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A PIPA

O MENINO VINHA CRESCENDO, desde bebê recém-nascido, na companhia do pai e da mãe, porém muito mais apegado ao pai que saía para o quintal e observava, nas noites claras, a lua de um céu salpicado de estrelinhas, que tantas eram que pareciam o efeito de um sopro num punhado de dourado gliter.
O espetáculo noturno e diário fascinava o pai desde quando era criança e transmitia isso ao filho.
– Aquela grande é a sua. – dizia apontando a estrela.
– É minha. ¬– concordava o bebê ainda com pouco mais de dois anos e o vocabulário muito reduzido.
– A lua, papai, a lua! – apontava para o astro que dominava o céu em qualquer uma de suas fazes.
– Também é sua!
– Não, papai, é sua. – dizia Eder voltando o olhar para o pai – A estrela da mamãe?
– Vamos procurar uma grande.
– A mamãe está fazendo o quê?
– Vamos encontrar uma bonita para a mamãe.
E assim, olhando para o céu iluminado, Eder bocejou no colo.
Tom, sentindo que o sono chegava, deitou o bebê de cara para cima e o fez dormir olhando para as estrelas, que piscavam e não era por causa da distância, elas piscavam mesmo.
Eder crescia, o pai, todas as noites, mesmo escuras e nubladas, para fazer chegar o sono, ia com o filho para fora.
– Papai, cadê a minha estrela? – perguntava, pois estava acostumado a essa busca diária e levava muito a sério.
– Já está dormindo. É hora de criança dormir também.
– E a estrela da mamãe?
– Todas já foram.

O céu continuava, para Eder, um grande mistério, pelo menos, era o que Tom pensava.
Aos quatro anos, buscava uma forma cientifica de cultivar uma horta no quintal, mas ao invés de abóbora, como fazia o pai, ele queria uma horta em que pudesse plantar e colher estrelas.
– Papai, como vamos conseguir sementes de estrelas? – disse numa noite, não mais no colo com o pai de pé, porque já estava grande e pesado, mas sentado nos joelhos dele que estava numa cadeira de espaldar reclinado e o pescoço não precisa ficar tão torcido para cima.
– Sementes de estrelas?
– Você consegue pra mim? – pediu voltando-se para o rosto apenas vinte anos mais velho – Eu quero plantar no nosso quintal.
– O que você faria com as estrelas do quintal?
– Todo mundo gosta de estrelas, não gosta? Dava de presente no aniversário das pessoas e no natal.
O pai pensou um pouco e considerou que se fosse possível, ele também daria estelas no natal e sorriu, olhando para o céu salpicado.
Um pensamento, talvez muito antigo, percorreu suavemente sua imaginação.
– A gente mandava pelo correio. – disse o pai acalentando o desejo do menino e imaginou a alegria que qualquer pessoa teria ao receber em casa, numa caixinha enfeitada, uma estrelinha, produzida no jardim, que talvez, ainda pudesse crescer e junto com ela, um bilhete com a dedicatória – De Eder e Tom.
Imaginou o sorriso sem dentes de um idoso que morasse sozinho num apartamento de cidade grande; a alegria de uma mãe que há muitos anos não via o filho; a moça que se despediu do namorado no dia que ele foi para a guerra; a viúva que nunca mais casou; a criança pobre que nunca ganhou presente...
Mas as estrelinhas produzidas no quintal com a ajuda de Eder, não podiam ser dadas indiscriminadamente a qualquer pessoa. Somente para quem sentisse saudade de alguém; quem estivesse muito doente; ou muito apaixonado. Pois, pelo contrário, não seria possível produzir tantas no quintal de casa. Se tivesse as sementes, não teria dúvida, deixaria de plantar abóboras para plantar estrelas.
– Papai, você consegue! – falou Eder despertando Tom do desejo tão infantil.
Ele não tinha uma resposta adequada ao pedido, pois não queria mentir e também, não queria decepcionar, pois jamais se deve frustrar o sonho.
– Sementes de estrelas? – indagou vagamente sem uma resposta.
– Sim, papai, você consegue. – afirmou confiante, olhando outra vez para o céu.
Eder confiava. O pai era seu herói de verdade e nunca tinha decepcionado.

