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5 Mulheres e Meia

Sinopse
Seis amigas encontram-se, como é costume, na festa de aniversário do filho de uma delas. Mesmo sendo amigas de longa data, a vida afastou-as ao ponto de só se encontrarem uma ou duas vezes por ano, sendo os aniversários das crianças um pretexto para tal.
Os respectivos maridos estão no quintal, junto da churrasqueira, a preparar a comida e os miúdos brincam pelo jardim e à volta da casa.
Enquanto esperam pelo churrasco, vão conversando umas com as outras e aproveitam para "cortar na casaca" logo que uma delas se ausenta da sala de estar.
Cada uma vai assim revelando tanto de si como das outras, havendo entre elas uma que se revela um elemento crítico de primeira. Não se tendo casado e mantendo uma vida que elas consideram dissoluta, sendo quase considerada uma "Maria-rapaz", esta personagem consegue manter o seu respeito junto das outras devido ao seu sarcasmo, ao seu poder de argumentação e graças também a uma franqueza e rudeza de palavras.
No decorrer da conversa fica bem claro que o grupo das seis mulheres foi mudando ao longo dos anos já que todas, excepto uma, se casaram e tiveram ou estão a tentar ter filhos, passando a constituir-se como um grupo de cinco mulheres que quase excluem, ou pelo menos desconsideram, a sexta mulher.
O aparecimento de um homem desconhecido, mas convidado para a festa, despoleta tanta curiosidade como ciúme e intriga.
Começa então uma "perseguição" que se converte numa procura da moral e dos bons costumes, chegando-se a uma conclusão de reconciliação entre as mulheres.

Personagens

Mulher nº 1 —  Mulher jovem, casada há cinco anos mas sem filhos. Veste-se formalmente, um pouco influenciada pelo seu emprego que, segundo as outras, não é "inteiramente apropriado a uma mulher". Bastante calada e contemplativa, assume um papel um pouco neutro durante toda a peça.


Mulher nº 2 — Recém casada e jovem mãe com cerca de seis meses de gravidez.  Vive um estado de beatitude característico das mulheres espectantes.  É calma e calada mas participa das efusões gerais. Revela, a meio da peça, um saber baseado no que lê nas revistas. Não tem profissão.

Mulher nº 3 —  Mulher casada e sem profissão definida. Foi mãe há pouco tempo.  O bebé dela dorme num dos quartos no andar de cima da casa.  Parece sofrer um pouco de “depressão pós-parto” que se manifesta sobretudo por irritação e preocupações sobre o filho, um pouco desadequadas. É conflituosa, impulsiva, ciumenta e desconfiada.

Mulher nº 4 —  A dona da casa onde se dá a festa.  Mulher de meia idade com dois filhos pequenos, cujo um deles é o aniversariante.  Apresenta-se como a mais equilibrada de todas, fazendo de anfitriã zelosa do bem-estar de todos e da harmonia na sua casa, mas também de moderadora nas discussões. Tem, possivelmente, um emprego que a mantém fora de casa mas que não interfere na sua vida familiar.
 
Mulher nº 5 — A mais velha de todas.  Mulher perto da idade dos cinquenta.  Vive sozinha com o marido, pois os seus dois filhos já saíram de casa. O mais velho dos filhos tem vinte e um anos e a filha está a estudar na universidade. Sente um pouco o síndroma do "ninho vazio" e o avançar da idade. É recatada e comedida, mas deixa-se influenciar pelas restantes. Nunca trabalhou na vida. Não fica clara a amizade com as restantes que são bastante mais novas do que ela.

Mulher nº 6 —  Mulher na casa dos trinta ou quarenta, liberta e desbocada, um pouco brusca no seu comportamento, sem deixar de ser feminina. Bastante ácida no relacionamento com as demais. Nunca casou mas teve alguns namoros. Mantém um ritmo de vida bastante próximo do da sua juventude.






Primeira Parte (A divisão em partes coincide com o protagonismo que cada uma das personagens toma nelas)

Sala de estar de uma casa de classe média com sofá, mesa baixa, cadeiras ou cadeirões, armário ou canto-bar, no mínimo. Uma entrada e uma janela que pode ser simulada e que dá para o pátio ou quintal onde os homens preparam o churrasco. As crianças brincam no quintal, no jardim e à volta da casa, podendo ser, por vezes, ouvidas a brincar ou até mesmo fazendo algumas irrupções pela sala.

Ambiente de festa com algumas decorações, toalhas mais ricas, etc.

Luz no palco.  Três mulheres (6, 1 e 5) na sala conversam ad lib em surdina

Ouve-se o som de uma campainha a tocar, pessoas a serem recebidas os risos das crianças a brincar, vozes adultas misturadas com risos de uns e outros, etc.

A 4 entra acompanhada de 2




4— Olha, filha.  Fica à vontade.  Já conheces toda a gente, por isso...  Fiquem aí um pouco que eu vou ajudar o meu marido e venho já.

2— (Cumprimenta todas de beijo)  Olá.  Estás boa?  Então?  Tudo bem?  Olá querida.

1—  Que barrigona!  Então?  Para quando é que é o feliz acontecimento?

2— Para o dia 12 de Maio.

6— De manhã ou à tarde?

2— (Um pouco atónita) Não sei.  O médico não me disse.

6— E foi ele que te disse que era no dia 12 ou foste tu que fizeste as contas sozinha?

2— Eu disse-lhe quando é que nós tínhamos… feito e, à medida que ele ia crescendo, o médico confirmou as nossas contas.

