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Episódio 8: O Sono da Vovó

Da série: CONSTRUTIVANDO [nota 1]
(Pituquinha e suas estórias)[nota 2]

Episódio 8: O Sono da Vovó


Pituquinha e sua família foram passar a fim de semana no sítio, “Pituquetas e Lelequetas” da vovó Angélica, ou carinhosamente vovó Gel como ela chamava a mãe da sua mamãe Verena.
O nome atual do sítio (antes se chamava “Retiro dos Gonçalves”), naturalmente, era uma homenagem da vovó coruja para a netinha e o seu irmãozinho mais novo, ainda em trajes de fraldas, o Lelequinho (vide episódio 1).

Pituquinha ao contrário da maioria das meninas com o lustro da sua idade, gostava da vida bucólica do campo e não era muito chegada a essas “armadilhas tecnológicas” em forma de celulares, tablets, Ipods, e outras do gênero. Eu disse armadilha e não maravilha tecnológica, porque estes aparatos infelizmente, costumam roubar dos nossos filhos e netos a preciosa, genuína e “involtável”, com o perdão do neologismo, infância. O pai, Leonídio, achava ótimo o desinteresse infantil da filhinha pela tecnologia, pois ele tinha medo que as crianças se “intoxicassem” cada vez mais cedo com isso e desaprendessem o que é uma infância com um pé na terra, tirando leite de vaca, banho de lagoa, ao redor de uma fogueira sob um manto de estrelas, coisas estas que só quem viveu ou vive no campo sabe como é. Ele inclusive dizia para a esposa Verena: “esses meninos de hoje só querem saber de tecnologia. Daqui a um tempo, no parto só vai faltar o bebê se recusar a sair naquele momento do útero da mãe, porque está na rede feto-social, numa vibe com outros recém-nascidos”. Se possível fosse, continuava o Leonídio no seu colóquio fantasioso, o bebê diria para o médico; “pera um pouco seu doutor, porque eu tô postando um vídeo do interior da barriga da mamãe para os meus amigos aí de fora”. Bem, devaneios humorísticos à parte, vamos voltar para a Pituquinha, pois essa é uma estória para crianças e não uma tagarelice de adultos.

Pituquinha gostava muito da vida no sítio: tomar banho de lagoa, brincar de balanço feito com pneu e preso em um grosso galho de uma grande árvore, tirar fruta do pé (no caso dela tinha que ser um pezinho bem baixinho) e até se aventurava a atirar de estilingue, com os filhos dos trabalhadores do sítio, todos da mesma idade e tamanho dela. A respeito dessa última atividade, a mãe, preocupada, com a falta de traquejo no manuseio do badogue, recomendava:
  - Cuidado para não se machucar, meu anjo. Também não pode atirar nos passarinhos, são bichinhos de Deus.
Pituquinha, na pura inocência ou por natural brincadeira infantil, perguntava a sua mãe, Verena:
  - Mamãe, “papai do céu” emprestou os passarinhos para o sítio da vovó?
As duas riam muito. A imaginação fértil da garotinha era muito grande.
Ainda gostava de contar todos os animais do sítio: porcos, vacas, patos, cavalos e, principalmente, as galinhas. Ela corria atrás das penosas e gritava “có-có-có-có” e elas ficavam doidas para lá e para cá. Gostava tanto delas que começou a dar nome para as aves: “Filomena”, “Daniela”; Josefina”, “Margarida” “Pituquinha”. A vovó Gel, via tudo de perto, calada e se divertia em silêncio. Mas curiosa que era (a Pituquinha teve a quem puxar), acabava perguntando para a netinha:
  - Como você sabe qual é cada galinha, meu amor?
  - É fácil vovó, dizia, Pituquinha: a Filomena é a que tem muita pena, a Daniela é a mais magricela, a Josefina é que tem a perna fina, e a Margarida é a mais comprida.
A vovó ainda perguntou:
 - Mas eu também ouvi que você, botou o nome de Pituquinha em uma das galinhas, não foi? Tem um motivo especial?
Perguntou esperando, obviamente, uma resposta espirituosa.
A netinha serelepe, não perdendo preciosa oportunidade, disse para a vozinha com aquela “pompinha” infantil, com as mãozinhas nas cadeiras (imaginem a cena) e com o seu charmoso risinho banguelo, sua marca registrada:
  - Ah vovó a galinha de nome Pituquinha, é a mais espertinha, rsrsrsrs.
A vovó não se continha a quase chorava de tanto rir.
A identificação de cada galinha associava um atributo sempre por rima. A garotinha já tinha um dom poético, mas ainda não sabia disso. A vovó Gel, ficava cada vez mais emocionada e contente com a sagacidade da sua netinha. Como presente, fez um macacãozinho lindo, do tipo jardineira, com um bolso na barriga em forma de ovo de galinha, e colou peninhas coloridas dos lados e alguns desenhos de galinha, bordados inspirados em imagens das revistinhas em quadrinhos, tudo isso para oficializar o trabalho da “contadora oficial” perante as suas “contadas”, digo as galinhas.

