E Você,Prefere Correr Risco de Vida?

Dr.Drauzio Varela (Solidão Crônica): "O isolamento social aumenta o RISCO DE MORTE...." [No Google]. (-Logo,segundo o dr.Drauzio, a pessoa que se isola corre grande RISCO DE MORTE).

Machado de Assis: ".... ainda com RISCO DE VIDA?" (Conto.) (-Aqui Machado PREFERE que seu personagem corra RISCO DE VIDA.)

Bechara: ".... Entendida a distinção entre significado e sentido, estaremos habilitados a perceber que têm significados de língua diferentes — e até opostos!— vida e morte, mas que entram em expressões de discurso com o mesmo sentido, isto é, a mesma intenção comunicativa, e vale dizer que ‘perigo de vida’ e ‘perigo de morte’ são discursos ou textos que aludem a uma mesma situação de periculosidade a que alguém está exposto, se não tomar as precauções devidas. Em outras palavras: são discursos equivalentes quanto ao sentido, mas construídos com signos linguísticos não sinônimos (vida/ morte), isto é, sem o mesmo significado. A opção por usar vida ou morte vai depender da norma ou uso normal em cada comunidade linguística.

Entre brasileiros aparece documentado no primeiro dicionário monolíngue da língua portuguesa, o de Morais (Antônio de Morais Silva), de 1789. O ‘Vocabulário Português e Latim’, de Bluteau, que serviu de fonte ao Morais, no volume editado em 1720, registra 'pôr-se a perigo de vida, perder a vida', mas faz acompanhar das equivalentes latinas vitae ou mortis periculumadire ousubire, que atribui a Cícero. A norma em alemão PREFERE ‘vida’ (Lebensgefahr), enquanto portugueses—embora estes também conheçam ‘vida’ —, espanhóis, italianos e franceses PREFEREM ‘morte’: ‘perigo de morte, peligro de muerte, pericolo di morte, danger de mort’. Machado de Assis PREFERIA ‘perigo’ ou ‘risco de vida’: 'Se não fosse um homem que passava, um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida, estaria morto e bem morto’, '—Nada? Replicou alguém. Dê-me muitos desses nadas. Salvar uma criança com risco da própria vida...' (‘Quincas Borba’); '[...] impossível a quem não fosse, como ele, matemático, físico e filósofo, era fruto de dilatados anos de aplicação, experiência e estudo, trabalhos e até perigos de vida [...].', 'Tu não tens sentimentos morais? Não sabes o que é justiça? Não vês que me esbulhas descaradamente? E não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?' (‘Páginas avulsas’).

Condenar ‘perigo de vida’ em favor de ‘perigo de morte’ é empobrecer os meios de expressão do idioma — que conta com os DOIS modos de dizer —, além de desconhecer a história do seu léxico, em nome de um descartável fundamento lógico...." ( Academia Brasileira de Letras -11/12/2011- Perigo de vida ou perigo de morte? www.academia.org.br ).

Machado de Assis: "....E não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?..." ( Papéis Avulsos -Na Arca).

Bechara: "....Condenar ‘perigo de vida’ em favor de ‘perigo de morte’ é empobrecer os meios de expressão do idioma — que conta com os DOIS modos de dizer...."

Machado de Assis: "... o macaco corria risco de morrer...." (Contos Fluminenses -1870).

DOUTOR NAPOLEÃO (DQVs., 1981): " SE DIZEMOS 'CORRER RISCO DE MORRER', ACERTADO É TAMBÉM QUE DIGAMOS 'CORRER RISCO DE MORTE'...."

Ora, se o macaco (no conto de Machado de Assis) corria risco de morrer, ele não corria "risco de morte"? -SIM! Mas se o macaco corria risco de morrer, ele não corria "risco de vida"? -SIM! Logo, " as duas expressões são vernáculas e corretas, e ambas trazem o mesmo conteúdo semântico." Empregá-las ou não é questão de preferência. (Se quiser, leia o Texto:4221354:E Agora,Doutor,"Ele Corre Risco de Morte?")

Américo Paz
Enviado por Américo Paz em 04/04/2013
Código do texto: T4223727
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