Flauta ferida - haikais outonais

Flauta ferida - haikais outonais

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ossudas

as pernas da palavra ~

desnuda

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Se-Gyn

céu azul, azul

o olhar que mergulha ~

tonto se perde

José Marins

ah, quem me dera o azul

dos olhos teus nos meus

Obrigado por estes dois versos perfeitos, mestre Marins!)

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montanhas

diante delas se desmancham ~

noções de tempo

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quanta dor existe

nas notas agudas do clarim ~

Fogaréu

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subir a ladeira

é como subir o Everest ~

com tal cruz nas costas

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sexta-feira santa

chama à atenção de todos ~

as vestes dos romanos

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espaço

na árvore do cerrado ~

pouso de pássaros

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andar de trem

pela rota imaginária ~

imagens coloridas

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nenhuma palavra

nos cachos de seus cabelos ~

vento de outono

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vida breve

tal como o bater de asas ~

da garça sobre o rio

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na dúvida

entre dia e noite ~

o agora

.

desde a manhã

o céu que promete chuva ~

sem rumores

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tudo

a noite em mim, agora ~

música do mudo

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José Marins

ah, o tanto de calma

de que necessito quando

me anoitece a alma

Se - Gyn

estrelas me confortam

ouvindo Gil cantar "Estrela"

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como folhas secas

carregadas pelo vento ~

minhas memórias

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paineiras em flor

não ouço mais o ruído ~

do ar condicionado

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as garças do campo

levantam seu belo voo ~

rio Meia Ponte

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a noite desce

sobre o arvoredo quieto ~

lua distante

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galo véio

a pipa não sobe mais ~

adeus, quintais

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cadê o silêncio?

nesta manhã de outono ~

as coisas mínimas

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esta branca lua

terá este mesmo brilho ~

aí na sua rua?

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imaginagem

crianças entram na escolinha ~

todas de blusão

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porta

as primeiras folhas mortas ~

vejo despencar

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minha sombra

é mais longa que a calçada ~

forrada de folhas

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um bem-te-vi

que longe está cantando ~

sem ouvir reposta

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vai bem depressa

o trabalho nesta manhã ~

sábado outonal

mas fazem falta os colegas

que em breve deixarei

José Marins

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manhã ensolarada!

a árvore do viajante

me sugere tanto...

Se - Gyn

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mesmo na íngreme jornada

lugar de parar e pensar

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o frio da manhã

só não percebe o feirante ~

Kombi quebrada

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maravilha

a cor do céu profundo ~

que cobre Brasília

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tiras

pedaços de Tiradentes ~

pescoço ausente

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festeja e canta

a beleza do céu de outono ~

o gavião pinhé