5— Então é um “ele”?

2— Sim.  Ai!  Eu não queria dizer-vos nada que era surpresa...  Enfim.  Olha agora já está!  É claro que o meu marido está contentíssimo.

6— É claro!

(Entra 4 com um prato de aperitivos)

4— Olhem...  eu deixo isto aqui para quem quiser.  Desculpem-me mas eu vou lá acima ver o bebé.

2— O bebé?!  Tens outro filho?

4— Não é meu, tola.  Chegou agora com os pais e a mãe foi lá deixá-lo no quarto dos pequenos.

(Todas correm para fora da sala, empurrando-se umas às outras, menos P que fica sozinha a comer aperitivos durante um bom bocado.  Ouvem-se os gritinhos das mulheres a apreciarem o bebé )

6— (Vai à porta e grita lá para fora)  Não há nada que se beba nesta casa?  (Para si própria) Onde é que ela se meteu...  (Sai para ir procurar bebida)

(Entram todas, agora com 3 também,  com um ar embevecido, discutindo opiniões sobre o bebé, todas ao mesmo tempo.  Ficam durante um tempo na sala, à volta da mãe da criança que vai respondendo a algumas perguntas e observações Ad Lib
Entra P a beber uma cerveja pela garrafa)

6— (Para 3)  Então o bebé é teu.

3— Sim.  Já o foste ver?

6— Pra quê?  Não.  Fui à cozinha buscar uma cerveja.  Não havia aqui nada que se bebesse.

3— Ah...  pois não.  Mas tu desenrascas-te bem...

6— Sobretudo quando há homens por perto...

3— Como?

6— Sim.  Se não fossem os vossos marido que estão lá fora a preparar o churrasco e a beber umas cervejas, eu nem sabia onde as procurar.

4—  Ah...  Bem...   O que interessa é que já cá estão todos.  Olhem... fiquem à vontade que eu vou só preparar mais umas coisinhas...

5— Queres ajuda?

4— Não.  Deixa-te estar.  Já está quase tudo pronto.  Agora é só esperar que os homens acabem de assar a carne e vamos todos lá para fora.
Fiquem aí descansadas que eu volto já.

(Cada uma por si, vão-se acomodando, ficando um pouco sem jeito à espera de quem começa a falar.  P continua a beber a cerveja)

6— (entre um e outro gole)  Então... quando é que nasceu?

3— Há doze semanas.

6—  Isso dá... deixa cá ver... Isso dá... três meses.

3— Mais ou menos.

6— Sim.  Mais ou menos.  Mas dá três meses.  Não é?  Porque é que têm a mania de contar a idade dos bebés em semanas até aos...  quê?  Quatro?  Cinco meses?

3— O que é que queres dizer?

6— Sim...  Não sei se já notaram, mas os pais dos... recém-nascidos dizem a idade dos filhos em semanas.  Mesmo quando eles já têm dois meses, quatro meses...  E depois é em meses!  Pode já ter ano e meio mas dizem dezoito meses.

3—  Então e depois?

6— Não sei.  Faz-me impressão.  Deve ser para dar um número grande.  Sei lá!  Ou então é porque essas semanas já lhes parecem meses.

3— Não é nada disso!

6—  Ah não?  Ouve cá.  Tens dormido bem?

5—  Ai eu, dos meus, não dormi praticamente nada durante quase quatro anos.

3—  Ai, que exagero!

5— Digo-vos.  É verdade.  Sempre com cólicas, com gripes, com febres...  e como só têm dois anos de diferença entre eles, mal dava para descansar de um que o outro já lá vinha com os mesmos problemas.

(Entra 4 com um tabuleiro com copos para todas e uma jarra de Iced-tea)

4— Ai, eu não me posso queixar.  Mesmo com três anos de diferença entre os meus dois, nunca tive problemas.  Quando um apanhava uma doença, a outra seguia-o daí a dois ou três dias.  E sabe Deus o que eles apanharam.  Acho que só lhes falta apanhar sarampo e papeira (bate em madeira ou executa outra forma de “exorcismo”)

5—  Ah.  Ao menos os meus já tiveram isso tudo e ainda bem.

6 — Ah sim?  Que interessante!

5—  Sim.  Graças a Deus.  Nunca ouviram dizer que a papeira é muito grave quando ataca os homens adultos.

(Todas concordam com acenos de cabeça e manifestações em voz alta)

4— Bem...  Os meus dois ainda têm tempo de apanhar a papeira antes da idade adulta.  Agora os teus, já era um pouco complicado.  O mais velho está com quê...?  Dezoito anos, já.  Não?

5— Vinte e um.

4—  Ah.  Vejam lá como o tempo passa.  Parece que foi há poucos anos atrás que éramos nós as convidadas às festas de anos dos teus filhos e, não tarda nada, são eles que nos vão convidar para as festas de anos dos filhos deles.

5—  Não exageres...

6—  Deixa lá.  É uma maneira muito educada de te chamar velha.

3—  Sim.  Porque tu és uma criança.  Não me digas que ainda nos vais dizer que eram os filhos dela que te convidavam pessoalmente às festas de aniversário deles.  Claro!  Vocês têm agora a mesma idade.

6—  Bem...  Não digo que não.

5—-  (amigavelmente)  Ah, sua estúpida!  Temos assim tanta diferença de idades?

6—  Não digo que seja o dobro, mas anda por lá perto.

