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CUT-UP DE GRANDE SERTÃO VEREDAS

Cut up de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa*

Querendo procurar, nunca não encontra. De repente, quando a gente não espera, o sertão vem. Posso me esconder de mim? Eu queria e não queria ouvir. Não adianta se dar as costas: se sonha, já se fez. O sertão vem e volta. Explico: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê?  Vida muito esponjosa. Careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... esse mundo é muito misturado. O sertão é confusão em grande demasiado sossego. Um feio mundo, exagerado. O chão sem se vestir. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. Eu sem segurança nenhuma, só as dúvidas, e nem soubesse o que tinha de fazer.

Eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava. Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais.

O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. O senhor escute, me escute mais do que eu estou lhe dizendo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. Quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor – se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Por que era que eu estava procedendo assim? Senhor, sei? Sei que me desconheci. Ah, ânsia que não queria o que de certo queria. O senhor vá pondo seu perceber. Razão por que fiz? Sei ou não sei. De ás, eu pensava claro, acho que de bês não pensei não... aí a confusão e desordem e altos desesperos. O sertão tonteia.

Conforme foi. Eu conto; o senhor me ponha ponto. Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele adentro. Calado é melhor que fique. Peço não ter resposta: que, senão, minha confusão aumenta. Por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível. Que é que é um nome?  Nome não dá: nome recebe... Dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra. Caçar verdadeiro no falso. Mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo – que tudo lhe fiei. Aqui eu podia pôr ponto. Para tirar o final, para conhecer o resto que falta, o que lhe basta... é pôr atenção no que contei, remexer vivo o que vim dizendo. Porque não narrei nada à-toa: só apontação principal, ao que crer posso. Não esperdiço palavras. O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo. Me ensina o que eu sabia.

O que era isso, que a desordem da vida podia sempre mais do que a gente?  O real roda e põe diante. Homem, sei? A vida é muito discordada. Tem partes, tem artes. A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Requeria era sarar, não desejava Céu nenhum. As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – no que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa. Atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Sertão é onde os pastos carecem de fechos. Quero o outro perto, eu distante de mim. Hoje em dia eu nem sei o que sei, e, o que soubesse, deixei de saber o que sabia. A gente só sabe bem aquilo que não entende. Meu coração é que entende, ajuda minha idéia a requerer e traçar.

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Sentei em cima de nada. E eu cri tão certo, depressa, que foi como sempre eu tivesse sabido aquilo. Se o senhor já viu disso, sabe; se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia. Sertão é o sozinho...  dentro da gente. O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. O sertão não tem janelas nem portas... ele está em toda a parte. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa. Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.  O que eu não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca... Atravessei meus fantasmas? O senhor crê minha narração? No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. Sei de mim? Cumpro.

*Uma colagem de frases - todas do GSV - arranjadas de modo a ilustrar o percurso de um analisando até chegar à travessia, termo empregado na clínica lacaniana para designar fim de análise.

Ana Guimarães

(Texto originalmente publicado na coluna Literapura, do site Nova Literatura)
Ana Guimarães
Enviado por Ana Guimarães em 21/09/2007
Reeditado em 22/09/2007
Código do texto: T662911
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Sobre a autora
Ana Guimarães
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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