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Causos de Lucas Durand. 9 a 12.

9 — O Causo da Luz da CEMIG!

A CEMIG implantava a extensão de seus serviços em todo Estado de Minas Gerais e as cidades do Oeste de Minas estavam no projeto e seria ótimo para o desenvolvimento da região. Energia farta!
Todos as cidades implantaram o sistema de postes de cimento nos passeios das ruas e não mais no meio da rua com postes de madeira, luz fraca e etc. Agora, teria luz de mercúrio! Um luxo danado!
As cidades torciam e rezavam para ser a primeira a ter a energia da CEMIG. Sinal de prestígio, claro! Todos atentos a qualquer novidade. Qualquer pessoa que porventura viesse de uma cidade adjacente era prontamente interrogada se lá já havia ligado a luz da CEMIG!
Bão! Pela manhã estavam todos a postos na praça em volta da igreja em Araújos! Comentários daqui, interrogações dali, viram alguém que sabiam havia ido a Belo Horizonte e que fatalmente teria que passar em Perdigão — cidade mais próxima de Araújos e onde a disputa pela ligação da luz da CEMIG estava mais acirrada! —, e o infeliz deveria ter chegado no ônibus da madrugada! Imediatamente o cercaram e indagaram se lá já havia sido ligada a luz da CEMIG!
O coitado, atarefado com seus afazeres e não querendo se envolver naquela disputa, pois tinha parentes em Perdigão e em Araújos, tentou se desculpar e respondeu sem pensar:
— Olha... eu não prestei atenção quando passei em Perdigão...  Era de noite!!!

10 — O Causo do Arroz Doce!

Havia um sujeito que ninguém sabia por que tinha o apelido de Arroz Doce! Matava até a mãe se alguém o chamasse assim! Bravo e ignorante feito uma toupeira! E chamá-lo de Arroz Doce era marcar encontro com a morte! Mas, sempre há um engraçadinho louco para burlar a vigilância de alguém e fazer hora com a cara dos outros, né!
Então, numa bela tarde de inverno... todos ao redor do balcão de madeira de uma “venda” — como era chamado os armazéns antigamente — bebericando umas e outras e falando da vida... E, alguém viu o Arroz Doce vindo em direção à venda!
— O Arroz Doce vem aí...! — sussurrou o que estava perto da porta. — Cuidado... pessoal!
Todos riram, pois perto do homem ninguém teria coragem de dizer aquilo.
— Eu vou chamá-lo de Arroz Doce na frente de todos vocês! Querem apostar! — propôs um engraçadinho.
— Uma caixa de cerveja! — disse um outro.
— Combinado!
Pegaram nas mãos na presença de todos!
Lá vinha a vítima pela rua. Cumprimentou seriamente a todos e encostou-se num canto do balcão pedindo uma pinga. Todos continuaram a conversar e beber como se nada de anormal estivesse acontecendo... Então, o que havia feito a aposta pediu mais uma pinga e aproveitando que estava sendo servido, disse ao vendeiro:
— Cumpadre, inhantes que eu me esqueça, pese dois quilos de arroz para mim... Se eu esquecer a mulher me mata! — e continuou a tomar sua pinga.
O vendeiro pesou o arroz e colocou em cima do balcão de madeira.
— Mais arguma coisa, cumpadre! — indagou o vendeiro, remexendo o caderno de fiado.
— Ah, mais uma rodada de pinga pra nóis... E, deixe-me ver... um quilo de açúcar!
— Já vai! — resmungou o vendeiro servindo as pingas. Depois, pesou o quilo de açúcar e colocou junto ao arroz em cima do balcão.
Conversaram, discutiram política e daí um tempo...
— Ah, cumpadre, deixe dois litros de leite separado para mim... Acho que não tem leite lá em casa, senão a mulher vai me mandar correr rua atrás de leite depois.
De vez em quando um olhava para o Arroz Doce encostado junto ao balcão fumando seu cigarro de palha.
— Mais arguma coisa, cumpadre! — instigou o vendeiro, seriamente.
— Deixe eu vê... — disse, fazendo um cigarro de palha calmamente. — Cê tem cravo, cumpadre!
— Tem, sim!
— Uns dois pacutim...! Corta um pedaço desse salame aí pra nóis tirar o gosto das pingas também!
— Já vai!
Arroz Doce tirou o chapéu e coçou a cabeça...
— Mais arguma coisa, cumpadre! — disse o vendeiro com o prato de salame cortado em cubos.
— Não! — respondeu, olhando para os volumes em cima do balcão. — Ah, quase que eu esqueço... Dois pacutim de canela em pó!
Neste instante uma faca brilhou no meio de todos e foi encostada na garganta do engraçadinho!
— Mistura! Mistura se você for homem, seu desgraçado! Mistura! — berrou enfurecido nosso amigo Arroz Doce.
Dizem que alguém nunca mais comeu arroz doce na vida!

11 — O Causo do Piolho!