5— Só dizes parvoíces.  Casei-me cedo.  É só isso.  Se tenho filhos já criados é porque me casei cedo.

6—  E também porque começaste logo a trabalhar para isso.  Caraças, aquilo é que era uma fominha!...

(Riem todas)

4—  Então?  Ninguém quer provar o meu Iced-tea?  É uma receita caseira.   Não tem açúcar.  Só adoçante.

(Precipitam-se para os copos, comentando todas ao mesmo tempo e pedindo a receita)

4— Ora.  Isto só tem um bocadinho de chá preto e umas ervinhas que tenho ali no pátio...  (olha para 2)  Ai.  Ó querida.  Só espero que não te faça mal...  Tu podes beber um pouquinho.  Não podes?

2—  Como?  Oh...  Não te preocupes.  Já vou nos últimos meses...  O único problema que tenho em beber disso é que depois, não tarda nada, vou ter que ir a correr à casa de banho.

(Riem todas.  P bebe mais um pouco)

4— Ai.  Ainda bem que temos estes nossos encontros, de tempos a tempos.  Não acham?

2— Sim.  Sem dúvida.

(P arrota)

5— Deveríamos encontra-nos mais vezes.  É sempre nas festas de aniversário dos miúdos...

4—  Ou então ter mais miúdos para fazer festas.

(Pequeno silêncio)

6— Bem.  Tínhamos o aniversario do teu filho e o da tua filha que foram agora substituídos pelos dois desta (aponta para 4), ganhámos mais um com o daquela (aponta para 3)  e daqui a tempos vamos ter mais outro  (olha para 2 ).  Não é verdade?  Não acham que já chega?

4—  A não ser que...  (vira-se para 1)  Tu hoje estás muito calada...

1— É porque não tenho nada para dizer.

4—  Não tens nada para nos contar então?...

1—  Não.  Se querem saber se podem contar comigo para vos dar um pretexto para mais um encontro por ano, não vos posso dizer nada.  Pelo menos por enquanto…

5—  Por enquanto.  Ainda bem que disseste por enquanto, porque eu já te ia perguntar se tinhas desistido.

1—  Porquê?  Uma pessoa não pode estar casada mais do que um certo tempo sem ter filhos?

5—  Não.  Claro que não é nada disso...

4— Bem...  mas sempre há um limite.

1—  Um limite?!

4—  Um limite...  quero dizer... há um certo tempo em que é bom um casal viver um para o outro.  Para viverem a sua paixão.  Mas depois é giro começarem a pensar em filhos.

1—  E isso deve ser ao fim de quanto tempo de casados?  (Tempo)  Já sei o que é que vocês vão responder.  Como eu estou casada há cinco anos, nenhuma de vocês se quer arriscar a dizer menos do que isso.  Não é?  Mas digam lá.  Quanto tempo é que um casal deve estar sem filhos?  Dois anos?  Três?

6—  Oh...  Deixa lá isso!  Não ligues.  Até me admirava de ainda não terem começado a tocar no tema!  Eu até pensava que iam primeiro implicar comigo.  “Ai.  Tens que pensar nisso.  Oh filha!  O que é uma mulher sem um marido?”
Bah...  Tens que fazer como eu:  quando começarem com essas conversas, manda-as à fava da pior maneira que conseguires.  Vais ver que não vão querer voltar a falar nisso contigo.

4—  Tens toda a razão.  Não temos nada que estar a falar dessas coisas.  Sobretudo quanto temos aqui uma recém-mamã e uma outra futura.

6—  Sim.  Já isso vos dá pano para mangas.  Neste caso, para babetes.  Ainda bem que o pequeno lá em cima não está acordado senão aí é que era ver-vos a brigar para agarrarem o miúdo e fazerem a carinha mais estúpida, até que ele se risse ou chorasse.

4—  É verdade.  (Para 3)  Ai o teu filho, querida!  Aquelas bochechinhas...

2—  E as mãozinhas...  Vocês viram aquela covinha que ele faz...


II

(5 começa a comentar com 2, 4 com 3 e P fala com 1 de outro assunto.  São interrompidas pela voz de uma criança que grita pela mãe.  Todas param mas P continua a falar com 1  “Ainda no outro dia quando lá fui.  Aquilo tava cheio d’homens bons”.  A criança chama novamente.  4 sai a correr.  As restantes vão à janela ver o que se passam e voltam depois ao centro da sala para se instalarem.  3 vai frequentemente à porta para ouvir se o filho está a chorar)

5— Parece impossível.  O pai ali ao lado mas tem que ir a mãe a correr...

1— E ainda por cima para uma coisa sem jeito nenhum.  Nem sei se o miúdo caiu ou se foi o outro que o empurrou na brincadeira.

2— O pai deveria estar a tomar conta das crianças.  Não são assim tantas.  Por falar nisso.  De quem são as outras todas?

5—  São vizinhos daqui do lado e da frente.  O pequeno queria convidar os amigos da escola mas... sabem como é que é... vivem todos tão longe uns dos outros e os pais não se querem incomodar muito aos fins de semana para irem levar e buscar os filhos, seja lá onde for.

6— Deixa estar que eles vão ter muito tempo para fazê-lo até que os filhos tenham idade suficiente para tirar a carta.  E mesmo depois dos filhos tirarem a carta só vão ficar aliviados até que eles apareçam em casa com o carro arranhado ou com uma batida.  Nessa altura vais vê-los a querer voltar a ser motoristas dos meninos.

5— Olha.  Eu nunca precisei disso.

