O GALO PETECA E A LIBERDADE INESPERADA

O GALO PETECA E A LIBERDADE INESPERADA

Quero contar minha história que começa numa manhã de segunda, quando todos saíam de suas casas. Alguns para trabalhar, outros para a escola... Todos arrumados andavam para pegar o ônibus, dirigir seus carros ou motos. Enquanto isso, desde muito cedo me colocaram num transporte grande, para que fosse aplicado o meu destino final, a morte. Na verdade, eu não sabia por qual motivo eu estava dentro de um gradio, preso e apavorado, a sentir a morte chegar. Fechado dentro de um cubículo, lá estava eu, como tantos outros seres iguais a mim, com certeza, com o meu mesmo destino. Era um dia como outro qualquer, porém, para mim, mesmo com o destino de morte selado, eu desfrutava aquele dia, pois ele estava mais lindo do que o de costume, já que era o meu primeiro dia na rua, e a tudo observava em seus detalhes, pelo menos no que podia perceber. Algumas vezes me dominava o pensamento de que ele era o primeiro, e possivelmente o último passeio desfrutado por mim! Pouco dei atenção as tais conjecturas, pois estava passando por lugares que jamais havia imaginado e sentia uma coisa diferente dentro de mim, mesmo estando em uma situação difícil, preso, engaiolado, a caminho da morte, eu estava fazendo do momento algo de gosto e prazer. Minha observação e gosto me fizeram notar, que naquela manhã o Sol aparecera com seus raios de cor amarela sobre algumas poucas nuvens, e o céu azul, se misturava àqueles raios, junto ao brilho dos meus olhos que recebia o impacto do vento que lhe batia. O transporte para! Então, quando não mais nos movíamos, parados a beira de uma estrada e, no alto de onde estava na minha prisão, eu podia olhar para todos que passavam como pequenas criaturas. De repente, na agitada sela que me transportava e aos meus colegas de prisão, eles, no empurra, empurra, me fizeram cair das cadeias que me prendiam por entre uma brecha no alto da sela. Despencando ao chão, depois de uma terrível queda, meus pés estavam espragatados sobre o piso preto do asfalto e pouco faltava para ser o mesmo que minhas pernas em seu perfil; elas, um pouco abertas, encurvadas por causa da queda, fazia-me ficar como que em posição de levantar voou, já que de peito abaixado, quase arrastado ao pretume da estrada, lá estava eu como pudesse ir ao cume do monte por asas de águias. Desejei voar! Acordei do sonho nas alturas, com os freios dos carros e o falatório daqueles indivíduos que andavam por entre aqueles carros e motos. Estes indivíduos em seus olhares assustados, indagadores, expressavam expectativa ao que haveria de acontecer comigo, por ter me soltado, estando livre para fugir. Rapidamente eu passei a virar minha cabeça em busca de um ângulo melhor para que pudesse ouvir o que meus companheiros de prisão diziam; os ouvia falarem em som tumultuado, misturado ao barulho dos carros e motos que passavam depressa ao meu lado, fazendo de tudo para não me atropelar... Hilário, cômico por demais! Em segundos lá estava eu, livre de minha prisão, porém, muito mais perto da morte que antes me esperava. Os meus companheiros continuavam a gritar querendo minha atenção! Do pouco que eu podia entendê-los, diziam: Foge, foge... Mas, fugir pra onde? Nada eu conhecia daquele lugar! E, qual fenda há entre as calçados que eu possa me esconder? Qual o mato de tamanho as alturas em que eu possa me embrenhar? Só existem carros, prédios, indivíduos de olhos arregalados e braços como verdadeiros tentáculos estendidos para me pegarem. Percebia também cachorros... Estavam de lado a lado daquela estrada, prontos para me devorarem! Eu passei a rodar, e rodar em busca de uma saída, enquanto meus carrascos pouco a pouco me cercavam... Eles queriam meu sangue, carne, coração e tudo que de mim pudessem tirar. Eu não sabia se parasse e ficasse a espera da morte, se chorasse despertando piedade da multidão que me observava ou, se pulasse entre todos por entre carros, motos ônibus, cachorros... Pulasse bem alto em busca de um lugar tranquilo, ainda que fosse um último momento para a minha vida! Foi então que uma linda criatura de pelos brancos, que parecia