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O camaleão daltônico

De diversas cores, texturas e sabores é feita a floresta, lar de plantas e animais. E também lugar de mistérios e perigos, o que levou alguns animais a aprenderem a se camuflar. Por exemplo: os camaleões.
Um desses camaleões é Henrique, mais conhecido por Nick. Só tem um pequeno detalhe sobre sua vida: o pobre não sabe se camuflar. Houve um dia em que ele tentou se camuflar de ipê roxo, mas acabou mudando sua pele para um estranho tom de azul.  Além do perigo que correu, os outros camaleões não pararam de rir dele, coitado! E aconteceu a mesma coisa no dia anterior: quando Nick quis se camuflar de flor vermelha, ficou verde! E uns dias antes fora parecido. E na semana passada, e na precedente... O que há de errado com este camaleão?
Nem mesmo ele conseguia entender as coloridas confusões que fazia. Cada vez que riam dele, Nick ficava muito, muito triste. Mas todas as vezes ele olhava para si próprio, olhava para aquilo do que tentara se camuflar e... a cor era igualzinha!
Ah, mas o dia da confusão do ipê roxo fora demais. As brincadeiras e os risos dos demais camaleões extrapolaram a paciência de Nick. Desolado, ele saiu caminhando pela floresta, sozinho e sem rumo, tentando se entender. O que ele fazia de errado? Por que ninguém lhe explicava o que acontecia? E por que ninguém o ajudava? Será que algum dia ele seria normal?
Muitas horas, lágrimas e passos mais tarde, um barulho diferente fez com que ele voltasse sua percepção à floresta. E então? O lugar onde estava era tão esquisito, tantas árvores que ele desconhecia... o vento era mais gelado... até o cheiro era outro! E o caminho pra casa, ficava em qual direção?
De perdido em pensamentos a perdido na floresta! O que faria Nick? Enquanto se decidia, outra vez soou aquele barulho assustador. O jeito era se esconder. Onde? Lá, naquele negócio preto esquisito. A cor preta é fácil de fazer, era impossível errar, nenhum perigo perturbar-lhe-ia a paz. A menos que...
Lá do alto, a águia Visuda viu um bicho preto parado naquele negócio azul que os humanos esqueceram na floresta quando lá acamparam. “É hora do lanche!”, ela gritou no idioma das águias, e o grito assustou Nick e o fez tremer de medo.
Focada no alvo, a águia se preparou para um voo rasante. Coração acelerado, estômago roncando, ela já podia sentir o gostinho de camaleão na boca quando sentiu algo gelado nas suas costas. Nick já corria o mais que podia, sem nada ver nem sentir, sem nem sequer pensar. E a águia, ao sentir aquela coisa gelada nas costas, levou um susto tão grande que virou a cabeça para trás e se esqueceu de prestar atenção ao seu voo, acabando por dar de bico numa árvore.
“Ufa, foi por pouco, hein, camarada!”, disse Albertina, mudando da feia cor da águia para um tom púrpura, depois laranja e depois escarlate até que ela resolveu experimentar um vermelho vivíssimo e por fim se decidiu por um alegre cor-de-rosa. “Mas, por que você está de preto neste negócio azul?”.
Indignado, Nick respondeu:
“Que negócio azul? Eu não vejo nada azul... aquela águia deve ter visto quando eu bocejei. Mas que falta de educação de minha parte, nem te agradeci por ter salvado minha vida. Obrigado! Ah, eu me chamo Nick, aliás, Henrique, mas gosto que me chamem de Nick”.
“Muito prazer, Nick, meu nome é Albertina e, ahn, gosto que me chamem de Albertina mesmo”.
“Sério? Esse nome é tão comprido. Tem certeza que eu não posso te chamar de Zinha?”.
“Ah, tudo bem! Desde que me conte um pouco mais sobre você e essa sua inabilidade de se camuflar. Eu nunca vi um camaleão que não sabe se camuflar!”.
O sorriso estampado na cara de Nick deu lugar a um triste semblante. Ele seguiu a conversa:
“Hehe, é, eu sei que eu sou uma aberração”, mas Zinha o interrompeu:
“Aberração? Não acho, falei que nunca vi porque nunca vi. Já me cansei desses camaleões todos iguais... já estava na hora de conhecer um camaleão diferente!”
Albertina vinha de uma família de camaleões muito sérios. Seu pai era médico, sua mãe era uma grande pesquisadora dos chás da floresta, com livros publicados sobre o assunto. Suas duas irmãs, desde muito jovens, haviam manifestado talentos incríveis, uma pra matemática, outra para os estranhos fenômenos do planeta. Seu irmão mais novo tinha um grande talento artístico. Sem contar os primos e tios e os parentes mais distantes. Mas ela era diferente. O maior talento que já havia demonstrado era destruir vários dos grandes projetos científicos de sua irmã. E, além de desastrada, ela parecia não saber exatamente por que viera pra este mundo doido e esquisito.