6— Pois não.  O teu filho andou sempre à boleia.  Mas eu sei muito bem a agonia em que ficavas, à noite, enquanto ele não voltava.  As opiniões que tinhas dos amigos que ele frequentava, e que frequenta ainda!  Sim porque ainda não deixaste de ser mãe apesar de ele já ter saído de casa.

5—  Ele não saiu de casa!  Alugou um quarto para não ter que fazer o trajecto todos os dias.

6—  Claro!  Quem é que tem paciência para fazer cinco quilómetros para lá e para cá para ir trabalhar!  Nem pensar.  Que canseira!
Mas deixa lá.  Vai-te convencendo com essas ideias que tens.

2—  A melhor altura é quando eles são pequenos.

3—  Sobretudo se eles não tiverem cólicas.

5—  E se o pai ajudar alguma coisa em casa.  Sim, porque toda a gente sabe como passa depressa a maravilha da paternidade.  Nos primeiros tempos eles não largam o filho nem por nada, a não ser quando saem de casa para ir ter com os amigos… Sabem… para que não pareçam muito piegas aos outros.  Mas à medida que o filho cresce...  Olha é como este.  O filho estatela-se mas é a mãe que tem que ir levantá-lo.

2—  E calar.

3—  E mudar a roupa.

6—  E buscar outra cerveja  (Sai.  As outras olham para ela enquanto sai)

3— Acham que é impressão minha, ou ela está cada vez mais estranha?

5— Ó filha, não ligues.  Sabes como ela é...

3—  Ela disse aquilo para nos censurar, não foi?

5—  Aquilo, o quê?  Ora...  Deixa lá.  Até parece que não a conheces.

3—  (Começa quase a chorar)  Valia mais ter-me mandado calar.

2— Não penses nisso.  Se ela fez aquilo para mandar calar alguém, foi a todas nós.

3—  (Ainda mais magoada) Mas vocês viram como é que ela disse aquilo?

1— Não fiques assim!  Então?...  Que é que se passa contigo?

4— (Entrando)  Oh, oh...  O que é que foi isso agora?  Ficaram aflitas ao ver o meu filho no chão ou quê?  Não foi nada de grave.  Fui só mudar-lhe as calças.  Afinal é o dia de anos dele.

6— (Entrando)  As carnes ainda vão demorar a vir.

4—  Como?

6—  Espreitei lá para fora para ver como é que vai o churrasco, mas não me parece que se vá comer cedo, nesta casa.  Pelo menos hoje.

4— Então porquê?  (Vai à janela)

6— Então...  Eles levaram uma televisão lá para fora...  dizem que vai começar ou que já começou um jogo.

4—  É típico!  Mal se preparam para fazer algum coisa em casa dá um jogo importantíssimo na televisão.  Mas porquê?...

6—  Porquê o quê?  Porquê o jogo ou porque é que eles são assim tão doidos pela bola?

4—  Olha...  Os dois. Por um lado, ainda bem que o jogo passa na televisão, se não era vê-los a pegar no carro para ir ao estádio e só aparecerem à noite.

5—  Tu és doida?  Já viste os quilómetros que eles tinham que fazer?

4— Ah, e tu pensas que não eram capazes disso.

2— Bem... pelo menos uma vez por ano, o meu, na final, não perde uma ida ao estádio...  Aquilo é como quem vai a Fátima.

1—  O meu também não...  Quero dizer:  também não perde uma final.

4—  Estás a ver?  E os que não conseguem ir até Lisboa ou ao Porto frequentam qualquer outro estádio, nem que seja de 2ª ou da 3ª divisão.

6— Já não se chama 2ª divisão.

4—  Quero lá saber como é que se chama.

5— O que vale é que os jogos são só ao fim de semana.

4—  Sim porque não prejudicam nada.  Não é?

6—  Eu acho que realmente, essa coisa dos jogos ao fim de semana é um complot contra a família.

(Tempo.  Olham todas para ela atónitas)

Já viram os jogos dos campeonatos europeus e mundiais, não viram?  Dão a toda a hora e todos os dias.  Não é verdade?  É vê-los então a faltar ao trabalho, a arranjar maneiras de ver o jogo à socapa, a estarem acordados até às tantas da manhã...

2—  Porque é que não gravam!?...

4—  Porque é que é um complot?

6— (Para 2)  Tu não percebes mesmo nada disso.

4—  Mas porque é que é um complot?

6— (Para 2)  Tu já viste o que é para um homem gravar um jogo em vídeo e arriscar-se a chegar junto dos amigos e os outros o terem visto antes dele?  Está depois no café ou no emprego sem ser capaz de comentar nenhuma das jogadas ou de chamar nomes como deve ser ao árbitro.  Já viste o que deve ser para um homem desses passar horas ali no café ou no emprego sem poder meter o que quer que seja na conversa?...

4—  E porque é que é um complot?

5—  Realmente...  se eles passassem os jogos durante a semana...  este país era uma desgraça.

6—  E assim deixam o país descansado e estragam os fins de semana das famílias.

4—  (A gritar)  E porque é que é um complot??

6—  Já disse.

4—  Disseste o quê?

6—  Ora.  Ainda agora.  O complot do futebol contra as famílias está em eles passarem os jogos ao fim de semana, quando a família devia estar toda reunida.  Assim dividem as famílias.  Não é?

4—  Realmente.  Ma não sei o que ganham com isso.

6—  Mas deixem lá porque o futebol só estraga o sábado ou o domingo, mas as novelas e os reality-shows estragam vários serões em família.

