1- Antes de iniciar minha narração, vale a pena esclarecer que a palavra “Sintaxe” deve ser pronunciada “SintaSSe”.
Além disso, é importante compreender que cada palavra, quando analisada isoladamente, nos leva ao “mundo” da Morfologia se pensamos em definir a que classe gramatical ela pertence e ao “mundo semântico” se verificamos o significado do vocábulo.
A Sintaxe aparece quando juntamos as palavras. Semelhante a um político que adora ganhar o voto de muitas pessoas reunidas, no momento em que há várias palavras surge a Sintaxe objetivando organizá-las, formando frases e orações que tornam efetiva a dinâmica da comunicação.
 
2- Conheço Tadeu desde a época do ensino primário.
Certa vez ele me apresentou um rapaz muito bacana, Paulo.
Hoje Paulo e Tadeu são amigos bem queridos.
Há umas duas semanas comecei um namoro com a irmã de Paulo, Júlia. Ela tem apenas 22 aninhos.
Júlia possui um primo (grau distante) o qual a gata estima demais. Parece um cara legal. 
Tadeu e Paulo costumam sair à noite e só retornam quando o dia amanhece. Eles dizem que ficam conversando e bebendo refrigerante.
Eles me contaram que tais saídas ocorrem independente do estado de espírito deles. Se um dos dois está enfrentando um dilema, o outro oferece o ombro solidário.
Nós três nunca saímos juntos (eu sou excessivamente caseiro), mas desenvolvemos uma amizade legal e espontânea.
 
3- Minha narração se refere ao que ocorreu numa terça-feira.
Nesse exato dia Tadeu me confessou que estava vivendo uma forte crise com sua namorada.
Ele pretendia almoçar e ter uma conversa definitiva com a moça.
Fiquei na torcida para que tudo acabasse bem, mas, conforme já revelei a ele, não simpatizo com sua namorada. Acho que a recíproca é verdadeira, pois nós apenas nos cumprimentamos sem nenhuma emoção.
 
Paulo, nessa terça, ficara de me pagar a segunda parcela referente a um dinheiro que me pediu (há exatos dois meses) para ajudar a organizar as finanças de sua pequena empresa.
Combinamos total discrição sobre o assunto, portanto, fora ele e eu, ninguém sabia desse débito.
Eu estava contando com a grana para pagar uma dívida do cartão de crédito que ficou complicada demais nos últimos dias, sugerindo até a presença da Justiça. Já tinha planejado efetuar um urgente pagamento no dia seguinte, na quarta.
Paulo estava esperando receber o dinheiro de uma terceira pessoa para que assim pudesse me pagar.
A conversa começou com o pedido dele para eu adiar o prazo.
Expliquei que não dava, esclarecendo a situação.
Ele compreendeu, demonstrou estar envergonhado e preocupado, prometeu que, na manhã seguinte, teria a resposta definitiva.
Tentaria, no comecinho da noite, exigir a grana do seu devedor, porém afirmou dar uma resposta final quarta até nove horas.
 
4- Eu precisava aguardar a quarta, era simples, no entanto fiquei bastante tenso pensando no assunto, pois a situação envolvendo o cartão de crédito, sem querer dramatizar, estava gravíssima.
Nesse mesmo dia (terça), Júlia à tarde me avisou que sairia com o primo para festejar o aniversário do marmanjo, me convidou, eu inventei uma desculpa qualquer para me livrar da farra.
Perguntei sobre Paulo, ele não estava.
Pedi a ela que me informasse assim que Paulo aparecesse.
 
Muito nervoso não consegui esperar coisa nenhuma. Duas horas depois resolvi passar na casa do meu cunhado. Pretendia saber se ele já tinha condições de me dar uma resposta, se a gente não poderia pressionar o seu devedor, sei lá o quê, tentar algo que me acalmasse.
 
