AS ÁRVORES DO SEU NICANOR


Seu Nicanor era um homem muito devotado aos trabalhos de casa e do seu sítio. Era um verdadeiro pai de família na acepção real da palavra. 

Ali, na sua propriedade, ele passava a maior parte do seu tempo trabalhando em companhia de sua esposa e dos seus filhos. A energia elétrica ainda não tinha chegado lá e como ele não tinha televisão, nem DVD, para ocupar parte do seu tempo ocioso, constantemente a cegonha lhe visitava. Às vezes ela aparecia até duas vezes por ano; uma em janeiro e outra em dezembro.

Sem nenhuma preocupação com o uso de preservativo e nem com a aquisição de anticoncepcional para a sua esposa, a sua prole foi aumentando ano após ano e foram tantas as crianças que nasceram na sua casa que o Seu Nicanor acabou perdendo a noção da real data de nascimento de cada uma delas.

Ele era uma pessoa muito sossegada e em nenhum momento se preocupou em providenciar a certidão de nascimento dos seus filhos nos respectivos dias de nascimento de cada um deles... Mas Seu Nicanor além de ser muito tranquilo ele era também uma pessoa de muita sorte. 

Certo dia, um político influente, desses que estão preocupados em ajudar o próximo em troca de nada, o procurou, e decidiu ajudá-lo levando-o ao Cartório de Registro Civil para a efetiva lavratura das certidões de nascimento de cada um dos filhos desse lavrador.

Seu Nicanor ficou muito contente com a preocupação desse santo homem, mas quando chegou ao Cartório e foi instado a fornecer as datas de nascimento de cada um dos seus filhos, ele se perdeu no tempo e no espaço e respondeu: 

- Homem, eu não sei direito não. O que eu sei é que no dia em que nasceu o mais velho eu plantei um cajueiro; no dia do nascimento do segundo, eu plantei uma mangueira e no dia do nascimento do terceiro eu plantei uma jaqueira e assim por diante. E eu ainda continuo agindo assim:

Toda vez que nasce uma criança lá em casa eu tenho o cuidado de plantar uma árvore frutífera diferente.

O escrivão, um cidadão muito educado e acostumado a lidar com pessoas humildes assim como o Seu Nicanor, não se fez de rogado e necessitando saber pelo menos quantas crianças ele teria para registrar, perguntou:

- Quantas árvores o senhor já plantou no seu sítio até agora e quando o senhor plantou a mais nova de todas elas? 

Seu Nicanor, abrindo um sorriso meio maroto, lhe respondeu:

- Olha seu moço, eu não sei não, mas foram tantas que eu já perdi até a conta. E se Deus me der saúde, força e coragem p’ra trabalhar e se minha velha estiver disposta a me ajudar, eu ainda pretendo plantar pelo menos uma por ano nesses próximos dez anos.

Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 17/03/2007
Reeditado em 26/12/2007
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