2—  Ah, não!  Não é nada a mesma coisa!  Nós não ficamos parvas a ver novelas.  Não mandamos gritos e pulos, não viramos mesas quando nos metem um golo na baliza.  Até porque as novelas são sempre diferentes e o futebol é sempre a mesma coisa!

(Tempo.  silêncio)

5—  Por falar em novelas...  Vocês viram o último episódio da (Novela que estiver em voga)?  É que eu...

(Começam todas a falar ao mesmo tempo das novelas que vêem ou não.  São interrompidas pelos gritos de 2)

2—  Ai, ai, ai...  Ai desculpem-me mas eu tenho que ir à casinha!

4—  O Ice-tea já fez efeito?!

2—  Ai.  É muito mais do que o Ice-tea!  (Vai para a porta)  Tens lá papel que chegue?

4—  Ena que bruta!  (2 sai)

3—  Faz-me lembrar como eu andava aqui há uns meses atrás.

6— Há doze semanas?

4— Cala-te.  Tu eras demais.  Não podíamos ir a lado nenhum que ficasse a mais de quinhentos metros de uma casa de banho.  Acho que passaste a conhecer as casas de banho de todos os cafés e restaurantes da cidade.

3—  Nem me lembres...

6—  Tu é que te lembraste.

3—  Mas eu vou vos contar.  Há cada casa de banho por aí que mais parecem...

6—  Retretes.

3—  Pois.  Retretes.  Disseste muito bem.

6— Tu é que disseste mal.  Porque é que lhes chamas casa de banho?  Vais lá para tomar banho?

(Todas olham para ela durante um tempo)

3—  Enfim...  Acho que comprovei aquela frase célebre de não sei quem que diz que “O índice de civilização de um país mede-se pelas casas de banho.”

6—  Dostoievsky.

3—  Quê?

6—Dostoievsky.   Um escritor russo do século XIX.  Mas não foi...

4—  E já havia casas de banho nessa altura?

2—  Quê?  Já houve alturas em que não houve casas de banho?

4—  Ainda hoje.

5—  Conheces alguém.  É?

4—  Não.  Estou a pensar naqueles países mais pobres.

6—  Mas não é isso...

5—  Ah!  Pois!  Em África.

4—  Também não é toda a África.

2—  Pois.  Não me digam que não há casas de banho na Turquia.

6—  Mas vocês estão...

4—  A Turquia não é em África.

5—  Pois claro.  É lá para os lados da Índia.  Não é?

6—  Vocês estão a fazer de propósito?

5—  Estamos a fazer de propósito o quê?

6—  Estão a fazer de burras de propósito!  Não estão?

4—  Porque é estás enervada dessa maneira?

6—  Para já, estou-me cagando completamente para essa treta de conversa de casas de banho ou lá o que é.  E para além disso (vira-se para 3)  essa frase estúpida que disseste como quem quer dizer uma grande verdade está completamente errada.
Foi Dostoievsky que disse que o índice de civilização de um país se mede pelas pessoas que se encontram na prisão.

3—  (Após pensar um pouco)  E isso lá tem alguma lógica?  Numa prisão...  Quem é que vai a uma prisão ver quem lá está?  Agora... com as casas de ba...  com as toilettes sim!  Qualquer pessoa pode entrar e ver.
Vocês podem ir a um restaurante muito chique e gostar de tudo:  decoração, toalhas, atendimento, e até mesmo da comida...  Mas experimentem ira à casa de banho antes de se sentarem.  Vão ver que olham para tudo de maneira diferente.
Olhem...  Eu habituei-me de tal maneira que, mesmo depois do meu filho nascer, não como em nenhum restaurante sem antes ir ver a casa de banho.

6—  E tens ido a muitos restaurantes desde que o teu filho nasceu?

3— Não...  Muitos, muitos, não.  A um ou dois...

6—  E levaste o teu filho ou deixaste-o em casa?

3—  Claro que não o deixei em casa!  Estás parva ou quê?!

6—  Então levaste o teu filho a um restaurante...

3— Sim.  Porquê?  É proibido?

6— Não.  Qual quê...  E foram jantar, não foram?  Não foi almoço.

3— Claro!  Achas que tenho tempo para ir almoçar a um restaurante com o meu marido?

6— Foi à noite...

3— Sim à noite!!

6—  Quando o teu filho deveria estar a dormir...

3— Ele dorme muito bem, mesmo com barulho!!

6— Ficaram na secção de fumadores ou de não-fumadores?

3— O restaurante não tinha nada disso.  O que é que tu tens a ver com isso?

6— Nada.  Absolutamente nada, claro.  Cada pai ou mãe tem direito a fazer o que quiser com os filhos pequenos, pelo que parece.  De momento que não os espanque, os explore, lhes dê alcool ou drogas, e sei lá mais o quê, pode levá-los aos sítios que quiser, às horas que quiser, seja no meio do fumo ou do barulho.

3— (Cada vez mais enervada)  Ninguém fumou ao pé dele!!

6—  Não estava ninguém a fumar no restaurante?

3—  (Começa a chorar)  Não sei.  Não estive a ver!

4—  (Para P)  Ouve lá!  É preciso estar com essas coisas?  Tu só estás contente quando irritas alguém?

6— Não.  Ouve!  Eu só quero ajudar.

