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Episódio 9: O Creme “Envelhecedor”

Da série: Construtivando [nota 1]
(Pituquinha e suas estórias) [nota 2]

Episódio 9: O Creme “Envelhecedor”

Pituquinha e as suas amiguinhas estavam na sua casa numa festa do pijama, ou melhor, festa do pijaminha, como ela quis que a mãe chamasse o evento que durante 2 semanas insistiu tanto para que a Verena organizasse, até que conseguiu o seu beneplácito. A mãe, voluntariosa, fez vários tipos de suco, pois não queria que as meninas ficassem viciadas em refrigerante. Fez ainda, pipoca, empadinha 3 pingos, casadinho e brigadeiro. Em relação a este último doce, quando a mãe disse que ia ter na festa, os bolinhos de chocolate com cobertura de granulado, Pituquinha, sempre espirituosa, perguntou:
- Mas mamãe, você vai chamar aquele homem que tem a roupa cheia de medalhinha e que tem um avião engraçado?
A menininha estava se referindo a um Brigadeiro, posto mais alto da aeronáutica, no Brasil, cuja figura tinha visto numa revista especializada que o pai, Leonídio, mostrara a ela no dia anterior. Na foto da revista, aparecia o oficial ao lado de um caça da FAB, e uma legenda: “Brigadeiro em visita a uma instalação militar”.
A mãe não se aguentava e ria, dizendo:
- Pituquinha você tem cada uma!
A festinha foi uma algazarra só. Verena convidou, depois de passar pelo crivo da exigente e participativa menininha, as coleguinhas da escola: Tininha, Belinha, Catinha e Claudinha, estas companheiras de picula no pátio na hora do recreio (veja o episódio n° 3, “Último lugar”) e também Luluzinha e Maricotinha. Naturalmente só foram convidadas as amiguinhas mais próximas, cujos pais também faziam parte do círculo de amizade da família e moravam relativamente próximas. Pituquinha dizia ainda para a sua mãe que não podia mesmo vir nenhum menino, porque era o “clube da Luluzinha”, falava rindo para Verena apontando para a Luísa, ou carinhosamente, Luluzinha como se pode depreender. A mãe, que sempre comprava as brincadeiras da filhotinha ainda arrematou:
- Mas hoje vai ser o” Clube da Pituquinha”
A festinha correu solta até altas horas, na concepção que Verena deu a esta expressão: 10 horas no máximo, para não causar problemas com os vizinhos. Também seria desnecessário prorrogar tal horário, porque as pequenininhas de tanto dançarem a música da galinha, da porquinha, da ovelhinha, da cabrinha, da patinha, enfim de todas as “inhas” do reino animal, de tanto se divertirem com todas as brincadeiras possíveis e imagináveis que a sala da casa podia comportar e de tanto se lambuzarem com as guloseimas da mamãe (Verena, ainda preparou um bolo em forma de pijaminha com vários rostos de menininhas formados com a ajuda de jujubas e outras balinhas coloridas), elas finalmente se aquietaram. Mas engana-se quem pensa que as espoletinhas queriam dormir. Ainda faltava a famosa guerra dos travesseiros, indispensável nas festinhas deste tipo. Já devidamente instaladas no quarto da pequena anfitriã, elas se dividiram em dois grupos: do grupo vermelhinho, com pijaminhas com desenhos de morango, cereja, framboesa, faziam parte a Tininha, Belinha, Catinha e do grupo amarelinho com pijaminhas com desenhos de mamão, melão e banana, compunham Claudinha, Luluzinha e Maricotinha. Como eram 7, Pituquinha, a dona da festa, foi logo dizendo.
- Eu vou ser a juíza. Quem errar a “travesseirada”, vai levar uma “travesseirada” minha como, como, ... “mãããããe, como é aquela palavra que você usa pra mim quando eu faço coisa errada?”
Verena, na cozinha, diante da pia, lavando a louça da festinha, ouviu a pergunta que saia ao som do gritinho estridente da filha, e respondeu:
- É punição, Pituquinha, e é o que você vai levar se não falar mais baixo, falou a mãe.
- Então eu vou ser a juíza. Quem errar a travesseirada, vai levar uma punição, repetiu a menininha, para as coleguinhas, em tom mais baixo, é claro, após o piparote da mãe.
Depois de várias sessões bem e mal sucedidas de arremessos “travesseirais”, as meninas cansadas se preparavam para dormir, quando Pituquinha foi ver a mãe, que já estava em seu quarto, passando um creme hidratante nas pernas, pois tinha ficado de pé durante toda a noite, vigiando e servindo à turminha barulhenta.
- Mamãe obrigada pela fes.... O que é isso mamãe?
Perguntou a insaciável e sempre “ávida menina-candidata-a-conhecedora-de-coisas-novas” (Veja também esta frase no episódio n°7, “Chinês”).
Verena respondeu com a complacência habitual, desta vez imiscuída de um cansaço de fim de noite:
- É um creme rejuvenescedor, meu anjo.
- Ré o que mamãe? O que quer dizer isso?
- Rejuvenescedor, meu amor, é que o creme faz a pele da gente ter 15 anos, entendeu?
- Ah! Entendi.
- Você quer experimentar um pouquinho?
- Eu não mamãe, este creme para mim é “envelhecedor”
A mãe, muito cansada, não percebeu mais uma das “tiradinhas” da filha e acabou cedendo à curiosidade.
- Por que é envelhecedor para você Pituquinha?
- É porque se o creme faz a pele da gente ter 15 anos, pra mim que só tenho 5 anos, ele vai fazer minha pele envelhecer 10 anos

Notas:
[1] “Construtivando” é um neologismo derivado de Construtivismo: corrente de pensamento que ganhou projeção pela obra de Jean Piaget, a qual valorizava o processo de aquisição do conhecimento por intermédio da interação do homem com o meio, ou seja, pela percepção da realidade, em oposição aos modelos conceituais pré-concebidos.
[2] Pituquinha é uma menininha de 5 anos muito serelepe que adora aprender coisas novas e contar para a sua professora, “tia” Nubinha, e seus amiguinhos. De vez em quando, ela também faz umas perguntas engraçadas para a “pró”, seu pai, sua mãe, seu tio e com quem mais ela puder conversar
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© Leonardo do Eirado Silva Gonçalves
07 de junho de 2018
Leonardo Eirado
Enviado por Leonardo Eirado em 12/06/2018
Reeditado em 25/06/2018
Código do texto: T6361895
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Sobre o autor
Leonardo Eirado
Salvador - Bahia - Brasil, 53 anos
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Leonardo Eirado