5- Chegando na casa de Paulo, quase sete da noite, não encontrei Júlia, que já havia saído com o primo para festejar o tal aniversário.
Não encontrei também Paulo, apenas minha simpática sogrinha.
Ela me falou descontraída que Júlia, no instante em que ela estava chegando do trabalho, lhe deu um papel para me entregar.
Era um bilhete que dizia o seguinte:
 
“Querido! Saí mais cedo do que pensei para comemorar com Guga, não deu tempo de esperar a ligação sua nem te ligar. Decidi não levar o celular (não quero perder dançando, não vou levar bolsa). Não tenho hora pra voltar. Ah! Paulo apareceu com Tadeu abatido. Os dois conversaram um bocadinho na sala, eu estava terminando de me arrumar, nem percebi os dois saindo (não te avisei como você me pediu, espero que não seja nada grave). Os dois devem ter ido dar aquela esticadinha noturna de sempre. Beijo, chuxuzinho! Te adoro!”
 
6- Esse era o recado.
Eu não tinha como falar com Júlia, pois ela não levou celular e não tinha hora para voltar (que conversa esquisita é essa? “Chuxuzinho”?).
Pedi à minha sogrinha (ou haveria o risco de se tornar ex-sogrinha?) para usar o telefone fixo da casa (todos sabem que eu não utilizo celular).
Ela informou que o celular do filho estava na sala. Parece que ele esqueceu.
Liguei para o celular de Tadeu, só dava caixa.
Recordei que ouvi várias vezes Tadeu reclamando de sua operadora (quando escuto essas coisas sempre renovo a certeza de que celular é uma tremenda bobagem).
Me despedi da sogrinha meio cabisbaixo.
O recado de Júlia (Não tinha hora para voltar? Não levou o celular? Chuxuzinho? ) não ajudou.
 
Paulo apareceu com Tadeu abatido.
Quem estaria abatido? Paulo ou Tadeu?
 
Foi uma noite tensa. Nem sequer tive cabeça para ver a novela das nove (Que bom! A inquietação serviu para alguma coisa!).
 
Cerca de onze da noite liguei para a casa de Paulo, mas ele não havia retornado, Júlia também não dera notícia.
Liguei para a casa de Tadeu, ele não havia chegado também. O celular continuava dando caixa.
Voltei a realizar as mesmas ligações meia-noite, porém sem sucesso algum.
 
7- O que realmente teria acontecido?
Júlia notou alguém abatido, pois ela não disse que percebeu os dois abatidos.
Havia, então, uma esperança no ar.
Tadeu terminara com a namorada chata, Paulo estaria o consolando.
Paulo me disse que tentaria falar com seu devedor no comecinho da noite. Provavelmente conseguiu obter a grana, restava só me entregar.
Essa era a boa esperança.
Tadeu sofreria um pouco, porém eu não sofreria nada financeiramente falando.
 
Ou Paulo ficou abatido porque obteve uma resposta negativa sobre o dinheiro que a pessoa devia a ele o qual devia a mim?
Tadeu, animado depois da boa conversa que teve com a namorada, chegou e convidou o meu cunhado (caloteiro!) para dar uma aliviada.
Ficar chorando a desilusão financeira não resolveria o problema.
Se essa fosse a verdade, eu passaria a sofrer e ser obrigado a me virar nos trinta com a instituição financeira (essa nunca sofre). Quanto a Paulo, fica difícil saber se sofreria muito por não ter como me pagar na quarta. Logo o eventual sofrimento dele certamente passaria (safado!).
 
8- Percebi que as duas interpretações estavam corretas e eram coerentes.
Alguém estava abatido, mas quem?
Um estava consolando o outro.
Quem?
 
Seria pedir muito a Júlia deixar um recado menos ambíguo?
Imaginei que quem escreve “chuxuzinho” talvez não compreenda o significado da palavra “ambíguo”.
A madrugada foi longa. Não consegui dormir, deu para pensar um bocado.
A bela jovem percebeu, no entanto, que alguém estava abatido!
Ela foi capaz disso!
Quem ela achou abatido: o irmão ou Tadeu, quase um irmão também?
 
