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PENSE NUM TIO BACANA

Em mais uma das viagens de seu Valdemar ao Rio de Janeiro, onde se encontrava a maioria de seus irmãos, na viagem de volta ele trouxe um deles para morar conosco, uma das pessoas mais carismática que já conheci, estatura mediana, magrinho com aquela barriguinha de chope e com uma facilidade incrível para fazer amizade. Na maioria das vezes usava meia dúzias de palavras, para conquistar qualquer um amigo ou amiga que eu lhe apresentasse, era suficiente uma só vez para que estes, muitas vezes me obrigassem a busca-lo quando não chegava com ele nas festinhas.
Sempre só fez mal a ele mesmo, e quando tomava cachaça ou cerveja, a primeira dose ou o primeiro copo seria a que daria origem a série, e para parar só depois de pra lá de Bangladesch, mesmo assim e no maior grau etílico jamais se envolveu ou provocou confusão.
Me lembro de uma das vezes em que chegou meio alto, e encontrou seu Valdemar no portão a lhe esperar, depois de muito conselhos, quase chegando as vias de fato, e o tio como sempre igual um cordeirinho só ouvindo, meu pai lhe disse:
- Vicente meu irmão, a cachaça vai acabar te matando.
Foi bem aí que ouvi as únicas palavras do tio, ele disse:
- Mano, a cachaça pode até me matar, mas só se eu for trabalhar no deposito da distribuidora e uma caixa cair lá de cima na minha cabeça.
Meu pai entrou em casa e foi até a cozinha, percebi que ele estava se controlando para não rir.
Quando a gente voltava das festas sempre depois de meia noite, cada um em sua bicicleta, ele gostava de andar na frente e logo começava a fazer zig-zag no meio da rua, soltava as duas mãos do guidão, abria os braços e na maioria das vezes quando aparecia algum carro continuava fazendo sua performance, o motorista e as mulheres que estavam no veículo continuavam a segui-lo, e quando lhe ultrapassavam as mulheres aplaudiam e jogavam beijinho.
Não me recordo quanto tempo passou conosco, mas a saudade de seus irmãos que viviam no Rio de janeiro, lhe fez voltar, e segundo o pai, ele teria um filho por lá.
A primeira oportunidade que tive de conversar com o pai, depois de voltar do Rio de Janeiro, depois de algum tempo que o tio havia retornado, perguntei-lhe como estava vivendo nosso tio, ele me disse que o tio estava bem e que ele havia tentado convence-lo a voltar par ao norte, mas ele não quis. Seu Valdemar então aproveitou para contar como era a sua rotina:
- Meu filho, seu tio é uma pessoa que consegue viver em qualquer lugar e com qualquer tipo de pessoa. Ele tem o dom de fazer as pessoas gostarem dele. Veja como ele faz; - Escolhe um lugar para colocar uma banca de salgadinho, refresco e cigarro a retalho, na maioria das vezes ele monta a mesinha em uma esquina que fica em frente uma mansão, em menos de três dias ele vai criando uma intimidade com os empregados e as pessoas daquela casa, e tudo começa com um pouco de água para lavar os copos, em uma semana eles estão mandando ele entrar para lavar na torneira do jardim. As crianças não veem a hora dele colocar a banquinha. No dia que ele não vai segundo seu Valdemar, as crianças têm até febre, os idosos ficam preocupados e a pergunta é uma só: - O que aconteceu com o seu Vicente? Mal sabem eles que Vicente estava se alto flagelando por dentro, depois de beber a bebida que seria para três.
- Onde ele esta morando? Perguntei.
- Quando cheguei no Rio ele estava morando debaixo de uma folha de zinco. Mas passou alguns dias e meu irmão mais velho comprou uma Kombi, para carregar as mesas, cadeiras as caixas de cervejas, refrigerantes e salgados que vendiam nas festas, ele então passou a morar dentro dela, não que não houvesse um lugar pra ele na casa, mas é que ele não gostava de incomodar ninguém. Só que antes d’eu voltar pra cá, prenderam sua casa, meu irmão foi sair na Kombi para fazer umas compras e bateu em um guarda de transito, o guarda se levantou, pegou o bloco de multa e aplicou tanta multa, que se vendesse a Kombi e mais duas no mesmo estado dela, ainda não daria para pagar as multas.
O tempo passa e até que um dia meu pai recebe uma ligação de sua irmã do Rio de Janeiro. Ele achou estranho e imaginou o pior, já que dificilmente alguém nos ligava de lá, do outro lado da linha minha tia lhe deu a notícia:
- Mano, o nosso irmão morreu... O Vicente foi atravessar a avenida e o ônibus lhe pegou.
Meu pai tentou lhe confortar, mas sabia que seu irmão estava embriagado no momento do acidente. Antes de desligar o telefone, meu pai disse para sua irmã:
- Mana, não foi o ônibus que matou nosso irmão, o ônibus apenas lhe derrubou.
Tio Vicente que DEUS o tenho em um bom lugar. Muitas saudades dos que ainda estão por aqui.
Elton Portela
Enviado por Elton Portela em 14/09/2020
Código do texto: T7063318
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Elton Portela
Boa Vista - Roraima - Brasil
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Elton Portela