ser de muita idade, pois se apoiava em uma madeira, aparece à frente de todos e olha dentro dos meus olhos. Ela se aproxima e me encanta com sua fala suave, macia... Eu podia entendê-la e senti-la ao me tocar, que ao fazê-lo, já começou chamando-me de Peteca. Quando ela me segurou, todos mudaram o comportamento comigo, apenas amarraram os meus pés e a ela me entregaram. Eu os ouvia falar de dinheiro, pagamento... Acredito que ela deva ter lhes pago alguma soma pela minha vida. Colocaram um saco cobrindo a minha cabeça que não foi tirado durante todo o caminho que seguíamos juntos, eu e aquela figura angelical que havia me tirado das mãos dos meus algozes. Tornávamo-nos uma única pessoa! Eu, agora, lhe pertencia, dependia da sua generosidade, da sua guarda. Pensei por um momento se ao chegarmos a nosso destino, eu não teria o mesmo fim, a morte! Senti medo, muito medo! Mas, também senti calma e paz, por ter conhecido alguém que me queria de todo o coração e vontade, ao ponto de pagar alguma soma por minha vida. Ao chegar ao lugar de sua morada, a criatura amável tirou o saco de minha cabeça e passou a alisá-la. Eu me senti seguro e, percebi que suas mãos delicadas me soltavam o pé que antes estavam amarrados. Ela abre uma porta e me ajuda a sair para um espaço enorme, de muros altos... Eu percebi que naquele lugar existiam outros iguais a mim... Neste lugar existiam muitas arvores plantada e, uma grama verde e macia cobria boa parte da terra e para adornar o lugar haviam flores por todos os cantos. Passei a andar por todo o espaço, e quanto mais eu fazia isto, percebia que estava livre para refazer minha vida com outros semelhantes a mim que passaram a me tratar como família e não mais como um prisioneiro! Os cachorros que lá existiam não queriam me comer, os gatos não me olhavam com gosto de sangue, as pessoas não me prendiam em gaiolas e os outros seres semelhantes a mim, não brigavam por espaço, pois tinham o suficiente para todos que, mesmo diferentes em cores viviam sintonizados. No centro de todo este espaço havia uma corrente de água que derrama e não secava, e junto a ela, tinha uma formação de concreto em circulo contendo comida, que saciava todos os gostos em seus sabores e delicias. Era como se estivéssemos num paraíso! Eu pensei por muito tempo o que custou para minha guardiã aquela minha liberdade, mas nunca obtive respostas sólidas! Na verdade, o que eu pude entender ao observá-la enquanto cuidava de todos é que ela possuía um grande amor por todos nós. Foi então que decidi valorizar a minha vida na liberdade que obtivi, fazendo a minha parte naquele lugar. Passei a produzir o que fosse necessário junto a minha função e capacidade em fazer o que era de minha obrigação, a final de contas, eu era um frangote que ainda estava de crista crescendo e aquele lugar era o meu lar, minha fortaleza, meu mundo. Eu não queria ser o dono daquele galinheiro; não me esforçava para cantar mais alto do que o Galo Velho daquele dono do pedaço; nunca chegava perto de suas fêmeas, suas galinhas; não ficava na parte mais alta das arvores, ou do poleiro armado em madeira. Não! Na verdade, eu só queria continuar vivo e feliz com minha dona, lhe dando o lucro com os pintinhos que nasciam a cada ninhada das galinhas que ela criava. Eu não tinha do que reclamar! Olhava o Sol que nascia e via o seu amarelo; eu sentia o vento bater forte nos meus olhos quando subia nas arvores; eu não chorava mais com medo da morte; eu, apenas queria viver a minha liberdade com valorização e responsabilidade! E assim vivi os meus dias sobre a terra, no galinheiro de Dona Maria e, no tempo certo, me tornei o maior Galo da Região: O Senhor Galo Peteca! Minha morada, meu lindo lugar, eu denominei de meu Mundo de Paz! Sempre que me deixavam, eu entrava na casa de Dona Maria para comer do que sobrava debaixo da mesa, e podia ouvi-los balbuciar o meu nome chamando-me para subir na cadeira. Eles riam dizendo: este é Peteca! Eu fui feliz com a liberdade que me deram e com o novo mundo que me apresentaram como morada! Espero que você, independentemente de que indivíduo seja, encontre o seu Mundo de Paz também, e seja feliz!