4—  Que bela maneira de ajudar!  Puseste-a a chorar

6—  Para ela chorar também não é preciso muito...
Mas vocês vejam bem.  Hoje em dia os pais são uns inconscientes.  Levam os filhos pequenos para onde quer que seja, a qualquer hora do dia ou da noite.
É vê-los a ir para a praia no Verão à hora em que o sol está mais quente com os putos completamente descobertos;  é vê-los a ir a bares e a fumar mesmo junto aos miúdos;  às vezes mesmo em concertos ou festas até altas horas da noite...  Até mesmo ao teatro!

4—  E tu tens alguma coisa a ver com o que os pais fazem com os filhos que têm?

6—  Nem te consigo dizer a aflição que me faz a tua pergunta...
Realmente ninguém tem nada a ver com o que os pais fazem aos filhos.  Mas quando na televisão falam de algum abuso é que então já temos a ver com o que os pais fazem aos filhos...

3—  (A gritar) Eu não maltrato o meu filho!!

6—  Eu não disse isso.  Se bem que há muitas formas de os maltratar sem saber que o estão a fazer.
O que eu quis dizer é que tu, como muitas mães (e pais) por aí fora, têm filhos inconscientemente.  É giro ter um bebé e... vamos embora.  Têm nove meses para se preparar para o nascimento, mas não param um pouco sequer para pensar de que forma é que a vossa vida vai ter que mudar.  Passam meses a pensar no quartinho ou no enxoval da criança, a fazerem planos e contas para ver como o podem pôr na creche e no colégio privado, o curso que eles irão seguir até...  Mas quando ele nasce, fica aquela vontade de continuar com a vida de casalinho que tinham até aí:  jantar fora de vez em quando, ir a casa dos amigos, sair para dar um passeio de carro, ir à praia quando bem apetece...
Em nenhum momento vocês, pais, parecem parar para pensar:  “Será este local com fumo de tabaco apropriado aos pulmões de um bebé!”;  “Será uma hora da tarde uma boa hora para ir com o bebé à praia?”; “Será que a música da aparelhagem está alta demais para os tímpanos dele?”.

4—  Olha lá.  Isso tem algum jeito o que estás a dizer?

6— Realmente.  Não tem lógica nenhuma.  E se os pais se fizessem estas perguntas viam que não têm mesmo lógica nenhuma.  Porque é que então o fazem?

4—  Pára mas é com essa treta porque ninguém é aqui irresponsável ao ponto de fazer o que disseste.

6— Não?

4— Não!

6—  Também...  Não dá para saber ao certo...  Não temos assim tantas mães aqui que dê para fazer uma sondagem...
Enfim...  (Para 3)  Desculpa-me estes desabafos estúpidos.  Eu vejo tanta estupidez à minha volta que, às vezes, apetece-me dizer isto tudo em voz alta, a qualquer uma dessas mães inconscientes que eu encontro...  E então disse-te a ti.

3—  (Ainda a soluçar)  Eu não sou uma mãe inconsciente!

6—  Não.  Claro que não...  És minha amiga.  Sabes que nós magoamos sempre, estupidamente, quem mais gostamos.

3—  Eu sou uma mãe muito melhor do que tu alguma vez hás-de ser!...  Ou melhor.  Eu sou uma mãe.  Coisa que tu nunca hás-de ser!!

6—  Eh!...  Eu não te ofendi a esse ponto.  E ainda por cima estou-te a pedir desculpa.

3—  (Recompondo-se.  Com um pouco de frieza)  Eu sei...  Eu sei.  Eu não te estou a ofender.  Estou a dizer o que tu és:  és uma cabra frígida e infértil!!


III

(Sai a correr, novamente a chorar.  Todas ficam em silêncio, sem saber o que dizer)

6—  (Ao fim de algum tempo)  Eh pá!  As hormonas estão a dar cabo dela!

(Entra 2)

2—  Que gritaria foi esta?

4—  Nada, nada.  São estas mulheres que estão a ficar doidas.

6— Estas mulheres?!  Aquela (aponta para a porta)  queres tu dizer!

4—  Tu não estás nada melhor e olha que não te podes desculpar com hormonas.  (Para 2)  E tu onde é que meteste durante tanto tempo.  Isso é que foi um trabalho lá na casa de banho!

2—  Cala-te.  Só espero que o parto seja mais fácil do que eu acabei de fazer.  Mas também estive a ver o bebé dormir.  Ele estava tão lindo....  Mas o que é essa conversa de hormonas.

4—  Ora!  Asneiras.  É dessas teorias de depressão pós-parto.

2—  Achas que ela...  (aponta para a porta)  Ah...  Isso explica tudo.

6—  Pois claro!  Ela reage daquela maneira e é uma pobre doente atacada por uma depressão pós-parto, mas eu, se fizesse um escândalo daqueles, era o quê?

5— Já bebeste quantas cervejas?

6—  Pelos vistos ainda não bebi o suficiente (sai).

2— Mas é verdade essa coisa da depressão pós-parto.  Não vos aconteceu a vocês também?

5—  E eu lá tinha tempo para ter depressões?  Puseram-me em casa ao fim de três dias e na semana seguinte eu já estava a trabalhar.  Lá tive tempo de ter depressões...  Nem o meu marido deixava!

4—  Bem...  Eu não posso dizer que passei bem, depois de cada filho.  Sobretudo depois do primeiro.  Aquele medo... sabes?

2—  Medo de quê?

4— Sei lá...  De tudo.  Tinha medo que o vento o levasse.  Tinha medo de não ser uma boa mãe, das doenças que ele poderia vir a ter, medo até que o meu marido perdesse o interesse em mim por eu ter sido mãe...  Parvoeiras, pronto!