– QUEM VAI CUIDAR DELAS? – preferiu perguntar.
– Você e eu.
Tom sorriu frustrado diante do pedido. Como seria bom ter em casa, não em lugar muito visto, mas num vaso bem escondido, alguns pés que produzissem belíssimas estrelas. Como seriam? Ele nunca tinha tocado e só no céu se podia ver. Seria, decerto, incrivelmente mágica e encantadora uma casa que tivesse dentro de si.
Mágico também, o efeito que causaria em quem recebesse de presente uma cintilante estrelinha.
– Papai. Você consegue. – insistiu.
Tom pensou mais um pouco e por fim disse:
– Quando viajar, eu compro. – prometeu sem muita confiança.
– Ah, papai. Você consegue sim. Eu sei.
– Estou prometendo, mas é muito difícil de encontrar uma sementinha.
Naquela noite, Eder foi colocado na cama, mas ao invés de sono, sua cabeça estava cheia de sonhos acordados que são ainda melhores.
Pensava na plantação no quintal de casa, cintilantes, elas flutuavam como borboletas. As crianças vinham e brincavam até tarde da noite e adormeceu quando corria com o pai no meio da plantação.
Tom, ao entrar no quarto, encontrou Lucinha, a mulher, vestida numa longa camisola branca, bordada com fios que, embalado no sonho do filho, comparou a minúsculas bolhas de vinho espumante, coisa que só no natal tinham em casa.
– Ele pediu sementes de estrelas para plantar.
A mulher sorriu, e estava muito bonita.
– Você vai conseguir. – falou confiante.
Ele riu decepcionado.
– Semente de estrela?
– Sim. Você sempre consegue para ele.
– Mas..., semente de estrela?
– Os heróis conseguem tudo. – falou ajudando tirar a camisa e se preparar para dormir.
– Semente de estrela, querida? – indagou triste e desanimado.
– Ele acredita que você vai conseguir, então, você vai. Eu sei.
– Ah – fez desanimado – pena que não é como ir ao mercado e comprar um pacotinho de sementes de mostarda.
– Ou uma lata de sementes de abóbora, querido.
A mulher, ainda mais jovem que ele, se posicionou atrás e massageou os ombros tensos do marido.
– Se confiam que vou conseguir, então, não sei como, mas eu vou. – concordou sentindo as mãos macias deslizarem pelos ombros e costas.
Tom deitou, mas não dormiu. Retomou o pensamento de antes e imaginava três ou quatro pés de alguma planta mágica que produzissem as tão raras estrelas. Cultivava durante o ano inteiro para na semana de natal, mandar pelo correio, numa caixinha muito graciosa para algumas pessoas que deixariam a tristeza e viveriam felizes para sempre. O presente se tornaria um bem de família, de valor inestimável que nunca seria vendido.

Quando dormiu já era tarde e sonhou, não com as sementes, pois era um problema que devia ficar para depois, mas com o preparo dos presentes.
O galpão de casa estava reformado e todas as frestas tinham sido cuidadosamente fechadas, para que o brilho não se dissipasse e não chamasse a atenção de pessoas de pensamentos ruins, pois não eram dignas de ver de perto coisa tão maravilhosa e tinha, a qualquer custo, que evitar que o galpão fosse atacado por algum tipo de assaltante especializado em roubar joias preciosas.
Havia sobre uma comprida mesa, grandes cestas de verga de formato oval, cheios de estrelas novas, levemente prateadas ou levemente douradas. Junto com Eder, colocava em caixinhas e escrevia os endereços.
Lucinha, muito agasalhada contra o frio, empurrou a porta equilibrando a bandeja com uma mão.
– É bom tomar esse chocolate. – falou e olhando para a janela protegida com uma grossa camada de pano alegou. – Está muito frio hoje.
– Mamãe – sorriu o menino – adivinha para quem vamos mandar essas maiores?
– Tem tanta gente precisando... dessas gotas de amor.
– Pena que não temos para todo mundo. – falou o marido tomando posse de sua caneca de chocolate.
– Para as mães que vivem tristes. – disse o garoto.
– Então – ela sorriu –, eu nunca vou ganhar uma estrela grande.