Havia um detalhe importante.
Já vi Tadeu enfrentando problemas, porém ele é um cara muito otimista. Nunca o vi abatido.
Nesse caso o deprimido seria Paulo e meu dinheiro teria dançado. Por tabelinha eu teria dançado junto.
Mas também nunca vi Tadeu terminar um namoro. Isso abate muito qualquer cidadão otimista.
Eu sofri uma desilusão amorosa que me abateu durante treze anos.
E agora?
Nesse caso só quem teria dançado seria Tadeu.
 
9- Cogitando quem teria dançado, recordei Júlia dizendo “não quero perder o celular dançando”.
Nesse momento ela estaria curtindo com o primo, tão jovem quanto ela...
Se a coisa esquentasse demais, eu terminaria dançando noutro sentido.
A madrugada, sem poder falar com minha namorada (estava bem tarde para voltar a ligar), sem hora de retorno definida, oferecendo uma comemoração de aniversário inesquecível ao priminho, estimulava bastante minha imaginação.
No início matinal da quarta se aproximando (já eram quatro da madruga), de repente eu poderia descobrir que não tinha dinheiro nem namorada!
 
Percebam que a construção sintática de Júlia causou uma enorme confusão semântica.
Mas cobrar uma boa construção sintática, sem nenhuma complicação semântica, de quem escreve “chuxuzinho” talvez seja pedir muito, não?
 
Paulo apareceu com Tadeu abatido?
Não tinha hora para voltar?
Dançando?
 
Seis da manhã resolvi passar na casa de Paulo.
Queria logo a resposta do meu cunhado (ou ex-cunhado).
Cheguei lá, a sogrinha (ou ex-sogrinha) gentilmente me recepcionou estranhando o horário, porém, muito carinhosa, informou que Júlia tinha chegado umas três horas da madruga, foi logo dormir bastante sorridente. Paulo havia chegado, mas ela não viu o horário.
A educada senhora (bastante sorridente?) subiu para acordar o cunhadinho.
 
Ufa! Finalmente eu resolveria aquele enigma!
Já não era sem tempo.
 
10- Suponho que você está ansioso pelo desfecho dessa história.
Esse conto baseado em fatos reais, ressaltando, na sua trama, a Gramática, mais especificamente a Sintaxe abraçada com a Semântica, com direito a um terrível deslize ortográfico, deve ter despertado sua curiosidade.
Você deseja saber rápido quem estava abatido na frase elaborada por Júlia (bastante sorridente?).
 
Devo confessar, entretanto, que estou digitando preocupado.
Por quê?
A entrada do meu teclado parece com mau contato.
Às vezes o teclado não funciona, não consigo digitar nada.
 
Será que o meu teclado vai pifar na bendita hora de revelar o que ocorreu?
Quero demais revelar o que Paulo me disse quando surgiu sonolento na minha frente.
Além disso, eu preciso terminar o texto escrevendo “Um abraço!”.
Eu sempre faço isso.
Será que dessa vez não vou poder escrever “Um abraço!”?
 
Leitor ou leitora querido(a), eu estou fazendo essa ressalva para você não estranhar caso eu interrompa o texto abruptamente.
Se acontecer, vou usar o mouse para clicar em “enviar”, mas você não saberá como tudo acabou.
Seria chato e poderia comprometer minha credibilidade contigo.
Por isso estou avisando.
 
Sem adiar mais, vou revelar agora quem estava abatido na frase de Júlia (perceba que, ganhando tempo, com medo do teclado pifar, não escrevi “minha namorada” nem “minha ex-namorada”, escrevi apenas “Júlia”).
 
Perguntei a Paulo se ele tinha conseguido a grana do devedor, o meu cunhado respondeu que
Ilmar
Enviado por Ilmar em 04/10/2012
Reeditado em 04/10/2012
Código do texto: T3915428
Classificação de conteúdo: seguro