) do templo de Apolo em Delfos estava esculpida a frase “Gnothi Seauton” que significa: “Conhece a ti mesmo”. Trata-se de um claro convite a conhecer e aceitar os nossos limites de seres mortais sem a pretensão de igualar os deuses acumulando riqueza e poder que oferecem uma felicidade ilusória. Esse aforismo mostra a profundidade da sabedoria dos Antigos pagãos que, 500 anos antes de Cristo, já haviam entendido que a fonte da felicidade está dentro de nós, na centelha divina que se encontra em cada um de nós, e não na posse de objetos basicamente inúteis. O homem moderno deve voltar a valorizar mais o seu lado espiritual (que não significa necessariamente seguir um culto) buscando um caminho de constante aperfeiçoamento que o leve a compreender o que realmente vale nessa vida.

FB – Porque a arte da poesia ainda é tratada com tanto descaso e porque as pessoas são tão mal informadas em relação a poesia?

RF - Me parece que, tudo somado, no Brasil a poesia é ainda bastante valorizada. Além de inúmeras “Feiras da poesia”, existem sites como o Recanto das Letras onde todos podem ler e publicar seus versos. Aqui na Itália nunca vi nada de parecido e quase ninguém curte a poesia: acredita que nunca escrevi poemas em italiano? Outro problema é que a poesia demanda calma, reflexão, introspecção e, nessa sociedade imediatista, não há mais tempo para isso.

FB – Você tem medo da morte? Tem esperança numa vida no além?

RF - Morrer é um ato natural que não me assusta. O que mais me preocupa é o sofrimento que muitas vezes antecede a morte, bem mais terrível e medonho que a própria morte. Trata-se de um sofrimento cruel e totalmente desnecessário, por isso espero que em breve o nosso parlamento aprove uma lei liberando o suicídio assistido. Àqueles que dizem que a eutanásia é errada porque a vida pertence a Deus respondo que a minha vida é só minha e cabe exclusivamente a mim decidir o que fazer, sem que os clérigos se apossem dela. Também não sei o que irei encontrar depois de falecido, ninguém o sabe e quem afirma de saber mente, pois jamais ninguém voltou para contar. Na pior será como disse o filósofo alemão Feuerbach (no século XIX) ou seja que depois da morte estaremos como estávamos antes de nascer: um sono eterno sem sonhos e sem sofrimentos.
Mas há também outra possibilidade bem concreta cujos alicerces se encontram nos fenômenos quânticos que se desenvolvem dentro do nosso cérebro, assim como teorizado pelo físico britânico Sir Roger Penrose e o neurocirurgião americano Stuart Hameroff. De acordo com esses dois cientistas a nossa consciência vai permanecer viva também depois da morte, voltando a fazer parte de Consciência universal. Embora inicialmente vários expertos tenham criticado a teoria de Penrose-Hameroff, experimentos sucessivos demonstraram que a dupla anglo-americana tinha razão. É interessante notar que essa teoria, se confirmada, vai coincidir com visão filosófica proposta pelo Hinduísmo e, em seguida, pelo filósofo neoplatônico Plotino: cada centelha individual (Atman) vai se reunir com a Consciência universal (o Brahman) assim como cada gota de água retorna ao mar, metáfora que representa a única realidade absoluta. Cecília Meireles, que tinha interiorizado esses conceitos, escreveu os versos: “E até sem barco navega / quem para o mar foi fadada. / Deus te proteja, Cecília, / que tudo é mar e – mais nada.” A imortalidade da qual Cecília falava é diferente daquela das religiões ocidentais segundo as quais a consciência individual entra no Paraíso para adorar um Ser que percebe como distinto dela (dualidade); a verdadeira imortalidade se realiza completamente no momento em que o Atman individual volta a ser parte do Absoluto, do Brahman no qual se dissolve harmoniosamente pois o Atman nada é se não uma partícula da mesma natureza do Brahman, conforme o preceito Tat tvam asi - Tu és aquilo, tu és o Absoluto, tu és Deus.

