Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

HADDOCK GRATINADO DE NATAL OU COM CARRASCO NÃO SE BRINCA
















Se você estiver diante de um pelotão de fuzilamento e o carrasco lhe perguntar qual seu último desejo, não hesite. Peça-lhe um haddock defumado gratinado.

Por vários motivos.

Em primeiro lugar porque você estará demonstrando ser um verdadeiro “expert” em culinária. Em segundo porque o danado do peixe que você pediu é difícil de ser encontrado. E é caríssimo, seu preço superando o da lagosta. E os carrascos, normalmente andam duros. E, por fim, porque mesmo que ele o encontre e se disponha  a pagar o absurdo que pedirem por ele, com certeza não saberá prepará-lo.

Aqui é necessário abrir um parêntesis, para acentuar que o haddock é considerado um dos peixes mais saborosos do mundo. Em verdade, nada o iguala em maciez e textura, sua carne adquirindo uma tonalidade dourada em razão da defumação. Seu paladar é soberbo, delicado e inconfundível.

Por isso mesmo, por seu incomparável sabor, todos os “gourmets” são unânimes em afirmar que deve-se evitar, ao cozê-lo, macular sua carne com temperos espúrios de qualquer natureza, empregando-se apenas o sal em homeopática dose.

Mas inegavelmente você deve saber prepará-lo. Quando menos para recusar, nessa hora terrível e aziaga, qualquer heresia culinária que o carrasco de plantão tentar lhe impingir.


Então permita-me acompanhá-lo na sua feitura: procure adquirir o haddock escocês. Em filés altos. Separe algo em torno de pouco menos de meio quilo por comensal (não se assuste – eu efetivamente disse meio quilo). Procure descongelar a peça sem agredi-la deixando-a repousar por uma noite na geladeira.

Parta-a em porções individuais inserindo-as em um recipiente onde colocou leite e creme de leite fresco em parte iguais. Fogo lento. Acompanhe seu leve borbulhar, por quinze a vinte minutos, apenas acrescentando pequena quantidade de sal.

Desligue a chama e não faça mais nada, que o peixe está quase pronto para ser servido. Coloque-o em um prato decorado com algumas batatas salteadas na manteiga e arroz branco. E leve-o a gratinar numa salamandra por alguns minutos até que sua superfície ganhe, ao crepitar, aquele bronzeado característico (se não tiver ou não souber o que é uma salamandra pule este último pedaço da receita ou improvise com um bom forno ligado na mais alta temperatura). Um vinho branco, bem gelado, será a bebida de rigor.

Exija do seu algoz uma mesa e cadeira confortáveis. Relaxe. Já que você nada mais pode fazer para mudar seu destino, prepare-se para degustar uma das mais disputadas iguarias do mundo.

Ordene aos policiais, soldados, testemunhas, demais assistentes e espectadores que permaneçam quietos e em silêncio. Tanto você como o haddock merecem. Parta com delicadeza a posta à sua frente e perceba que a carne, tenra e perfumada, desprega-se em nacos sumarentos irresistíveis. Experimente-a e procure saboreá-la sem pressa de forma a descobrir seu sabor deslumbrante e inesquecível. Com certeza será das melhores recordações que você levará desta vida terrena.

P.S. Ao término destas linhas gostaria de dar-lhe dois conselhos. Primeiro: se você já tiver sido, efetivamente condenado de forma irreversível e estiver encarcerado aguardando apenas a designação da data da execução, de toda conveniência será destruir imediatamente esta crônica ao término de sua leitura.

E, acautelar-se, porque há alguns carrascos que, apesar de jejunos em culinária, sem saber distinguir um haddock grelhado de uma pizza de mussarela, consideram-se verdadeiros peritos em gastronomia. E, ao se aperceberem que esta receita é facílima de fazer, talvez resolvam aventurar-se e atender seu derradeiro pedido.

Segundo: se não for esta a hipótese, lembre-se que se aproximam as festas natalinas e você bem poderia esquecer o lugar comum dos “tenders” e perus festivos, e surpreender a todos com algo verdadeiramente novo e cativante.

Prepare somente uma pequena quantidade, convide apenas os mais íntimos, não se esqueça das entradas – preferencialmente numerosas e abundantes - e, explique a seus convidados que nesta ceia natalina você resolveu brindá-los com algo diferente e especialmente delicioso.

Não se esqueça de informar-lhes também, sem qualquer constrangimento, que o peixe que você está servindo, lamentavelmente é muito caro. Por isso mesmo você não irá permitir a repetição do prato.

E acredite. Não precisa desculpar-se. Diga que você sempre gostou de todos e os ama muito. Mas você não é o Papai Noel. Ele só virá mais tarde.



Tagobar
Enviado por Tagobar em 10/10/2005
Código do texto: T58499


Comentários

Sobre o autor
Tagobar
Campinas - São Paulo - Brasil
63 textos (28135 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/10/20 17:23)
Tagobar