Sobre um grande e baixo estrado, havia uma pequena pilha de caixinhas lacradas e já com os endereços.
– Quero ajudar com os selos. – disse Lucinha depositando a bandeja na mesa.
– Cuidado com os selos! Algumas vão para muito longe, em outros países. O é selo especial.
– Mamãe, se colocar o selo errado, elas vão voltar.
– Minha especialidade são os selos. – brincou.
Tom, no dia seguinte acordou e tudo continuava como antes.

Eder, aos cinco anos, era uma criança crescida e inteligente. O pai não era só um amigo, era o herói, o maior de todos e quando chegava da escola, costumava acompanhá-lo no trabalho do cultivo de aboboras na lavoura que começava ao pé da casa e passava, na maioria das vezes, a tarde toda, soltando uma pipa multicolorida que ia tão longe, que mal se podia ver as partes vermelhas.
– Papai, tive uma ideia!
 O pai olhou para o garoto e esperou que concluísse.
– Vamos construir uma pipa bem grande – declarou olhando para o céu do fim de tarde – e vamos buscar a lua!
– A lua mora muito longe daqui. Temos que construir um foguete grande para conseguir chegar lá.
– Não papai, um foguete não é tão rápido como a pipa que você sabe fazer e a lua não está tão longe. Acho que disseram isso para ninguém tentar buscar ela. Você consegue fazer!
Tom olhou para o menino e depois para a lua que já aparecia.
A ideia era genial. Uma pipa, que levada pelo vento e guiada por uma linha viajasse no espaço celeste.
– Onde você encontrou essa ideia brilhante? – perguntou o pai e o menino ficou mais empolgado.
– Papai, uma pipa grande, colorida, bem forte. Uma pipa diferente que consegue me levar até lá!
– Uma pipa diferente. – concordou o pai – Só uma diferente consegue.
– Eu sou pequeno ainda, mas você consegue fazer.
– Eu não sei fazer uma pipa assim. Precisa ser uma pipa mágica e eu não sei fazer pipas mágicas.
– Você consegue! – insistiu esperançoso.