5—  Ora bolas!  Se isso é a depressão pós-parto, então há muitas mulheres por aí que estão em depressão até os filhos se casarem.

4— É diferente.  Já deves estar a confundir o amor que temos aos filhos com os medos infundados que temos quando eles nascem.  Eu falo de medos irracionais, saltos de humor, dificuldades em se relacionar com os outros, sei lá...

6— (Entrando com uma garrafa de cerveja na mão)  E cada vez há mais.
(Todas olham para ela)
Cada vez há mais medos irracionais.  Uma mãe, hoje em dia, tem de lidar com medos que não existiam há uns anos atrás.

5—  Tais como?

6—  Olhem....  A comida de bebés com pesticidas...

2— (começando a ficar preocupada e vai intensificando) Para que é que metem pesticidas na comida de bebés?...

6—  Os cremes para bebés que provocam cancro...

2—  A quem?

6—  Os brinquedos assassinos...

2—  Os brinque...?

6—  Os acidentes domésticos com electrodomésticos...

5— Credo!  Como se não houvesse acidentes antes.

6—  O síndroma da morte súbita!

2—  Da morte súbita?!

6—  Sim.  Os bebés morrem de um momento para o outro.  Estão a dormir muito descansados e... puf!  ...  Nunca mais acordam.

(Elas olham para a porta e depois para cima como olhando para o bebé que dorme no quarto)

4—  Eu.. realmente ouvi qualquer coisa sobre os bebés em Inglaterra com essa doença.

2— E tem alguma lógica ser só em Inglaterra?  Não pode também acontecer em Portugal?

6— (com uma voz um pouco lúgubre) Se calhar até já aconteceu, mas não foi diagnosticada como síndroma da morte súbita.

2—  Ai!  Cala-te que já não posso ouvir!  (Tempo)  Mas...  é verdade?

6—  Então...  Até saiu nas notícias!

2—  Bem... então se saiu nas notícias...  Mas como é que se vê essa doença?

6—  Não se vê.  Aí é que está o problema.  Os miúdos andam todos porreiros da vida.  Não apresentam sintomas de absolutamente nada e...  um dia...  as mães vão a pô-los na cama e eles nunca mais acordam.

2—  Ah que horror!!!

3--  (Entrando)  O que foi?  (Olha em volta)  O que é que foi?

4—  Não foi nada!

1—  Foste ver o bébé?

3—  Fui.  Está ainda a dormir.

2—  Viste se ele respira?

3—  Quê?

4—  Não ligues que ela é tola.  Tu estás bem?

3—  Estou.  Desculpem-me aquilo de há bocado.  Não sei o que me deu (Vira-se para P)  Desculpa-me.  Está bem?  Não te deveria ter dito aquilo.  Tu até tens razão no que dizes.  Eu não devia era...

6— Ah...  Deixa lá isso.  Somos todos umas tolas.  Em vez de contarmos o que temos feito desde a última vez que nos vimos andamos aqui a brigar umas com as outras.

3— Pois é.  Somos mesmo parvas (Abraça P)

1— (Após um tempo) Não acham que deveríamos acordar o bebé?

3—  Para quê?

4—  Não ligues.  Vamos mas é meter a conversa em dia.  (Para 3)  Aquele negócio que andavas a tentar fazer antes de teres o bebé?...

(Começam todas a falar ao mesmo tempo de trivialidade.  Ad lib)

1—  (Muito entusiasmada)  Ah!  Ah!  Esperem...  Ouçam, ouçam...

(Todas se calam como tentando ouvir um barulho fora da sala)

2—  Eu não ouço nada.

1—  Não é isso parva!  Vocês querem saber o que o meu marido me vai oferecer nas nossas bodas dos cinco anos?

4—  Não.  O que é?

2—  Espera.  Então não posso tentar adivinhar?

4—  Esquece.  (Para 1) Diz lá o que é.

1—  Uma viagem de quinze dias às Bahamas!!!  Não acham o máximo.

(Manifestam-se efusivamente)

6—  Isso sim!  Rico marido.  E então?...  E ele vai aonde?

1—  Ora essa... Já te disse.  Ele vai as Bahamas...

6—  Ah!!! Contigo!  Como tu disseste que ele te tinha oferecido uma viagem à Bahamas, pensei que ele ia... sei lá... ao Japão!

(Ficam de gelo, sem a perceber.  Ela tenta explicar a piada)

6— Não perceberam?...  Ele oferece-lhe a viagem...  mas depois...  Ora... esqueçam.

1—  É isso mesmo.  Pronto.  É uma viagem para os dois.  Vai ser a nossa boda dos cinco anos e uma segunda lua de mel.

6—  Ele bem que podia levar-te às Bahamas e só te ir buscar nas bodas de prata.

(Silêncio)

1—  Não acham fantástico?  Ah!  Esperem aí que eu vou ao carro buscar os panfletos para vocês verem onde vamos ficar... (sai a correr)

6—  Deve ser uma viagem divertida.  Com o sentido de humor que ela tem...

2—  (Sonhadora) Uma segunda lua de mel...  Será que o meu marido também se vai lembrar disso na nossa boda dos cinco anos.

6—  Não me digam que vai passar a ser moda comemorar também essa boda.

3—  Como é que se chama?

6—  Quem?

3—  As bodas que se fazem aos cinco anos de casados?

6—  Mas há mesmo uma boda?

