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Episódio 6: Supérfluo

Da série: Construtivando [nota 1]
(Pituquinha e suas estórias) [nota 2]

Episódio 6: Supérfluo

Pituquinha estava toda feliz no supermercado com papai, mamãe, Lelequinho, seu irmãozinho mais novo, ainda no carrinho de bebê, apresentado de relance no episódio 1, e seu tio materno, Liminha, o fazedor-de-poesia do segundo episódio, neto do vovô bisavô Fêdo. Ela se divertia muito, principalmente com o titio, que tinha o mesmo nome do “papai-da-mamãe”, como também costumava falar. Sempre que podia, vivia grudada no tio Liminha. Ele era um ex-gordinho, de barba bem aparada e estreita, com uns óculos de aro, e uma demasiada falta de proteção capilar na comissão de frente da cabeça. Era um xodó só com esse tio.
 — Tio, eu contei para professora seu trabalho “de verso”, sabia?
 — É mesmo, Pituquinha? Que trabalho é esse? Disse o irmão da mãe com o compreensível desaviso de quem não leu a segunda estória citada.
Antes de ela responder-lhe, o pai, que acompanhara o incipiente diálogo, à curta distância, atalhou:
 — Lima, em casa ela lhe conta tudo, senão a gente não vai sair daqui hoje.
Fez-se um breve silêncio: forçado.
(  ). Mais adiante, porém, ao passarem, toda a família, pela seção de frutas cítricas, Pituquinha, falou com uma gargalhadinha contagiante no final:
 — Olha, tio, o vovô!
O vovô já, há muito, sacolejava na cadeira de balanço em cima das nuvenzinhas que o papai-do-céu tinha feito para ele, assim falara a mamãe para a filha, que não o conhecera, mas que gostava dele só pelas estórias que lhe contavam e também por algumas poucas fotografias da época.
 — Vovô? Onde? Falou o tio, comprando aquilo que, já consabido, seria mais uma invencionice infantil.
— Ali, naquelas bolotas verdes.
Eram na verdade limões. Como ela, aprendera a chamar o tio pelo apelido, “Liminha”, logo o avô, de mesmo nome, seria o “Limão”.
Todos riram incontidamente pela súbita sagacidade infantil. Até mesmo uma simpática velhinha, ao lado da trupe, solidária à brincadeira que tomara ciência apenas pela metade, sorriu, talvez evocando secretamente a lembrança de circunstância semelhante proporcionada por alguma netinha, tão serelepe quanto.
Seguiram caminhando descontraidamente. Separaram-se, providencialmente, do grupo, o pai e o cunhado, para acelerarem o processo de coleta dos produtos desejados, nas prateleiras dos corredores vizinhos. Neste momento, Pituquinha, vendo-se diante da seção de doces e biscoitos recheados, não resistiu e perguntou:
 — Mamãe posso pegar umas coisinhas?
A mãe, permissiva, não objetou, mas antes que pudesse estabelecer limites quantitativos à sanha da garotinha, perdeu a disputa para as gôndolas coloridas e açucaradas.
Pituquinha depois de parcos minutos, tornou com uma profusão de guloseimas e biscoitos caramelizados e cor-de-rosa, que mal podia abarcar com as mãozinhas inquietas.
O pai, Leonildo, que acabara de regressar com alguns pacotes mais baratos de arroz, feijão, açúcar e macarrão (com o perdão da rima), vendo o exercício de compra compulsiva da filha, falou para a esposa, em volume de voz não comedido:
 — Amor, é muita coisa. A gente ainda está se equilibrando.
Dizia o pai, que outrora demitido, conforme citado no episódio 5 desta série, somente há muito pouco se recolocara no mercado de trabalho, e ainda com um salário bem inferior ao percebido anteriormente.
 — Pituquinha não vai poder levar tudo isso, é caro. Uma coisinha ou outra vá lá, mas supérfluo não dá para levar em quantidade, arrematou.
A menininha ficou triste, ensaiou um chorinho, mas resignou-se. No episódio anterior, tinha se conformado em não ver, naquele final de ano, o Mickey na Disney, mediante promessa renovada pelo pai, de que, tão logo a situação financeira melhorasse, pudesse finalmente estar com o famoso camundongo das estorinhas e seus amigos de quadrinhos.
Por isso, ao ver regressar do corredor de enlatados o tio Liminha, correu ao seu encontro e disse:
 — Tio, me ajuda a encontrar e tirar do carinho de compras esse tal de supérfluo. É que eu só me lembro de ter pegado os chocolates, as balas de goma, as pastilhas, as jujubas, as bolinhas coloridas, o doce de leite, os biscoitinhos de morango e caramelo...

Notas:
[1] “Construtivando” é um neologismo derivado de Construtivismo: corrente de pensamento que ganhou projeção pela obra de Jean Piaget, a qual valorizava o processo de aquisição do conhecimento por intermédio da interação do homem com o meio, ou seja, pela percepção da realidade, em oposição aos modelos conceituais pré-concebidos.
[2] Pituquinha é uma menininha de 5 anos muito serelepe que adora aprender coisas novas e contar para a sua professora, “tia” Nubinha, e seus amiguinhos. De vez em quando, ela também faz umas perguntas engraçadas para a “pró”, seu pai, sua mãe, seu tio e com quem mais ela puder conversar
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© Leonardo do Eirado Silva Gonçalves
Dezembro/2017
Leonardo Eirado
Enviado por Leonardo Eirado em 03/06/2018
Reeditado em 25/06/2018
Código do texto: T6353961
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leonardo Eirado
Salvador - Bahia - Brasil, 54 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/01/20 00:08)
Leonardo Eirado