Numa dessas noites, um pouco mais fria do que as outras, vovó Gel sentindo-se mais cansada do que de costume e com uma certa moleza no corpo, nada muito diferente do que as senhoras da sua idade sentiam nesta época pré-inverno, principalmente no meio rural, recolheu-se bem mais cedo para o seu quarto (mal tinha acabado de anoitecer), despedindo-se carinhosamente de todos, que estavam reunidos na sala, dizendo apenas que estava com muito sono, pois não queria preocupar a filha, Verena, o genro, Leonídio e principalmente a netinha, Pituquinha. Lelequinho, o irmãozinho bebê já dormia há tempo no seu bercinho, devidamente agasalhado.

Logo que ela, Dona Angélica, entrou no seu quarto, Leonídio comentou com a esposa:
  - A sua mãe está bem Amor?
Verena que já desconfiava da sua indisposição, para não assustar Pituquinha, respondeu ao marido:
 - Está tudo bem, Léo, ela só está com mais sono, hoje.
Leonídio, percebendo a estratégia de Verena, perante a curiosidade de Pituquinha que acompanhava atenta a conversa dos dois com vivaz interesse, compatível com o padrão “Pituquinês”, aproveitou aquela frase da sua mulher, e virando-se para a filha, arrematou a conversa, em tom bem-humorado, dizendo:
  - Tá vendo Pituquinha, a vovó hoje tá com tanto sono que foi dormir com as galinhas.

Pituquinha ouvindo tal frase do pai, arregalou os olhinhos e correu para o quarto da sua vó que já estava toda coberta em “sono solto”. Chegando lá, levantou delicadamente o cobertor da vovó e deu uma boa espiada, depois olhou com bem atenção para todas as partes do dormitório, abaixando-se ainda para ver debaixo da cama. Não satisfeita, ela também abriu o guarda-roupas e conferiu tudo "tim tim por tim". Em seguida, correu para fora da casa, passando por todos na sala, o pai e a mãe, como um raio e foi direto para o galinheiro. Verena, mais intrigada do que preocupada com súbita reação da filha, afinal já conhecia bem os arroubos da “figurinha”, acompanhou-a à curta distância até a casinha das galinhas. Chegando ao local logo em seguida, ouviu atentamente Pituquinha contar alto para si mesma à medida que ia apontando o dedinho para cada galinha, como se estivesse fazendo uma chamada escolar: “1, Filomena, 2, Daniela; 3, Josefina”, 4, Margarida, 5, Pituquinha...” e assim foi indo com os outros nomes até que a sua mãe, que não aguentando de tanta curiosidade por esta agora inusitada demonstração infantil, perguntou carinhosamente (ela, a mãe, sabia apenas a razão dos nomes, porque a sua mãe Angélica lhe contara):
 - Porque você está contando as galinhas Pituquinha?
 - Você não ouviu o papai falar, mamãe? A vovó foi dormir com as galinhas. Aí como eu vi que não tinha nenhuma no quarto dela, eu corri pra cá pra ver se as “meninas” estavam todas aqui, concluiu em mais uma das suas famosas lógicas infantis.

Notas:
[1] “Construtivando” é um neologismo derivado de Construtivismo: corrente de pensamento que ganhou projeção pela obra de Jean Piaget, a qual valorizava o processo de aquisição do conhecimento por intermédio da interação do homem com o meio, ou seja, pela percepção da realidade, em oposição aos modelos conceituais pré-concebidos.
[2] Pituquinha é uma menininha de 5 anos muito serelepe que adora aprender coisas novas e contar para a sua professora, “tia” Nubinha, e seus amiguinhos. De vez em quando, ela também faz umas perguntas engraçadas para a “pró”, seu pai, sua mãe, seu tio e com quem mais ela puder conversar
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© Leonardo do Eirado Silva Gonçalves
07 de junho de 2018
Leonardo Eirado
Enviado por Leonardo Eirado em 07/06/2018
Reeditado em 25/06/2018
Código do texto: T6358373
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leonardo Eirado
Salvador - Bahia - Brasil, 54 anos
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