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Calixto de Inhamuns - Mambembeando a arte viva

Opinando e Transformando

Calixto de Inhamuns é dramaturgo, roteirista, diretor, ator e professor de teatro e dramaturgia que sempre teve o seu trabalho, nas artes cênicas, ligado aos grupos e coletivos de trabalho. Nas décadas de 70 e 80 foi uns dos fundadores do Grupo de Teatro Mambembe e do Grupo Arte Viva. Na TV trabalhou com Valter Avancini, escreveu os últimos 120 capítulos de Mandacaru, e foi coordenador de textos no SBT (2005/2006)

Em sua opinião, o que é Cultura de Paz?
Cultura da Paz é lutar, diariamente, contra uma cultura que está na sua cabeça, coração e alma, eivada de preconceitos, de intolerância, onde os que pensam diferente são inimigos e que lhe foi impingida, moldou seu caráter, desde, ou até antes, o seu nascimento.
A Cultura de Paz é uma guerra contra o desrespeito a vida e a dignidade de cada ser, humano ou não, deste ou de outros universos, a favor do direito de todos viverem sem discriminação ou preconceito, sem sofrer violência, sem opressão, com liberdade de expressão e o eterno direito de ir e vir desde que, tudo isto, não prejudique os direitos dos outros viventes.
Como a Liberdade, a Cultura da Paz tem o seu preço, ou seja, a eterna vigilância de estar sempre atento às outras pessoas, convivendo em paz, ouvindo, falando, mas respeitando, todas as diferenças, pacificamente, mesmo com o ranger dos dentes que faz parte deste aprendizado. Ranger os dentes, engolir, refletir, refletir depois da reflexão anterior que lhe mostrou novas luzes, refletir, refletir e refletir sempre.
É válido lembrar que, para construir uma sociedade mais humana, é fundamental que cada um comece por se reconstruir e fazer sua parte por meio de mudanças de atitudes, valores e comportamentos que visem à construção de um mundo mais justo e melhor para se viver.


Como podemos difundir de forma coerente a paz neste vasto campo de transformação mental, intelectual e filosófica?
A melhor contribuição que você pode dar é viver de acordo com o que fala, escreve ou aconselha aos demais, enfim, que fuja do já tradicional “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Se você quer um mundo melhor, comece se fazendo uma pessoa melhor se exercitando, diariamente, na arte de aceitar valores e comportamentos diferentes dos seus, mas sem nunca deixar de perguntar os “porquês” dos mesmos. Aceitar não é concordar, mas deste que o diferente seja algo condizente com a dignidade humana, respeitar, senão, lutar contra, sempre com raiva, mas nunca com o ódio. A raiva nasce de uma injustiça que, corrigida, mata a raiva, o ódio nasce dos preconceitos, dos ossos adoecidos, dos intestinos baixos, saciado apenas com a destruição, moral ou física, do inimigo, enfim, um horror.

Como você descreve a Cultura de Paz e sua influência ao longo da formação da sociedade brasileira/humanidade?
Diante dos tempos preconceituosos, intolerantes e fundamentalistas da nossa sociedade dos dias de hoje, no geral, incipiente, ou melhor, inexistente. Vários pensadores e pessoas de bens sempre defenderam uma Cultura de Paz entre nós, mas, parece, pregaram no deserto para as pedras e os raros cactos das areias quentes.
Vivemos, politicamente, um momento onde um grande pensamento humanista para a transformação do mundo, para melhor, foi esquecido: a grande luta do oprimido, dos que sofrem todos os mais variados tipos de agressões, não é só sua libertação, mas, também, libertar o opressor que vive preso a sua vida mesquinha. Temos que lutar contra o pensamento opressor, mas sem visar a destruição do ser humano que traz esta chaga, ou ficaremos no eterno durante 500 anos Antônio oprimiu José, mas agora José, liberto, oprimirá Antônio 500 anos.

 
A cultura, a educação, liberta ou aprisiona os indivíduos?
Esta é uma pergunta que traz implícita a resposta. Se somos opressores, ou prisioneiros, quem no fez assim foi uma cultura torta, machista e preconceituosa e, quanto a educação, olhem para a nossa elite, para os nossos dirigentes, quase todos letrados ou com títulos universitários, onde, por exemplo, diante de uma pandemia, de um vírus cruel que ataca os mais fracos ou desassistidos da sociedade, aproveitam para desviar dinheiro dos nossos impostos que deveriam estar voltados para a saúde do povo brasileiro.
A educação, a grande arma para mudar uma cultura, aquela do “jeitinho” para uma solidária e justa, não deve ser só aquela que ensina a ler e escrever, mas a que ensina a pensar, a perguntar o “porquê” das coisas. Tem que ser humanista, falar de responsabilidades, obrigações e direitos, ensinar a viver juntos apesar das diferenças ou igualdades, falar de paz, da não violência e preparar os alunos para viverem e construírem juntos.
E, muito importante, alguns dizem que “as guerras nascem na mente dos homens”, mas, talvez, mais importante ainda, é dizer que as más mentes, como quase todos os males das relações humanas, nascem das relações econômicas entre pessoas, estados, nações e civilizações. Desde o simples – simples, mas cruel – dia a dia entre uma dona de casa e a sua empregada, entre um industrial, ou comerciante, com o operário ou seu funcionário, ou as complexas relações entre nações e até continentes, está a economia, as relações econômicas.
Ensinar e educar é abrir os olhos das pessoas para as coisas do mundo, o próprio mundo e a relação entre as pessoas, individualmente, ou, coletivamente.

Comente sobre o espaço digital, destacando sua importância na difusão do despertar da humanidade.
Sobre o espaço digital costumo falar, sempre, que é tão importante que, ainda nem chegado aos trinta anos, já parece tão antigo como as coisas da bíblia. De forma maciça, quase generalizado, é coisa recente, mas é culpada ou responsável, segundo alguns, por todas coisas boas e más da humanidade. Ela, na verdade, ampliou o que as pessoas têm ruim e de mal na cabeça, coração e alma, mas por isso mesmo, por este alcance, é uma arma fundamental nas mudanças de hábitos e costumes, quase todos, os maus e os bons, já registrados na bíblia.
Outro aprendizado que é responsabilidade da educação: ensinar as pessoas a usarem novas ferramentas de comunicação, mas, tenham calma, pois o livro, que foi tão importante como o espaço digital, levou séculos para ter reconhecido a sua importância.

Qual mensagem você deixa para a humanidade?
Deixar uma mensagem para a humanidade, principalmente no meu caso, com 76 anos e que ainda querendo viver e aprender muito, acho pretensioso, mas, como estudo de lápide, deixo: lutem sempre, guerreiem, briguem por uma Cultura da Paz, mas vivam em paz.
Dhiogo J Caetano
Enviado por Dhiogo J Caetano em 11/09/2020
Código do texto: T7060394
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Sobre o autor
Dhiogo J Caetano
Uruana - Goiás - Brasil
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Dhiogo J Caetano