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A SEITA DA GRÃ ORDEM DA LAMPARINA SAGRADA - PARTE XI

A SEITA DA GRÃ ORDEM DA LAMPARINA SAGRADA
PARTE XI
Ramis Seomis deslizava pela avenida do contorno, as margens do rio Arrudas, (deslizava, porque o seu caminhar fluía de forma tão suave, que o autor não encontrou outro termo, para melhor qualificar a maneira como Ramis se deslocava – isto, claro, sem ser piegas, ou parecer afetado, ou ainda usar de verbos efeminados... enfim, o autor quer dizer que o cara caminhava de uma maneira graciosa, mas sem comprometer a sua masculinidade.) em meio ao trânsito caótico de veículos, nas margens daquele rio poluído.

O rio era tão poluído, que se podia imaginar que os quatro milhões de habitantes de uma certa cidade, de um certo planetinha super povoado, onde viviam certos primatas arrogantes, prepotentes e muito insignificantes, jogavam neste rio, todo tipo de lixo e podridão que eles conseguiam imaginar e produzir.

Jogavam coisa tais como: Lixo doméstico, esgoto não tratado, corpos em estado de putrefação de animais domésticos, toneladas de resíduos industriais, processos criminais contra membros dos três poderes da républica, roteiros cinematográficos que não dariam nem para enredo de escola de samba, gente morta que tinha morrido há muito tempo, gente morta que nem tinha morrido ainda, e gente morta que tinha terminado de morrer, de morte natural ou assassinada pela policia civil.

Havia lixo e podridão de todos os matizes, desde sujeira orgânica, passando pelo mau caratismo político social e terminando nas mais abomináveis taras sexuais.

O liquido que corria naquele rio não era mais água. Assemelhava-se a sopa primordial. Aquela que, a uns quatro bilhões de anos aproximadamente, foi atingida por uma descarga elétrica, e as moléculas eletrocutadas, inconseqüentemente, resolveram sair por aí se reproduzindo, dando inicio a esta aglomeração de primatas arrogantes, insignificantes e muito, muito prepotentes.

E foi exatamente isto que aconteceu no leito daquele rio, justamente no momento em que Ramis Seomis deslizava por lá.

Ninguém nunca vai saber o que desencadeou o processo, que fez surgir o sopro da vida naquela criatura. Talvez tenha sido o choque entre uma molécula em decomposição do corpo de um animal civil, morto pela policia, e uma outra molécula desgarrada, do ultimo capitulo de um enredo cinematográfico onde foram inocentados alguns deputados, juízes e senadores por falta de provas.

Ramis Seomis ponderou, e considerou que o surgir da vida em toda aquela poluição, era biologicamente impossível. Mas quem sabe, a biologia não estava cansada e precisando de umas férias. Talvez ela tenha resolvido dar uma olhadinha para o outro lado, e se concentrado no problema dos organismos unicelulares de reprodução assexuada, que estavam levando uma vida sem grandes motivações - alguns até carregavam fotos da própria mão direita dentro da carteira.

Talvez, naquele momento, ela estivesse ocupada em uma reunião de diretoria, tentando encontrar alguma forma mais eficiente, do que a ultrapassada e custosa queima de glicose para manter estável a temperatura de mamíferos e aves.

Enfim, ninguém sabe ao certo o que aconteceu.

O que se sabe, é que a criatura repugnante saiu do rio poluído e veio se arrastando, asquerosamente, em direção ao grande Ramis Seomis.

___ E aí, cara...Estou chegando agora e não conheço a rapaziada. – iniciou a criatura nojenta, tentando fazer amizades – Será que você podia me apresentar pra moçada? Você parece um cara descolado e eu estou precisando conhecer algumas minas...Você sabe como é? – perguntou e logo emendou uma resposta nojenta -Esta é a minha primeira experiência de vida e estou com uma vontade louca de me reproduzir.
A criatura disforme falava, e enquanto falava, um líquido amarelo escorria de um orifício que parecia ser o seu nariz, e se misturava com outro líquido gosmento meio azulado, que escorria de outro orifício que parecia ser a sua boca.

___ Eu – disse cuspindo aquele líquido asqueroso – nunca estive vivo antes, e queria alguém para me dar uns toques sobre o sentido da vida. Sobre os segredos do universo e sobre estas questões fundamentais tipo: quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?

Fez uma pausa nojenta para estudar o efeito daquelas palavras, e continuou:

___ Mas se não tiver ninguém a fim de falar sobre as questões fundamentais, eu também sei tocar bateria, e tenho algumas idéias bacanas sobre a decadência da civilização ocidental judaico-cristã, e...
___ Peraí! – interrompeu o grande Ramis – Como você sabe tocar bateria? Questionou notando que aquele líquido gosmento que escorria da criatura, estava se espalhando pelo chão e sujando seu tênis Nike, e ao mesmo tempo, achando inverossímil o fato de a criatura ter surgido daquele lixo todo e já saber tocar bateria.
___ Sei lá cara! Deve ter sido em alguma partitura de uma banda de hard core romântico, que algum executivo de gravadora jogou aí dentro desta sopa primordial.
___ Humm! Hard core romântico? Então é melhor você escrever um livro, ou um poema, com estas idéias bacanas sobre a decadência da civilização ocidental judaico-cristã.
___ Você acha? E porque? Você pensa que hard Core romântico não combina com a decadência da civilização ocidental judaico crista?
___ Não! Na verdade penso que hard core romântico não combina com musica.
___ Acho que você tem razão. – Disse, piscando o orifício direito que parecia ser um olho.