2—  Claro.  Não ouviste que eles vão celebrar as deles nas Bahamas.  Ai quem me dera ir a Itália nas minhas bodas.

6—  Duvido...  duvido mesmo...

5—  Acho que é “boda de papel”.

2—  (Para P)  E porquê?

4—  Não é nada.  Isso é aos dois anos de casados.  Ora deixa cá ver...

6— Bem, nessa altura já não devem ser só dois lá em casa.  Pois não?  A não ser que a tua gravidez dure até lá.

3—  Aos dez anos também há uma boda?

4—  Acho que sim.  Espera...

6— Acho que uma lua de mel com filhos pequenos não é bem a mesma coisa.  Sobretudo porque, muitas vezes o romance entre os elementos do casal não resiste ao nascimento do primeiro filho.

2—  Oh... não digas isso.

4—  Madeira!

6— Eh!  Eu não te agredi, pois não?

4—  Não.  As bodas dos cinco anos.  São as bodas de madeira.

2—  Então porque é que eles vão às Bahamas em Lua de Mel e não à Madeira?

5—  Bahamas...  Bahamas...  Então vocês não sabem porque é que eles vão às Bahamas?

3— Claro.  Vão numa segunda lua de mel.

5—  Vão, vão....  Vocês até parece que não sabem o esforço que ela anda a fazer para ver se engravida.

2—  E achas que ir às Bahamas dá para engravidar.

5— Claro que não!  Agora, se me disseres que nas Bahamas há uma clínica de fertilidade muito boa...  aí já acredito mais naquela viagem.

2—  E porquê nas Bahamas?  Ela não podia ir a uma clínica de cá.

5—  Já tentaram tudo!  No ano passado foram passar férias aos Estados Unidos porquê?

2—  Nem assim eles conseguem ter filhos?!

6—  (Irónica) É de estranhar, não é?  Eu também sempre pensei que o ar dos Estados Unidos, só por si, dava para engravidar.

3—  Mas tu achas que é por não conseguirem… que eles não têm filhos?

5—  Achas que um casal está cinco anos sem filhos por opção?

2—  E vocês acham que o problema é dela ou do marido?

3—  Eu acho que é dela.

6—  Ainda bem que ela te tem como amiga.

3—  Pois claro.  Achas que é do marido?

6—  Eu quero lá saber!  Mas digo-vos uma coisa.  Essa coisa de culpar a mulher quando o casal não pode ter filhos já não é para mentalidades de hoje em dia...  isso já vem do tempo das nossas avós que acreditavam que o homem é que tinha a semente e a mulher era a terra em que ele a depositava.  Essa palavra “infertilidade” até deveria ser proibida.  Faz lembrar o deserto!  Pelo amor de Deus...

(Encaram-na durante um tempo)

2—  O que é certo é que ela trabalha demais.  Isso não lhe deve fazer bem nenhum.

3—  E ainda por cima naquele emprego...

6—  O que é que tem o emprego dela?!

3—  Deves ver que não há muitas mulheres por ai a trabalharem no que ela faz.

6—  Não acredito no que estou a ouvir!

2—  Mas é verdade que é um trabalho stressante.  Não é?  E o stress não ajuda nada.  Pois não?

6—  Ah!  Já está melhor!  Pensava que vocês estavam a querer dizer coisas do género que o trabalho dela é muito masculino e que ela, portanto, perdeu capacidades femininas...

5—  Não deixa de ter a ver...

6—  Quê?  Se me disseres que o stress a impede de gozar e desfrutar completamente de uma boa sessão de sexo...

4—  Lá estás tu a seres bruta!...

6—  Ah, porque...

4—  Deixa-me acabar.  Tens que convir que existem alguns trabalhos que são apropriados para as mulheres e outros não.

6— Apropriados?  Como?

4—  Mais apropriados... como... alguns em que elas têm mais tempo para...  sei lá... para se prepararem... à noite ao menos... para arrumarem a casa para quando o marido chegar, não ver...

5—  Para não estarem tão cansadas à noite, para...

6—  Ah, porque se for de manhã já não dá?

2—  Bem...  Já que falaste nisso...

3—  Olhem que... não sei...  há momentos, como vocês sabem.  Mesmo tu deves saber (para P).  Até já ouvi falar de mulheres que sentem o exacto momento em que se dá a ovulação...

6—  Que merda de conversa!  Então vocês querem ver que ainda vão acabar por dizer que só engravidam as que conseguem “ouvir” o óvulo a sair....  Como é que é?  Faz “pop”, “cric”,”plim”.  Vem com fanfarra?  E dá para se aprender a ouvir o óvulo?

3—  (novamente enervada)  Ora...  tu!  Tu!

6—  Já agora falem também das melhores posições sexuais para se poder engravidar.

2—  Ah, mas é que...

6—  Pronto!

2—  Não.  Isso faz mesmo diferença.  Não podes dizer que não.  Eu acredito que consegui da vez quando adormeci, um dia, com os pés levantados contra a parede, depois de nós...

6—  Chega!  Eu nem quero saber como foste parar com os pés contra a parede!  Bolas!  Já não há paciência!  Eu quero lá saber como é que vocês emprenharam ou se conseguem ouvir óvulos a saltarem por aí fora.  Vou mas é ver se há mais cerveja!

(Continua)
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Gilberto Cardoso
Enviado por Gilberto Cardoso em 29/08/2007
Código do texto: T628682

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Sobre o autor
Gilberto Cardoso
Portugal, 48 anos
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