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entrevista

Cheguei por volta das 11h30 à casa do idiota, considerado o maior idiota do Brasil, e ele me convidou para sentar em uma poltrona nada confortável...
-- Olá, vc pode me dizer seu nome completo.
-- Oh, sim, repórter, meu nome completo é Zamaliel.
-- É um nome bíblico, não é?
-- Não. Existem centenas de Zamalieis pelo planeta, mormente neste país.
-- Bom, então vamos falar de sua vida, de sua vidinha ou de seu vidão. Você é um boa vida?
-- Não. Não tenho dado certo com ninguém por pura falta de sensibilidade. Não gosto muito de morar neste país, mas sou obrigado a permanecer aqui porque certas pessoas têm prioridade em sair, e não eu. O Brasil gosta de inúteis.
-- Mas por que o senhor...
-- Senhor está no céu, ao nosso redor, não sei. Mas por que vc se referiu ao nome do senhor? Vc por acaso é de alguma religião?
-- Costumamos tratar as pessoas por senhor por educação.
-- É, repórter, mas acho isso, no meu caso, falta de educação.
-- Vc é casado?
-- Não, ninguém me ama e ninguém me quer. Moro sozinho nesta casa, como vc pode ver, e olha a bagunça. Todo mundo tem nojo de entrar aqui porque pensa que sou um porco, e olha que sou mesmo um porquinho. Deixo sempre tudo bagunçado porque caso alguém entre não fica contrariado.
-- Vc anda de táxi, ônibus, enfim, que tipo de transporte utiliza?
-- Que pergunta idiota! Claro que só ando de táxi, olhe só para minha classe! Visto-me com roupas última moda na europa e tenho também o meu próprio estilo. Sou fashion ao extremo.
-- Não me diga. Zamaliel, qual o seu signo?
-- Ah, eu sabia...eu sabia q vc ia me perguntar isso. Meu signo é leão.
-- Tu tens um fogo danado.
-- Que falta de respeito, moleque!
-- Desculpe, mas continuando, vc fuma?
-- Sim.
-- E quantos cigarros por dia?
-- Não é da sua conta, a não ser q vc queira pagar um plano de saúde para mim, aí eu falo.
-- Vc é homossexual.
-- Não é da sua conta.
-- Mas afinal, Zamaliel, vc não gosta mesmo de falar sobre vc, acho que vou embora.
-- Não, fique. Vou lhe contar um segredo. Aqui em São Paulo as pessoas são perfeitas, não têm defeitos; e além do mais, São Paulo é uma das melhores cidades para se viver neste país, senão a melhor.
-- Conte-me sobre suas aventuras.
-- Olha, não tenho tido muitas aventuras, porque as pessoas aqui são muito fechadas. Disseram-me q em London, por exemplo, lá as pessoas são legais com a gente, mas tudo bem. Bom, vim morar pra cá em 2000 e fui logo alugando um apartamento sem janelas. Como sempre abandonado, eu fazia comida na espiriteira, coisa de que não vou me livrar pra sempre, eu sei, porque minha vida transcorre em altos e baixos. A vizinha de cima punha música para tocar a partir das sete da manhã e no último volume. Um dia fui reclamar e aí vieram me dizer q ela tinha direito de fazer isso porque pagava o aluguel direitinho e tb porque trabalhava feito uma condenada semana toda. Reclamei até para a polícia, imagine. Eu, considerado um marginal logo de vista reclamar pra polícia! O marido da vizinha quis me matar com uma daquelas peixeiras do norte. Mas não matou. Correu atrás de mim pelas ruas com a peixeira e na frente da delegacia me ameaçou de morte. Todos ao redor riram de se abaixar. Enfim, nunca tive direitos neste país porque sempre me consideraram um vagabundo, uma pessoa q não vale um centavo.
-- E então me conte outra de suas aventuras...