FB - No Recanto das Letras tem mais amigos ou inimigos, e por qual motivo?

RF - No Recanto das Letras ganhei amizades maravilhosas e inabaláveis e tenho muitos admiradores, como provado pelo número de leituras e comentários. Mas também, durante esses últimos anos, ganhei inimizades de pessoas que não apenas deixaram de visitar a minha escrivaninha mas chegaram ao ponto de bloquear os meus comentários, apesar de eu nunca ter faltado de respeito a ninguém. Infelizmente o Recanto reflete a atual sociedade na qual o embate retórico e até violento entre opostos rebanhos tomou o lugar duma dialética equilibrada e construtiva. Do ponto de vista político, a minha posição de livre pensador independente desagrada seja uns esquerdistas exacerbados (que me consideram pouco mais que um fascista), seja uns direitistas fanáticos que não gostam da minha postura em defesa da liberdade de pensamento e da laicidade do estado. O mesmo acontece com a religião onde é ainda grande o número dos intolerantes para os quais quem não se enquadra em suas crenças deve ser considerado um inimigo; eles raciocinam dessa forma: “Você não é cristão? Então é ateu. E se for ateu é um marginal desprovido de humanidade, portanto um Anticristo digno apenas de ser desprezado e com o qual não existe conversa!” Esses extremistas precisam de um inimigo porque, como ensinava Umberto Eco, criar um inimigo imaginário serve para reforçar a identidade do grupo. Também Hannah Arendt reconhecia que essas atitudes insanas são as primeiras sementes das ditaduras populistas: tomara que essas sementes não germinem nunca mais.

Na sequência mais 10 perguntas nos estilo ping pong;

FB – Um amor de Verdade?

RF - O amor pela própria Verdade! A Verdade é tudo, é o alicerce da vida, e a busca pela Verdade nunca terá fim. Jesus disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32); ao mesmo tempo, a tradição espiritual hinduísta afirma que “A Verdade é única, mas os sábios a chamam com nomes diferentes”: isso significa que a busca é um caminho individual que pode se utilizar de ferramentas diferentes, como a filosofia, a ciência e a espiritualidade, desde que seja intelectualmente honesto e isento de dogmatismos, ideologias e preconceitos.

FB – Um sonho?

RF - De voltar a ter vinte anos, mas o Segundo Princípio da Termodinâmica não permite! (brincadeira). O fato é que já não tenho mais a idade para sonhar e o meu maior desejo é que meu filho arrume logo um emprego bom e estável. Considerando a situação que estamos vivendo, esse seria realmente um sonho e tanto.

FB – Sexo?

RF - Os Antigos Romanos diziam que o sexo era uma dádiva dos deuses e nisso tinham razão, mas cresci num ambiente dominado pelo catolicismo onde até 22 ou 23 anos vivi uma situação conflitante entre o que era natural e o que a minha religião proibia. Foi tudo muito angustiante e, dois anos depois, até um namoro não deu certo exclusivamente por causa desse problema.

FB – Um livro?

RF - O Dicionário Filosófico de Voltaire. É um verdadeiro tratado, fácil de ler, sobre a tolerância e a laicidade. Deveria ser divulgado em todas as escolas do mundo.

FB – Uma referência?

RF - O filósofo espanhol Miguel de Unamuno, falecido em 1936. Perguntado sobre qual seria a sua religião, Unamuno (embora católico) respondeu dizendo que a sua religião não era um dogma que enclausura, que cataloga. Não disse ser católico, luterano, ateu, místico ou qualquer outro rótulo. O rótulo representa uma solução fácil que dispensa o pensar mais. O rótulo enquadra o pensamento e Unamuno não queria ser enquadrado. Pois bem, nem eu gosto de ser enquadrado. Além disso, o grande pensador, acusado injustamente de ser materialista respondeu: “Materialismo? Materialismo, dizem? Sem dúvida, mas isso porque nosso espírito também é alguma espécie de matéria, ou não é nada”. Em muitos aspectos o pensamento de Unamuno coincide com o meu.

