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O ESQUERDISTA PADRÃO DO BRASIL

 

Janeiro de 2010.

Ele acorda quando não consegue mais dormir. Não sabe que horas são porque não usa despertador, esse pérfido instrumento dos malditos capitalistas para oprimir a pobre massa proletária. Quando conclui que realmente não vai ter como dormir mais um pouco, senta na sua pequena e humilde cama redonda, cujas cobertas coloridas predominantemente de vermelho fazem parecer um pizza calabresa de uns quatro metros de diâmetro. Apanha o controle remoto e abre as cortinas das janelas, inundando de claridade seu pequeno quarto de menos de duzentos metros quadrados. O sol forte lhe relembra a África e isso lhe traz à mente privilegiada o imenso sofrimento das criancinhas africanas que tinha visto na internet, todas morrendo de fome, sede, doenças, guerras e abusos diversos, incluindo escravidão. Chora desconsolado ao lembrar disso. Enxuga por fim as lágrimas e finalmente levanta, indo à janela do apartamento no segundo andar daquele bairro nobre ("nobre? Burguês, isso sim", havia berrado aos pais mas, ante a impossibilidade de encontrar algo parecido em alguma favela, havia acabado por se conformar, mesmo que nunca deixando de lado nenhuma oportunidade de verberar seu desprezo por aquela rendição ao capitalismo) escolhido pelos pais por influência dele, filho único, e que se recusava a viver sobre as cabeças de outras pessoas (pelo menos esta batalha contra a burguesia ele havia vencido, e disso muito se orgulhava). Um menino pobre que ia passando o vê à janela e lhe grita:

- Tio, me dá um pãozinho aí, tio! Ô tio, dá um pãoz...

- Não sou teu tio. O governo é que tem que blablablabla........

Meia hora depois o menino compreende que desse mato não vai sair coelho e muito menos pão, então vai embora, resmungando:

- Grã-fino de merda, todo esse discurso só pra me dizer que não vai me dar nada; que se foda, vou roubar lá na padaria.

Triste, ele vai para a pequena Jacuzzi GGG para quatro casais que tem no banheiro/vestiário de cinquenta e oito metros quadrados de seu quarto. Lá, imerso na água morna que borbulha e em pensamentos revolucionários, fica indignado com o governo por permitir que ainda exista criança com fome. Então lembra que o governo é o do Lula e se convence que não viu menino algum, deve ter sido uma ilusão, talvez não tivesse acordado direito ainda. Sorri, contente.

Banho tomado, dirige-se à cozinha, após percorrer uns cento e poucos metros do quarto até lá. Sente-se de bom humor. Sorri de passagem para uma das empregadas, dá-lhe um simpático bom dia, cumpanhêra proletária, saudações democráticas do proletariado intelectual, um dia vamos ser iguais e pergunta se a cozinheira já preparou o café da manhã. A empregada o olha com estranheza (é nova no serviço, compreendamos) e diz:

- Sinhozinho, são duas da tarde, como assim, café da manhã?

Ele então elabora pela enésima vez um intrincado discurso, cheio de citações históricas, filosóficas e ideológicas sobre seu desprezo pelo domínio que o capital exerce sobre o proletariado usando o tempo e as obrigações criadas em função dele. Jacta-se de ser imune a isso. A pobre empregada revira os olhos mas concorda, pensando "é, se eu fosse rica também falava assim". Ele segue em frente, já pensando em pedir aos pais para que demitam aquela burguesa disfarçada. A rotatividade de serviçais é notável naquele lar...

Chega à cozinha. A cozinheira - a única que durou no emprego, talvez por ter servido de ama de leite ao então pimpolho - o conhece desde pequeno e, ao ouvir sua voz atormentando a empregada, já  trata de ir preparando o desjejum. O recebe com um amplo sorriso branco no rosto marrom (por insistência dele - pobres pais ricos - não se contratava criados brancos, era preciso oferecer boas oportunidades à massa explorada desde os tempos da escravidão):

- Bom dia, sinhozinho, tá na mesa, como o sinhô gosta.

Ele olha as trufas cheirosas, o caviar, os rotis de petites, os baghettes quentinhos, os croissants, as onze geléias diet diferentes, os cinco sucos de frutas e pensa, satisfeito, "sim, o Brasil está mesmo no caminho certo".

Após seu desjejum, veste um jeans Gucci artificialmente surrado, tênis Nike  Air Mag, que comprou em New York, em sua última viagem para protestar contra Wall Street, camiseta de cor vermelho-Ferrari do Che Guevara Special Edition, também da Gucci, óculos de sol Golden Wood e desce pelo elevador privativo até o andar inferior, onde ficam apenas lojas e um restaurante de fama internacional. Um dos dezoito seguranças, Sargento PM que trabalha nisso durante as folgas para complementar seu minguado soldo, sujeito alegre, o cumprimenta: 

- Boa tarde, doutor. Tudo nos conformes?

