O nascimento
Eram muitos cachorrinhos, todos famintos e lutando pela sobrevivência. Menos o mais clarinho, cor de caramelo desbotado, preguiçoso e lento. Não por acaso o mais gordinho e um dos primeiros a nascer. As crianças sabiam, que não podiam ficar com nenhum deles, todos já estavam prometidos ou  vendidos.
Em 45 dias iriam para outros lares e donos. Mas quem disse que podemos mandar no coração? 
O gorduchinho logo era o xodó da casa, vivia no colo e os meninos enchiam de dengos o manhoso. No dia do adeus foi uma choradeira só, todos com saudades do  cãozinho com cara de sono. E as crianças tiveram certeza , que ele seria muito feliz porque era um cachorrinho especial.
 
Bartolomeu e o menino
 
André carregava o  filhote cheio de cuidados, estava feliz com o novo amiguinho. Os pais haviam comprado o cãozinho após muita insistência, e ainda não estavam acostumados com a idéia.
O ar pidão e o jeito abandonado, haviam conquistado o pai.  A mãe era questão de tempo. Pelo menos era o que esperavam. Por esta razão, deixaram que ela escolhesse o nome.
Bartolomeu pareceu feliz com o som,  e logo aprendeu a responder aos chamados. Ainda era muito novinho e vivia dormindo pelos cantos, um dia pegou no sono com o focinho dentro da tigela de ração. Todos acharam muito engraçado.
Aos seis meses, pesava quase trinta quilos e começaram os problemas. Bartô não podia ver uma roupa no varal,  atacava as peças e saía arrastando pelo quintal. Cavava buracos no jardim, adorava água e era um perigo na piscina.
A pior de todas as travessuras,  tinha o hábito de fugir e passar horas vagando pelo condomínio, catando objetos abandonados.
Um dia chegou com uma placa, outro com uma mamadeira, a coisa ficou realmente séria, quando exibiu um caderno escolar e precisaram procurar o dono.
As pessoas gostavam do cachorrão com cara de amigo, balançado o rabo e o corpo quando estava contente. Mas não entendiam as bagunças e logo ficavam sérias e carrancudas.
André comprou  uma coleira bem forte e prendeu o amiguinho na grossa corrente. A expressão de tristeza era tão grande,.que o menino não agüentou. Abraçado ao cachorro recusava-se a entrar em casa e abandonar o filhote:
 
-Menino , você não pode ficar com o cachorro, entre logo e pare com esta bobagem.- A mãe estava zangada.
-Mas mãe, ele está chorando, não quer ficar sozinho.
-Triste hoje, amanhã ele se habitua. Não será por muito tempo, Bartô  vai ser adestrado.
-Vai fazer o quê?
-Você não vai para a escola aprender? Bartolomeu também vai aprender a ser comportado.
-Não gosto de ver meu cachorro triste. Quanto tempo  vai demorar ?
A mãe não soube responder, o condomínio de luxo não queria a permanência do cachorro. As regras eram claras e o síndico não tolerava exceções.
O dia bonito chegou com novidades para o cãozinho. O adestrador era muito paciente e tranqüilo. Começou fazendo testes e medindo o interesse e atenção de Bartô .
Após duas horas deu o resultado: - Vai ser difícil, ele é bastante imaturo.
-Mas ele é inteligente, aprende rápido não é verdade?- André estava ansioso.
-Não posso prometer,  vou fazer o máximo. Ele é inteligente, mas é desatento e brincalhão.
-Minha mãe disse que se não der certo ele vai ter que ir embora.
O adestrador estava preocupado, quando estavam juntos o cachorro fazia todos os exercícios com perfeição. 
Com os donos, ignorava o comando mais fácil e corria pela casa derrubando tudo. Ao final de quatro meses nada havia mudado.
 André ficou doente no dia em que Bartolomeu foi embora, não queria comer nem brincar. Sentia falta do amigão:- Ele foi viver com estranhos e deve estar pensando que eu o abandonei.
  -O cachorro está muito melhor  morando em um sítio grande e cheio de espaço para correr.
-Isto é o que a senhora diz. Que adianta viver em um lugar bonito e ser infeliz?-A mãe percebeu o quanto o cachorro fazia falta naquele instante. A casa estava silenciosa e triste.
-Não acredito. Ele deve estar sofrendo tanto quanto eu...
Bartolomeu estava vivendo em um sítio espaçoso e com outros cachorros.  Mudou o comportamento e tornou-se quieto. Quem o visse, jamais acreditaria nas histórias que contavam sobre suas bagunças.
Na primeira oportunidade fugiu, saltou de uma altura imensa e correu pelas ruas, horas a fio... Queria encontrar a casa antiga ou a liberdade. Todos procuraram o labrador caramelo. 
O que antes era motivo de brigas, agora surgia em recordações saudosas. André e os pais também ajudaram nas buscas:- Viu mãe, ele quis voltar pra casa e agora está perdido.
- Nunca imaginei que isto pudesse acontecer. Tenho fé que vamos encontrar o Bartô.
-Ele está sozinho agora, no meio da rua, passando fome e sentindo frio...queria que isto tudo fosse um sonho ruim.
Os pais de André estavam muito aborrecidos com a situação. Os novos donos não pareciam preocupados, possuíam  outros cães e não tinham tido tempo de conhecer Bartolomeu. Para eles, Bartô era apenas mais um cãozinho na fazenda.
Vinte dias após muitas buscas encontraram o fujão, magro e alquebrado. Bastante doente, gania baixinho em estado lastimável de inanição e maus-tratos. 
Foi abandonado na clínica veterinária, quando a gravidade da situação foi constatada.  O cão estava sozinho em um canto, sem visitas  ou qualquer alento.


André soube da história e convenceu os pais a receber Bartô de volta. 
Uma das patas traseiras precisou ser amputada. Durante todo o tempo, o menino esteve ao lado do amigo. 
Com muito cuidado,  o cachorro foi recuperando as forças e logo estava de pé. Balançando o rabo e o corpo ao mesmo tempo, na velha demonstração de alegria.
Os pais de André decidiram mudar para uma casa. Encontraram um novo lar  de frente para a praia, cercado pela natureza. Nada de condomínios e regras. 
Era um velho sonho que realizavam, sair da cidade grande e encontrar um cantinho gostoso para viver.

Da varanda  assistiam a alegria do filho brincando na areia  com seu cão de três patas.
Foi preciso passar pelo sofrimento, para encontrar o caminho verdadeiro. Finalmente estavam juntos. Celebrando a vida na simplicidade.
Giselle Sato
Enviado por Giselle Sato em 13/09/2008
Reeditado em 03/09/2009
Código do texto: T1175487
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