Por isso, ela costumava sair para longas e solitárias caminhadas pela floresta e, naquele dia, ao resvalar de uma árvore e cair justamente em cima daquela águia, salvando a vida daquele estranho camaleão, ela sentiu que podia não ser tão sozinha quanto imaginava. Foi com toda sua espontaneidade que resolveu conhecer melhor a criatura por detrás daqueles olhos esbugalhados que se moviam um em cada direção.
Nesse dia, Nick e Zinha conversaram por horas a fio. Mesmo achando aquilo esquisito, ele sentiu que podia contar a ela todos os seus problemas. E ela achava divertidas as enrascadas em que ele se metia. Ela contou a ele que se sentia deslocada no mundo e ele comentou que temia não conseguir escapar dos perigos da floresta por muito tempo. Eles só não falaram o quanto estavam gostando da companhia um do outro. Mas isso não foi necessário, já que, no finalzinho da tarde, quando o sol já estava querendo descansar e a lua ansiava por exibir sua alvura lá no céu, os dois avistaram uma pequena mosca voando e, sem nada combinar, lançaram suas línguas para capturá-la. Se a sorte foi da mosca ou deles, é difícil definir, já que as duas línguas se enroscaram antes que conseguissem pegar o inseto que, por sua vez, voou para longe e não tomou conhecimento do início de um namoro camaleônico.
Os dias iam passando e Nick e Zinha se encantavam cada vez mais um com o outro. Quando eles saíam para passear, ela o orientava sobre as cores, e ele a ajudava a evitar escorregões, trompadas e outras trapalhadas.
Um dia, Zinha comentou com um de seus tios médicos sobre o estranho problema de seu namorado. Intrigado, ele pediu para conhecer Nick, que, mesmo nervoso e inseguro, aceitou ir ao consultório do tio Victorio. Depois de várias perguntas, exames e análises, falou o tio:
“Caro senhor Henrique! Devo lhe dizer que já diagnostiquei seu problema. Trata-se não de uma doença, mas de uma disfunção em seus olhos. E não há solução. O nome disso é daltonismo.”
Ah, mas que revelação, Nick é daltônico. Por isso que ele sempre se metia em enrascadas: não consegue distinguir algumas cores de outras. Que problemão! Bem, talvez não, já que ele conta com a ajuda de Zinha. Mesmo assim, naquele dia ele ficou triste e saiu para outra daquelas longas caminhadas. Desta vez, porém, com a companhia de Zinha.
Os dois caminharam e conversaram. Ele falou que poderia morar em uma casa sem cores e nunca mais sair de lá, e ela disse que isso era totalmente desnecessário e um absurdo, pois ele morreria de tédio! Ele também falou que seu problema atrapalharia a vida de Zinha, e justamente no momento em que ela respondia que “atrapalho” era praticamente seu sobrenome, Nick viu, com o olho esquerdo, que Zinha, sem olhar onde andava, estava para pisar na ponta do rabo de uma cobra, cuja cabeça se encontrava em posição capaz de abocanhar sua companheira – isso ele via com o olho direito. Assim, Nick jogou sua linguona em direção a um arbusto. Com esses movimentos, ele conseguiu chamar a atenção da cobra, que se arrastou alguns centímetros à frente e não levou uma pisada de Zinha.
“Ufa”, ele falou, e perguntou se era branca mesmo a cor que ela tinha ficado.
Era, mas ao ouvir a pergunta, ela rapidamente ficou cor-de-rosa, e quis fazer crer que era por vontade própria, mas Nick percebeu que era por vergonha. Principalmente porque ela comentou:
“Você está vendo, Nick? Eu é que sou um desastre e atrapalho a vida de todo mundo. Não sirvo pra nada!”.
Nick suspirou e respondeu:
“Não diga isso, você serve para me completar. Meus olhos é que não servem para nada”.
“Como não, se foram eles que acabaram de me salvar?”.
Foi nesse dia que eles decidiram que, não importando o que o mundo achasse, se rissem ou se chorassem, se fossem ou não tão sérios e estudiosos quanto o comprimento de suas línguas ou se conhecessem ou desconhecessem todas as cores do mundo, eles ficariam juntos, pois onde um falhava, o outro completava.
Hoje, Nick e Zinha estão tomando café da manhã com o filho deles, Ted (Teodoro, mas ele gosta de ser chamado de Ted). O pequeno camaleão está nervoso, pois é seu primeiro dia de aula e o que os demais camaleões vão achar da sua inabilidade de mexer os olhos separadamente?
Diogo da Costa Rufatto
Enviado por Diogo da Costa Rufatto em 21/09/2012
Código do texto: T3893931
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Sobre o autor
Diogo da Costa Rufatto
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 28 anos
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Diogo da Costa Rufatto