-- Vc quer saber mesmo, repórter? Está bem. Enfim, tornei-me um gigolô porque não arrumava emprego bom e vc sabe como são os empregadores aqui no Terceiro mundo com gente como eu; querem respeito às hierarquias de forma absoluta. E se vc é pobre, será sempre pobre. E a madame alugou um apartamento para mim, mas não deu certo porque não consegui pagar o aluguel. Aí tive de jogar todos os móveis fora, jogar todas as roupas e cheguei até a oferecer as coisas da casa, tipo gigolô vende tudo, sabe? Mas as pessoas fingiam que iam vomitar só de entrar onde eu morava. Acabei vendendo um tapete belíssimo por cinquenta centavos. O brasileiro é muito esperto nesse aspecto.
-- Mas vc é brasileiro tb, respira o mesmo ar que respiramos...
-- Sim, repórter, mas as pessoas precisam de pessoas como eu para se sentirem bem com a consciência.
-- Vc já levou um pé na bunda?
-- Sempre levo, afinal, não é a toa que sou o maior idiota do país.
-- Então vc se tornou um prostituto.
-- Sim, entrei pra academia e todo mundo sabe q homem sarado neste país é putinho. Quando não entra grana vai lá e se prostitui. Mas é segredo, não põe isso na matéria não. Enfim, entrei pra academia e fui logo inchando os músculos. Resolvi me prostituir com um anúncio em jornal. E vou lhe contar uma história interessante. Uma pessoa famosa me quis para uma noite, e é claro, foi a minha noite de glória.
-- Vc pode falar o nome?
-- Claro q não, imbecil, senão perco o meu cliente! Mas foi uma noite realmente maravilhosa...
-- Vc gostaria de contar detalhes a respeito?
-- Não.
-- Quanto q vc cobra?
-- Olha, aqui em São Paulo a gente cobra de acordo com o volume do bíceps. A gente tb trabalha pra polícia, por vezes eles querem q a gente mate os bichinhas. O tamanho do pênis vc sempre mente q não tem problema. 22 centímetros é 14, entendeu?
-- E com mulheres...
-- Poucas mulheres recorrem aos putos, mais as gordinhas, amigas por vezes dos amiguinhos dos putos e q querem se vingar.
-- Não entendi.
-- Tb não, é inexplicável. Sabe, não verbalizo muito bem, desculpe.
-- E o q as mulheres mais gostam que vc faça nelas...
-- Não vou falar porque sei q o seu jornal é de respeito e não erótico.
-- Vc já viajou para fora do país?
-- Fui pra Europa e também para a Ásia. Para um prostituto é tudo mais fácil. Mas tb tive de trabalhar duro, até na lavoura, meu amigo. Lembro-me de que em França me botaram para lavar pratos. Os franceses são mesmo perigosos com todos aqueles perfumes nojentos.
-- Vc acha perfume francês nojento?
-- Caro e nojento.
-- Que eu saiba o maior nojento deste país é Eduardo Domenico, o metidinho a escritor.
-- Quem? Ah, esse estúpido ainda vai pagar caro. Imagine q me falaram que ele não tem talento nenhum para a literatura e continua escrevendo. Isso é que ser imbecil! Um tipo desses morre logo, e de cigarro.
-- O q vc acha do brasileiro?
-- É inatingível ou então descerebrado.
-- É pacífico, digamos.
-- Ninguém aqui é pacífico, meu bem. A guerra aqui é outra. Vc acha q um dia vai ter guerra civil aqui? Nunquinha. Aliás, nunquinha é o q sempre digo a Eduardo Domenico quando ele vem me procurar.
-- Não me diga! É um bichinha?
-- Não, ele vem pra conversar, pra tirar idéias para um novo livro. O coitadinho nem computador tem. Vai se matar.
-- Vamos terminar a entrevista Zamaliel. Amanhã vc receberá a medalha de maior idiota do Brasil, e presumo q esteja bastante contente em ser o eleito deste ano, não é?
-- Sim, é como um oscar ou coisa parecida. Estou muito emocionado.
-- Obrigado por sua entrevista, Zamaliel.
-- Tá tudo bem, tudo bem, agora vai, vaza...
Sigmund Blas
Enviado por Sigmund Blas em 10/11/2007
Reeditado em 28/06/2012
Código do texto: T731794

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Sigmund Blas
São Paulo - São Paulo - Brasil
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