Piscou o buraco esquerdo também, e deste começou a escorrer um liquido verde gosmento, que juntamente com os líquidos nojentos que escorriam dos outros dois buracos, formaram uma vazão multicolorida e nojenta que alagava o chão onde Ramis Seomis estava pisando.

 Depois de sujar de forma bastante asquerosa o tênis Nike, a vazão multicor e nojenta escorria pra dentro do rio.
___ Se bem que – continuo falando e escorrendo líquidos nojentos – este negocio de escrever livros sobre a decadência da civilização ocidental, é coisa de gente feia que não consegue uma mina para se reproduzir...Falando em se reproduzir, você acha que eu sou bonitão? Acha que as minas vão gostar de mim?

Os líquidos nojentos que escorriam da criatura nojenta, eram de três cores. Verde amarelo e azul. Quando entravam em contato com a sopa primordial, que era branca, começaram a formar uma estranha imagem.


  Existem casos em que a simples coincidência, o puro acaso não podem explicar. O diâmetro aparente do sol e da lua, serem exatamente do mesmo tamanho quando vistos da superfície da terra, é uma delas. O que havia no lugar do tempo cronológico, antes do milésimo de segundo inicial do Big Bang, outra. Como também são inexplicaveis as pedras dispostas em circulo de Stonehenge, as pirâmides do Egito, as linhas de Nazca, ou se os deuses eram ou não eram astronautas.

Enfim, existia uma infinidade de coisas que o bom senso e as leis da Física não podiam explicar.  

Mas o desenho que estava se formando no leito asqueroso do rio, desafiava as leis da física, como se elas fossem as leis de um paisinho qualquer, abaixo da linha do equador, ou talvez, elas, as leis da fisica, também estivessem cansadas, e resolveram tirar férias junto com a biologia.

___ As minas não levam em consideração se você é bonito ou feio. Elas têm outros valores.
___ Que outros valores?
___ Humm...Você esta sendo pretendido por algum clube europeu?
___ Clube Europeu? O que é Clube Europeu?
___ Deixa pra lá! Você tem carro importado? Já apareceu na televisão? Participou de alguma edição recente do Big Brothers Brasil?

A criatura, monstruosamente, balançou um troço que devia ser a cabeça, num claro movimento de negativa.

___ Olha, tem funcionado legal com as minas você falar que faz parte de uma gangue de traficantes e assassinos, mas se não funcionar você ainda pode tentar o sexo virtual, mas este não dá pra se reproduzir não.

Aquela figura de formas geométrica sobrepostas, já totalmente formada no leito nauseabundo do rio, perturbou Ramis Seomis, fazendo com que ele se lembrasse de uma canção:

“Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz”.

Inesperadamente a criatura deu um salto e falou:

___ Coach!
___ Coach? O que você quer dizer com coach?
___ Pirou mesmo, hein?
___ Hein? Como? O que?
___ Coach! Coach!
___ Tá conversando sozinho? Esqueceu de tomar o remedinho hoje, Zé? - Perguntou Oluap, enquanto escovava os dentes e tentava segurar o riso pra não engolir creme dental.

___ Hein? Como?
___ Que você esta fazendo parado aí, rapá? Saia daí porque este chão molhado que você esta pisando, é conseqüência dos banheiros químicos lá em cima. Não ta percebendo o cheiro?

___ Hã? Hein? – Disse Ramis Seomis enquanto pisoteava a grama encharcada de cocô, e completou como se estivesse saindo de um transe - A criatura! Ai meu Deus! A criatura saiu de dentro do rio.

Oluap que já exibia uma tez meio que avermelhada, devido ao esforço de segurar o riso, disse desistindo de escovar os dentes:

___ Que mané criatura? Isto daí é um sapo! Sai daí, ô panguá!


___ Hein? Um sapo?
___ Coach! Coach! - Disse o sapo, perdendo interesse naquela criatura grande e abestalhada que invadira o seu pântano de cocô. -  Coach! - Disse mais uma vez, e pulou descontraída em outra direção, estendendo a língua para capturar uma mosca desavisada.

Oluap, que nestas alturas estava procurando alguma coisa para se apoiar e evitar que caísse de tanto rir, disse em meio às gargalhadas:

___ Claro que é um sapo! Ou você pensou que este “coach”* que ele estava fazendo ,é só porque quando te viu, abestalhadamente parado aí, pensou que você era um especialista consultor em pântanos de cocô?
Então o grande Ramis Seomis, percebendo o grande vacilo, resolveu dar uma grande volta para não passar por perto de onde ficavam as barracas de camping, e foi lavar o seu grande tênis Nike, em um rio mais limpo. Não sem antes pedir para que o Oluap não contasse nada daquilo pra Alic Sirp.
*
Nota do autor
 Coach - Profissional que presta suporte e treinamento a outros profissionais que, durante um período considerado crítico em suas carreiras, buscam apoio e orientação, além de novos desafios e objetivos.
milimetro
Enviado por milimetro em 11/09/2007
Reeditado em 10/06/2009
Código do texto: T647570

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milimetro
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