Um casal morava na beira de um rio... Acontece, que o marido tinha o apelido de piolho! Se alguém falasse Pi... já ganhava uma cacetada. Um belo dia os dois se desentenderam! Sabe como é... às vezes... de vez em quando... esporadicamente e quase todo dia um casal pode desentender, né!
Acontece, que a mulher do infeliz era daquelas pirracentas! Mas, bota pirracenta nisso! E ele não ficava atrás! Então, numa discussão, ninguém se calava, certo! A briga começou de manhã... uns duzentos metros do rio... numa casinha simples e tal e tal...
Já era meio dia e ninguém se calava! Desaforo daqui e desaforo dali e cobrança daqui, acusações dali e a briga passou para o lado de fora da casa e lastrou... A mulher do cara já sem saliva de tanto falar e sentindo que não conseguia ofender pra valer aquele pirracento, soltou a bomba!
- Piolho!!! — berrou ela com todas as forças.
Ai, meu Deus! O homem “envermelhou” a cara e arregalou os “óios” e partiu pra cima da mulher para as vias de fato! Tapa daqui, tapa dali, chute e tudo mais e o rio chegando e a mulher gritando...
— Piolho! Piolho! Piolho!!! — e o homem chegando junto! Um supetão... e ela parou lá no meio do rio... Voltou cambaleando e gritando...
— Piolho! Piolho! Piolho!
Ele, então, apanhou uma grande vara de bambu e a empurrava mais para o fundo do rio tentando por fim à vida dela. Sabia que naquele lugar não dava pé... E a danada ia pro fundo bebia cinco litros de água... E quando boiava...
— Piiiooolhooo! — e voltava pro fundo, empurrada pela vara de bambu e com algumas cacetadas na cabeça de lambuja.
Bebia mais uns cinco litros de água... E quando vinha à tona...
— Piiiooolhooo!-e voltava pro fundo de novo! Meia hora nessa agonia...
Ela, vendo que já não tinha mais forças para gritar e que seu fim já estava próximo e que iria mesmo pro fundo do rio deu seu golpe de mestre! Ao afundar lentamente e não podendo mais “tussicar” o seu marido com seus gritos, colocou as duas mãos para cima da água e começou a apertar os polegares um no outro comprimindo as unhas como se matasse pulgas e piolhos.
O homem teve um enfarto de tanta raiva!

12 — O Causo do Casamento do Soldado!

Conta-se, que nos antigamente, naqueles tempos que não voltam mais... que um comandante de um destacamento era um verdadeiro Dom Juan e usava de sua posição para tais fins...
A metodologia era a seguinte: soldado tinha que pedir permissão no quartel para casar, né! E quando o comandante via que a mulher era bonita, pedia para ficar sozinho com ela na sala e com jeito ele “bizorrava” no ouvido da dita cuja, que, se... ela facilitasse as coisas... o marido seria até promovido! Era rapidinho e ali mesmo na sala e coisa rápida! Ninguém iria saber! Como de fato, acontecia!
A dita cuja, vendo que podia ajudar o marido e também dá uma variada, aceitava! — mulher também é filha de Deus, né! — Tudo iria ficar no maior sigilo! O marido iria ganhar mais um “tiquinho”, a vida ia “miorá”, poderia comprar um vestido novo e fazer uma festa de casamento “mió”... etc.! — mulher sempre pensa em tudo — Bão, né! Parede tem ouvido! Já diziam os antigos!
Acontece, que depois de algum tempo, ninguém queria se casar mais naquele quartel! E ninguém tocava no assunto. Mas, casamento mesmo que é bão, neca! Todo mundo namorava, namorava... e o comandante já estava sequinho da Silva! Mas, ninguém casava! Ele até começou a cobrar dos soldados para que não ficassem enrolando as moças... Mas, ninguém casava!
Bão! Um soldado começou a namorar uma moça duma cidade vizinha... Sempre que estava de folga, ia lá dá uns beijinhos e tal...
“Namorô"... “Namorô”... tempo passando, pensaram em se casar! Moça de família, prendada! Havia uma “heracinha” no meio... umas terrinha... ô trem bão! O soldado tinha um ciúme da bichinha que só vendo...
Mas, quando ele comentou com um grande amigo de farta sua intenção de se casar com a dita cuja, meio constrangido, o colega relatou ao amigo o que acontecia quando se casava naquele quartel...
Dizem que atrás de morro tem morro...
O soldado, muito dos espertos, pensou, pensou... Ninguém iria colocar as mãos na sua amada! De jeito maneira!
Marcou o casamento com a família da noiva e foi falar com o comandante!
Porém, antes de ir para o quartel e sabedor de que ninguém conhecia sua futura passou num bordel, ajeitou uma das distintas para que o acompanhasse até o quartel... vestindo ela nos conformes, que até parecia mulher direita... Mas, com um belo decote... e explicou como ela deveria agir.
O comandante ficou numa alegria danada ao saber que tinha um pedido de casamento e se “impetecô” todo!
Uma hora depois a futura esposa saia da sala com a autorização na mão! Tudo dentro dos conformes! Promoção garantida e até com data marcada!
Daí uns dias... outro pedido de casamento! E de repente... todo mundo no quartel estava querendo casar! O comandante já estava um bagaço! Marcaram o dia das promoções! Festa no quartel! Todo mundo acompanhado de suas legítimas esposas!
O comandante passou em revista a tropa... Cada um com sua mulher verdadeira a tiracolo! Dizem os antigos que o bom cabrito num berra, né! Então, foi que o comandante descobriu por que havia pegado tanta doença de rua!
Lucas Durand
Enviado por Lucas Durand em 14/03/2006
Reeditado em 23/09/2008
Código do texto: T123266


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Sobre o autor
Lucas Durand
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lucas Durand