FB – Um filme?

RF - “Glória feita de sangue” (1957) de Stanley Kubrick e interpretado por Kirk Douglas. Esse belíssimo filme, que denuncia a brutalidade e a loucura da guerra, foi proibido na França até 1975. Assisti várias vezes e sempre me surpreende essa corajosa denúncia contra um sistema que obriga um homem a matar outro ser humano ou ser morto.

FB – Data inesquecível?

RF- Janeiro de 1985: a minha primeira viagem ao Brasil que coincidiu com a pior onda de frio dos últimos cem anos na Europa. Aqui estava tudo gelado e coberto de neve enquanto eu tomava banho de piscina e me bronzeava ao escaldante sol tropical. Mas o que mais me surpreendeu foi a descoberta desse povo generoso e acolhedor: foi uma experiência que mudou para sempre a minha visão da vida.

FB - Um defeito e uma qualidade?

RF - Defeitos? Muitos. Qualidades? Deixo aos leitores essa resposta.

FB – Algo irritante?

RF - Sim, o que em filosofia política se chama de Estado ético, que é o oposto do Estado de direito. Idealizado por Hegel no século XIX, o conceito de Estado ético foi aplicado no século passado tanto na extinta União Soviética como na Itália fascista. A definição pode enganar: esse estado não se funda sobre uma moral natural e objetiva, mas se torna fundamento de si mesmo e não se põe ao serviço do cidadão, mas é o cidadão que está ao serviço do estado, uma premissa que leva ao totalitarismo. Mesmo assim, assistimos hoje ao triunfo do populismo, tanto de direita como de esquerda, representado por aqueles partidos que pretendem ditar o comportamento dos seres humanos com base em suas ideologias e lhe dizem: “Isso não é bom, isso não lhe faz bem e deve ser proibido”. Para mim, que prezo um estado livre, laico, liberal (não liberista) e libertário, não existe nada de mais irritante dos ideólogos que, com a desculpa de querer o nosso bem, tentam impor novamente o Estado ético, como aos tempos do ditador Mussolini.

FB – Uma mensagem aos leitores do Recanto das Letras:

- Um agradecimento e um abraço a todos os meus leitores é o mínimo que possa fazer. Todavia, como não tenho certezas, mas só dúvidas, vou encerrar a entrevista deixando esse meu poema intitulado: “A vida é necessária?” A pergunta é idealmente dirigida a um senhor, falecido muitos anos atrás, que me ensinou muitas coisas quando era menino. A resposta fica com os leitores. Namastê.


Você sabe quanto ando vasculhando
entre estilhaços de nômades lembranças
ou fico perguntando o revérbero arredio
da paz amorfa da pérola em degredo…

A verdade é que me falta uma gazua,
como faltava outrora quando, secreto,
passava horas nas dunas branquejantes
do rio e com as pontas dos pés interrogava
a lama flácida e crua, ou apanhava peixes
incomestíveis e alucinados em água
parada e insuportavelmente quente...

Ou quando contemplava admirado (e inerte)
a nua carcaça da baleia surrealista
que navegava a areia ensolarada:
vestígios de troncos escavados, ossos
calcinados e enfeitados com anzóis,
linhas torcidas e pequenas bóias de cortiça
colorida. Era o rio Po -cigano sonso
e sonolento- que conhecia muitos segredos
inclusive, acredito, o mistério do tempo.

Mas você, que antigamente me ensinava
como soprando na casca bem cortada
do salgueiro podia fazer cócegas nas ninfas
do rio ou, pelo menos, zombar da pega
impertinente, pode sussurrar agora
-cidadão da quiete milenária- algo
que explique o serpear da vida…
e se realmente ela é tanto necessária?

Richard Foxe


 
Fábio Brandão
Enviado por Fábio Brandão em 11/08/2020
Reeditado em 15/08/2020
Código do texto: T7032310
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