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Herói sem recompensa

     Algumas reminiscências dos meus tempos de menino, tempos que seriam adoráveis se não tivessem ficado na minha memória as ardidas lembranças das homéricas surras que a minha furiosa mãe me aplicava, enfurecida com as minhas trapalhadas que não eram poucas nem boas.
     Conhecem o Tonico? Era o meu apelido, detestável apelido, diga-se de passagem. Meu nome é Antonio, mas por quê, cargas d’água, não me apelidaram de Tonho, Toinho ou coisa parecida? Tonico era o capiau, o Jeca-Tatu das histórias dos gibis dos meus tempos de menino, e eu ficava picado mesmo quando me chamavam assim.
     Mas, como sempre fui muito chegado a um rabo-de-saia, esse famigerado apelido eu o perdoava às menininhas por quem me apaixonava toda semana. Mas, tinha um porém: quando elas se zangavam comigo e terminavam o namoro, lascavam:
     - Tonico, moleque da peste!
     Não me lembro se o Jeca-Tatu, além de atrapalhado, era brigão. Mas eu era! Não levava desaforo para casa e, para o meu azar, estava sempre me defrontando com moleques safados, que me aporrinhavam a paciência ou a do meu irmão. O meu irmão Joaquim era o meu oposto, calmíssimo, nunca esquentava por nada. Eu era o caçula da família e esse meu irmão, dois anos mais velho do que eu, dava-me sempre broncas danadas por causa desse meu talento em atrair encrencas.
     Um dia, na hora da merenda, um moleque aproximou-se do meu irmão, que estava saboreando um pão com doce de goiaba, e ordenou:
     - Me dá um pedaço do teu pão!
     Meu irmão, pacífico, ia obedecer, quando eu intervim, já zangado:
     - Não dá nada para esse filho de uma égua, o pão é teu, não tens obrigação de dividi-lo com ninguém!
     O moleque fingiu não me ouvir e sabendo que o meu irmão era um moleirão, continuou a pressioná-lo:
     - E aí, cara, vais dar ou não?
     E aproveitando a indecisão do Joaquim, deu-lhe um tapa na mão, fazendo a merenda rolar pelo chão.
     Não prestou! Enquanto meu irmão ficava olhando triste para a ex-merenda, eu investi para o moleque, cobrindo-o de porradas.  Atracamo-nos feio e como o moleque era forte, estava quase me dominando, quando peguei o estojo de objetos escolares do Joaquim, pequeno, mas de madeira rija. Espatifei-o na cabeça do moleque, que quando viu o sangue escorrer da sua testa botou a boca no mundo e tratou de picar a mula para casa.
     Quando chegamos a casa, Joaquim foi logo delatando:
     - Mamãe, olha o que o Tonico fez! Quebrou o meu estojo numa briga besta. Não tem jeito mesmo, todo dia ele se mete em encrencas, só me faz passar vergonha!...
     E a velha me enfiou o cacete...

Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 24/09/2007
Reeditado em 21/07/2009
Código do texto: T666300
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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Antonio Maria S Cabral