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O olho que falava

Não era um olho comum. E tinha ele consciência exata que assim era especial. Não bastava ser um exemplo da perfeição estética física da natureza e da parte mais bonita que há no ser humano. Era algo mais. Surpreendente, algo que nunca poderia ser entendido por nenhuma mente inteligente (muito menos burra), nenhuma razão científica, religiosa talvez... também não, nenhum milagre seria capaz de tal realização, pois o dono do olho era cego das duas vistas... inteiramente! Se milagre fosse, previsivelmente seria o homem curado da cegueira. Mas não. Era e continuava cego.
Não tinha boca, o olho. Nem dentes, nem nada que nos faz falar as palavras. Porém este olho discorria, ponderava, articulava, raciocinava, e o mais extraordinário: o bendito falava! Acima de tudo: falava! Guiava o seu dono, e se sentia o verdadeiro dono carregando o seu bicho domesticado. Ia prevenindo pelo caminho por onde o homem andava, onde tinha obstáculos, quais os caminhos mais curtos, onde ficava a padaria... e quase nunca deixava o seu possuidor dormir, por conta de tanto tagarelar e propor piadas na madrugada.
Tinha até, certo tempo depois de conhecido e descoberto, programa de rádio: “Olho ao olho”, título óbvio, às 17 horas das segunda e quartas, programa de namoro. Sua voz apaixonou uma mulher, que sem saber de quem se tratava, foi até a estação para conhecer seu admirado. Após tanto susto e desmaio, correu chorando, chocada, desacreditada, perfeitamente desvairada. A maior surpresa, se é que pode ser dito assim, foi a notícia que correu por todo canto: o homem amanheceu morto, num dia de domingo, sem o seu olho esquerdo. Justamente o que falava. Encontrava-se agora num vidro com álcool na casa da moça, sem mais dizer uma só palavra sequer. E o cego homem, coitado, ficou para sempre conhecido como “o homem do olho que falava”...
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 01/01/2008
Código do texto: T799005
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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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