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Pérolas do Cotidiano - Dando o troco na mesma moeda.



              Os relógios marcavam nove e meia da noite (horário da França), quando foi dado o pontapé inicial para uma grande partida de futebol entre a República Federativa do Brasil e o Reino de Marrocos, válida pela Copa do Mundo de 98.   O estádio Le Beaujoire – Louis Fonteneau, localizado na cidade de Nantes, junto a foz do rio Loire, estava com os seus quarenta mil lugares completamente tomados.  A torcida brasileira  tocava tambores, dançava samba, soprando, vigorosamente, cornetas de plástico verde-amarelas.  Os adeptos da seleção  marroquina, com os rostos e os cabelos pintados nas cores de sua bandeira, vermelha, faziam a ôla, ou hola, como queiram.

              Naquele encontro de gigantes, havia um fato inusitado.  A FIFA havia determinado que, ao fim da pelada, ou melhor, da peleja, a equipe que mostrasse algo insólito ao público presente seria premiada com cinco gols, que seriam acrescentados ao placar do jogo.  Tal regra, poderia decidir a parada a favor de qualquer das seleções, independentemente do resultado obtido na bola durante os 90 minutos regulamentares. O que teria sido armado pelos contendores, visando o faturamento dessas cinco bolas extras que seriam introduzidas, de japa, nas redes do adversário ?

              Quando terminou o primeiro tempo da contenda, o placar indicava 2 X 0 a favor do Brasil.  Até aí nada de mais.  O esquadrão canarinho apenas confirmava o seu absoluto favoritismo.  As torcidas, bastante empolgadas, davam um colorido especial ao acontecimento  e aguardavam, ansiosamente, o que seria apresentado, pelas equipes,  ao término da partida, como surpresa capaz de virar um placar desfavorável.

              No segundo tempo a seleção brasileira balançou a rede dos árabes mais duas vezes, aumentando a contagem para 4 X 0.  Quando o juiz apitou, indicando o fim da xaropada  (o que esta crônica também já está parecendo),  os marroquinos reuniram-se dentro de sua grande área,  abraçaram-se e fizeram um sinal para o seu banco de reservas.  Imediatamente,  surgidos não se sabe até agora de onde, adentraram no gramado vários tapetes persas (talvez emprestados pelos iranianos, que também disputam a Copa 98).  Toda a delegação de Marrocos, incluindo a comissão técnica, ajoelhou-se sobre os tapetes e começou a rezar, fervorosamente, voltada para Meca, como de praxe.

              Seria essa a surpresa tão badalada ?  O que havia demais nesse gesto tão comum, em se tratando do povo árabe ?  Realmente, nada inesperado.  Entretanto, quando a reza terminou, os marroquinos acionaram um motor de arranque que havia embaixo de cada tapete, colocando em funcionamento motores invisíveis, fazendo com que aquelas simples peças decorativas se transformassem em possantes máquinas voadoras.  Engrenaram uma primeira e  ganharam os céus franceses, em direção -  posteriormente ficamos sabendo através dos jornais -,  a Casablanca.

              De imediato, o placar registrou a vitória parcial de Marrocos por 5 X 4.  Cabia, então, à seleção brasileira tirar a sua carta da manga do colete.  O que teria sido perpetrado, visando à forra ?

              Dunga reuniu o grupo no meio de campo e pediu que os companheiros dessem opiniões.  Cada um dava uma sugestão mais estapafúrdia do que a outra.  Nenhuma agradava ao nosso capitão.  Até que surgiu uma idéia, vinda de Júnior Baiano, que foi aprovada por unanimidade. “ Por que não dar o troco na mesma moeda ?”  Mas como colocar isso em prática ? O que sugeria o brioso zagueiro metido a Einstein de plantão ?

- Vamos nos mandar daqui em uma Tesoura Voadora, minha especialidade.

              E assim foi feito.  Os brasileiros voltaram para a concentração, em Lésigny, a bordo de uma tesoura voadora com design made in Brazil.

              O placar permaneceu 5 X 4 para Marrocos.  A torcida brasileira, injuriada,   retirou-se do estádio gritando:  “É MARMELADA !!!   É MARMELADA !!!    É MARMELADA !!! FOMOS GARFADOS  !!! FOMOS PASSADOS PARA TRÁS !!!”.

              Quando aterrissaram, os jogadores correram para a televisão,  a fim de ouvirem os comentários sobre a vitória por 9 X 5,  como não podia deixar de ser.  Afinal, além de darem espetáculo, haviam saído do estádio sob uma chuva de aplausos da torcida, que achou genial a forma engenhosa que eles utilizaram  para a triunfal retirada.

              Após tomar conhecimento de que o placar final permaneceu  5 X 4 para os adversários,  o chefe da delegação brasileira, mais furioso do que touro miúra em dia de tourada,  telefonou para a FIFA,  bradando:

              -   QUE NEGÓCIO É ESSE ???   VOCÊS  PENSAM QUE SOMOS ALGUNS  LORPAS ???  PASCÁCIOS ???  OTÁRIOS ???  ONDE JÁ SE VIU ISSO, MINHA GENTE ???  APENAS DEMOS O TROCO NA MESMA MOEDA.  POR QUE DANÇAMOS ???

-    Vocês  entraram  pelo  cano  porque  tesoura voadora  não  é permitida nem mesmo como forma de obtenção de vantagens extracampo.  Avisem isso ao Júnior Baiano, por favor, porque essa idéia só pode ter partido dele.  E pare de querer levar vantagem em tudo Sr...... (deixa pra lá, é melhor encerrar por aqui).

                                                          **********
Paulo Guiné
Enviado por Paulo Guiné em 28/10/2007
Reeditado em 28/10/2007
Código do texto: T713230

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Sobre o autor
Paulo Guiné
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
22 textos (1275 leituras)
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