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Uncle Alfie

Na realidade, o tio Freddo, tio mesmo era de mamãe.  Caçula de uma dúzia de rebentos - uma dezena de rapazes e só duas moças - de vovó Ninha e de vovô Gomides da Abadia dos Monjolos, que virou Martinho Campos, e levou tempo pra esse nome pegar. Badia sempre foi mais fácil de falar, grafar e gravar.

Estabelecendo-se em BH na década de  quarenta, tio Freddo conseguiu colocação na Central do Brasil e nos anos dourados da ferrovia foi maquinista do Veracruz, que levava ao Rio do desvario. Numa obra memorial sobre a gente da Badia, o autor Zacarias Corgozinho, que também pegou no trem, cita entre gente de destaque do abadiense torrão - ainda que em breve passagem - tio Freddo em homenagem, junto com Artur, seu também ferroviário irmão, em Divinópolis, então.

E Freddo se casou com moça prendada, ao lar inteiramente devotada, de Iaiá afetuosamente denominada, união logo abençoada com a uma Pollyana aux yeux bleus, logo chegada.

Embora de escolaridade formal limitada por força das circunstâncias da época, Freddo foi sempre um curioso e apaixonado do saber. Sabia por exemplo, em informal teste até a altura do pico do Everest. Muito lia, discutia e no aprender se comprazia.

Regulando idade com papai, seus encontros eram sempre amistosos, regados umas inaladas de rapé, um golinho da branquinha, e prosa que se estendia na maciota ou na lorota até.

Das episódicas visitas que eu lhe fiz no São Geraldo, enquanto estudante em BH, nasceu entre nós também boa amizade e até alguma mineira maneira confidência, a ponto de eu vir a receber honrosa visita sua quando já passara a viver na capital federal.

Sem me pedir continência revelou-me que nas suas beagandanças curtia muito o ambiente do Mercado Central, que é um universo a parte, e onde se apresentava ora como Gilberto, ora como Salim, de molde a evitar desdobramentos embaraçosos para suas aventuras.

E embora não especificasse bem o tipo dessas aventuras, que eu, sobrinhamente, estimava detetivescas, puxava conversa para me extasiar mais com sua prodigiosa imaginação. E Freddo não se fazia de rogado.

Caçoava comigo como pretendente de uma vizinha sua, por sinal, moça atraente, embora sob vigilância quase permanente, o que eu negava peremptoriamente e assim quase me traía e só não caía na auto-armadilha
porque namoro firme já tinha a própria filha...que, por fidalguia, só a  cobiçada patinete, me cedia.
Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 11/11/2017
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Sobre o autor
Paulo Miranda
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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