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TROPEÇOS na/de LINGUAGEM (2)

TROPEÇOS na/de LINGUAGEM (2)

  Não se constitui excepcionalidade, ouvirmos de ou lermos, até mesmo em conceituadas fontes, sentenças tais como: ‘Embora inúmeros abaixo-assinados, remetidos à Secretaria de Obras, solicitando providências quanto a reparos e limpeza nos pontilhões da zona rural, nunca se fez nada/ não se fez nada’. Saliente-se que construções congêneres por descuido ou desconhecimento, fazem parte de nosso cotidiano. Na realidade, objetivamos evidenciar que não foram tomadas resoluções, não procederam ao solicitado. Entretanto, atentemos ao registro de que há duas negativas em cada afirmação. Em ambas, pelo emprego do ‘nada’, intui-se o desejo de que ‘nada’ fosse feito: portanto incompatível com o pretendido. Se trocarmos ‘nada’ por ‘consertos’, ficaremos com ‘nunca se fez consertos/não se fez consertos (fizeram ou foram feitos). O ‘se’ torna a estrutura impessoal. Contudo, se empregarmos, sem o ‘se’, fez (ele ou ela (fizeram (eles ou elas), teremos voz ativa com sujeito indeterminado. Em foram feitos (consertos) teremos voz passiva analítica. Desta sorte, a lógica pede uma só negativa:  ‘nada’ foi feito; ‘não’ foram feitos e ‘nunca’ foram feitos (temporal).
Muitos de nós nos questionamos quanto ao uso do til em formas verbais terminadas em ‘e’ ou ‘em’.  Percebamos, sem necessidade de análise acurada, a nasalização nos verbos cujo infinito é ‘OR’ (outrora OER): antepõe, antepõem;  apõe, apõem; compõe, compõem; contrapõe, contrapõem; decompõe, decompõem,  depõe, depõem;  descompõe, descompõem; dispõe, dispõem; entrepõe, entrepõem; expõe, expõem; Impõe impõem; indispõe. indispõem; interpõe, interpõem; justapõe, justapõem; opõe, opõem; pospõe, pospõem;  predispõe, predispõem;  prepõe, prepõem; pressupõe, pressupõem; propõe, propõem; recompõe, recompõem; repõe, repõem; sobrepõe, sobrepõem;  soto-põe,  soto-põem;  superpõe, superpõem; supõe, supõem; transpõe, transpõem. Obs.: corrOER – ele/ela corrói – corroem.  DestrUIR -  ela/ela destrói -  destroem.

Verbos cujo infinitivo terminam em ‘OAR’ não sofrem nasalização, Por conseguinte, não recebem til.  Abalroe, abalroem; abençoe, abençoem; abotoe, abotoem; acolchoe, acolchoem; afeiçoe, afeiçoem; aferroe, aferroem; agrilhoe, agrilhoem; amaldiçoe, amaldiçoem; amontoe, amontoem; aperfeiçoe, aperfeiçoem; apregoe, apregoem; arpoe, arpoem; arrazoe, arrazoem; assoe, assoem; atordoe, atordoem; atenue, atenuem; atraiçoe, atraiçoem; caçoe, caçoem; coe, coem; coroe, coroem; desabotoe, desabotoem; despovoe, despovoem; destoe, destoem; doe, doem; ecoe, ecoem; efetue, efetuem; enjoe, enjoem; enevoe, enevoem; entoe, entoem; escoe, escoem; garoe, garoem; escanhoe;  escanhoem; ensaboe, ensaboem; incoe, incoem; leiloe, leiloem; magoe, magoem;  perdoe, perdoem; povoe, povoem; repovoe, repovoem; reboe, reboem; ressoe, ressoem; soe, soem;  voe, voem;

Em algumas construções, usando as mesmas palavras,  se os vocábulos não estiverem corretamente posicionados, geram esdrúxulas redações ou dubiedades. (1) Olha, que por duas vezes quase morreu. Infere-se que escapou do infausto na primeira e segunda oportunidade. (2) Olha, que quase morreu duas vezes. Percebe-se, inquestionavelmente, que a primeira morte, ainda que devesse ser fatal, não foi definitiva.

Em algumas oportunidades, já abordamos construções com o emprego do ‘só’, sem que nos tenhamos aprofundado na área interpretativa ou significativa. Ficamos limitados à substituição do ‘só’ por somente (advérbio, invariável), ou do ‘só’ por sozinho, sozinha, (adjetivo, variável).

Muitas colocações com o ‘só’ levam-nos a dúbias ou múltiplas interpretações, bem como a ambiguidades. (1) Somos uma só voz. (substituível por somente, apenas) por extensão, advérbio. Confirma-se pela inversão literal: ‘Somente, apenas, uma voz somos. Interpretativamente: agregamos nossas reservas individuais em favor da unicidade. Também: Dispomos de recursos limitados: (apenas, somente a voz).  (2) Somos uma voz só. (substituível por somente, apenas). Gramaticalmente: advérbio. Nossas vozes isoladas fundem-se numa ‘só’ (somente). Também: dispomos de (apenas) uma voz – haveres reduzidos. Podemos conduzir nosso pensamento a ‘Somos uma voz só (sozinha)’: agora temos um adjetivo. Diante de tantos clamores, nossa voz é impotente. (3) Somos uma só voz – (apenas, somente) -  reunião, conjunto – limitação.
 
Atente-se ao ‘sós’ (sozinhos). Ex.: Eles chegaram sós. Eles, sós, chegaram (sem companhia). Sós, eles chegaram. Gramaticalmente: adjetivo. Note-se a concordância do sujeito com o adjetivo. É inviável substituir por (somente, apenas).
 
Com frequência nos valemos de Veja só, eles conseguiram, vejam só, eles conseguiram.  Quer o verbo ‘ver’ esteja no singular ou no plural, o ‘só’ permanece invariável, em assim o sendo, teremos advérbio. Alguns renomados gramáticos classificam-no (só), como Palavras ou expressões / locuções denotativas : são as que, em relação às dez classes gramaticais da língua portuguesa, têm classificação à parte, não possuem uma classe gramatical específica segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Às vezes enquadradas entre os advérbios, são designadas como palavras denotativas de limitação.

Janeiro 2020
Jorge Moraes
Enviado por Jorge Moraes em 24/03/2020
Código do texto: T6895950
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Jorge Moraes
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 75 anos
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