Ele apenas lhe dirige um olhar de desprezo e vira ostensivamente o rosto. Só  o que faltava, cumprimentar um sujeito, praticamente um cão de guarda, que se aluga para defender a riqueza da burguesia, mesmo arriscando a própria vida. Ainda falta muito, cumpanhêro Lula... - suspira.

Dirige seu Mercedes SLK do ano (que ganhou de presente dos pais após, finalmente, logo após completar 35 anos, ter conseguido passar no vestibular para a Faculdade de Filosofia da UFRGS, porque universidade federal é para o Povo, a burguesia que vá pagar particular) até a franquia do MacDonald's de sempre, ampla e confortável mas, infelizmente, também em um bairro da imprestável burguesia. Lá encontra, nas mesas do lado de fora (ficar do lado de dentro é atitude burguesa, na rua somos todos iguais, além de ser mais fácil acender um bagulho e dar umas tragadas) os seus amigos intelectuais revolucionários. Ao chegar já é interpelado pela deliciosa Jeanne Hoffmannn, entre eles conhecida como cumpanhêra Joana, herdeira de uma grande rede de supermercados, que trava com Johann Rosenblatt, entre eles conhecido como cumpanhêro Jão, herdeiro de um conhecido banco de investimentos, uma acerba discussão sobre a matança indiscriminada dos pobres jacarés. Jão acusa a cumpanhêra de ser conivente, já ela se defende alegando que o jacaré estava morto fazia tempos quando ela comprou aquela bolsa em Roma - tinha ido protestar contra as exigências do governo italiano para que um Herói do Proletariado chamado Cesare Battisti fosse para lá extraditado pelo Brasil - e que só usa de vez em quando, justamente em solidariedade aos jacarés. Jão:

- É? E essa tua jaqueta, não é couro de marta, cumpanhêra? Autocrít...

- Não enrola, o assunto aqui é jacaré, marta é outra coisa!

Ele pensa sobre aquele grupo. Credo, contando com ele próprio, quase um quarto do PIB gaúcho está ali discutindo revolução e ecologia. Mas afinal, alguém tem culpa de ser rico? Claro que tem, mas não de ter nascido assim. E inicia então novo discurso, para gáudio dos amigos, que literalmente lhe bebem as palavras. Com as costumeiras citações, declara e prova que matar jacaré é errado mas se já está morto mesmo, para que desperdiçar o couro? Em um verdadeiro Estado Socialista tudo tem função social, até o couro do jacaré. E Lênin disse que blablablabla...

Contornadas as divergências, resolvem então ir visitar um acampamento do MST para levar-lhes sua solidariedade. Os coitados dos pseudo-comunas ficam assustados ao ver aqueles carrões cheios de gente chique. O líder comenta:

- Cuidado aí, cumpanhêros, devem ser outros traficas, se o PCC sonhar que a gente tá de conversa com outros grupos vai ficá feio pra nóis...

Ignorando a desconfiança, o alegre grupo vai se chegando, cumprimenta com efusão a todos os presentes como se os conhecessem fazia anos e bebe cachaça da mais vagabunda com os sem-terra; alegremente falam mal do governo, daí se lembram que o governo é do Lula e passam a falar bem; então começam a falar mal do próximo governo, daí lembram que vão votar na Dilma e claro que com esse apoio ela se elege fácil e passam então a falar bem do próximo governo também. Para não ficar sem ter de quem falar mal, começam um entusiasmado revival do governo FHC. Agora sim...

Toca o celular dele. Se afasta para atender. É sua mãe querendo saber onde anda, pois o discreto jantar de quinhentos talheres em sua casa para angariar fundos para a candidatura do Zé Serra, seu padrinho de batismo, vai começar em menos de uma hora, é melhor estar presente e bem quietinho e simpático ou babaus viagem a La Habana para colher cana de graça pro Fidel. Com o rabo do olho vê a cumpanhêra Joana, já meio embriagada, entrando numa das tendas com oito dos sem-terra. Orgulha-se. Isso sim é que é uma legítima socialista, distribui o que tem entre os camaradas e não exclui ninguém...

Bem, só agora notou que está escurecendo, engraçado não ter sono ou sequer algum sinal de cansaço. Despede-se da cumpanherada dizendo que tem de estudar para a prova de Filosofia. As massas ainda não estão preparadas para toda a verdade, se consola. Não a entenderiam...

Em casa, veste o smoking sob medida da Saville Row e sapatos e cinto de couro de jacaré. Sente-se algo culpado. Então lembra da cumpanhêra Joana: é,  ela tinha mesmo razão, eis que quando sua mãe os comprou o jacaré já estava morto mesmo.

E, após nova maratona do quarto à sala, vai para o jantar. Serra está lá e o abraça, sorridente. Pergunta como está indo a faculdade.
 

Mas esta já é outra história...

 
 
Tulio Ricard
Enviado por Tulio Ricard em 17/05/2018
Reeditado em 24/10/2018
Código do texto: T6339073
Classificação de conteúdo: seguro

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