No fim de semana, no galpão bem perto da casa, ainda era cedo, quando começou a construção da pipa.
Tom tinha dúvidas e pensava que por causa do tamanho, ela jamais voaria, mas a diversão estava em construir o brinquedo.
As ripas, feitas de bambu, tinham mais de três metros de comprimento e dois e meio de largura e o papel, tinha sido cuidadosamente escolhido em três cores: o azul do céu, o dourado das estrelas e o branco da lua.
– Vamos amarrar com linha de algodão – disse o menino –, por que é mais leve.
Tom raspava e lixava as ripas com muito cuidado para que a pipa ficasse o mais leve possível e que os dois lados tivessem o mesmo tamanho e o mesmo peso.
– As medidas – disse explicando ao filho –, são científicas. Com cálculos matemáticos iguais.
Trabalharam o dia inteiro e de tarde, quase no fim do dia, o brinquedo estava pronto e não restava muito tempo para colocar a pipa no ar.
– A maior pipa do mundo! – comemorou o menino – A única que consegue chegar na lua.
– E você – falou o pai vindo para mais perto –, é o único menino que vai conseguir chegar na lua sozinho.
Eder sorriu, estava muito feliz com o novo brinquedo e com a viajem.
– Sim papai, eu vou trazer a lua. Ela vai ser sua. – e aumentando a dimensão do sonho, ele disse com os olhos brilhando – As estrelas, papai, eu vou passar pertinho delas.
– Sim, meu filho, as estrelas e você será a criança mais feliz do mundo e quando for adulto, será ainda o adulto mais feliz.
– Sim papai, sim. Eu vou ser feliz a vida toda.
 Tom tinha aqueles olhos castanhos que rasaram de água cristalina.
– Sim – concordou o pai cheio de esperança –, você será feliz a vida toda.
Depois pensou um pouco e perguntou:
– E se ela não voar?
– Você consegue fazer outra! Mas se não voar, papai, a culpa vai ser do vento.
– Papai – falou quase num grito –, a linha! Esquecemos de comprar.
– Você não sabe? – disse Tom comemorando – Eu comprei hoje!
Dizendo isso, tirou do bolso um carretel que não era muito grande. A julgar pelo seu conhecimento sobre carretéis de soltar pipa, Eder considerou que aquele deveria ter no máximo, quinhentos metros.
– É muito pequeno! Não vai chegar na lua.
Tom abaixou para amarrar o cabresto da pipa e ficou bem perto do menino.
– Esse não é como os outros – e cochichou em segredo –, é mágico.
– Ah, é mágico, papai? – indagou comemorando no mesmo tom de voz.
Tom já agachado, começou amarrar a linha. Balançou a cabeça confirmando.
– Ela não tem fim. – confidenciou.
– Jura papai?

Assim que terminou, Tom levou para fora a grande pipa que tinha um formato muito simples e a grande calda azul feita de pequenos pedaços de papel colados numa linha.
Atendendo a orientação do pai, Eder suspendeu a pipa mantendo a frente mais para o alto. Tom a fez subir por alguns metros e ela parecia dotada de faculdade própria, pois o vento da tarde, não era capaz de fazer subir nem a menor das pipas.
– Ela sobe! – gritou a criança. – Ela vai subir!
– Chame a mamãe! – disse Tom que estava tão feliz quanto o filho – Ela precisa ver!
Eder saiu correndo e ao entrar na casa gritava com muita empolgação.
– Mamãe! Mamãe! Vem ver nossa pipa, ela voa!
Lucinha deixou a cozinha, onde preparava uma sopa de fubá com legumes e foi conhecer o brinquedo que desde cedo provocava tanta alegria ao marido e ao filho.
Ao chegar do lado de fora, também ela ficou feliz com a pipa que se elevava com apenas um pouquinho de vento. Colocando a mão na boca disse:
– Como fizeram tão rápido um papagaio tão grande? E vai ser muito bonito quando voar.
Sentido uma falha no projeto, ela continuou:
 – Tinha que ter feito uma cadeirinha! Posso fazer de tricô, uma parecida com um ninho de beija-flor! – entrando em baixo da pipa que estava no ar, ela mostrou onde sereia colocada a cadeirinha.
– Aqui no cruzamento das ripas.
– Querida, não vai dar tempo. A viagem precisa ser hoje mesmo! Coloquei um tipo de rédea. Ele fica em cima, segura e controla ela.
– Não, meu bem – disse a mulher –, vocês deveriam ter falado isso cedo e eu já teria terminado o ninho. Veja que está ficando mais frio. Ele precisa de um abrigo para viajar com conforto e a guia poderá ser transferida para a parte de baixo.
– Sentado em cima, ou de pé, ele terá mais controle da viajem.
– Nesse caso – insistiu Lucinha –, ele precisa das duas opções.
Tom parou por alguns instantes e concluiu que a mulher tinha razão. O menino não podia fazer uma viagem histórica, sem pelo menos, sentar numa cadeira. Colocou no chão a pipa e falou:
– Use esta linha!
– É muito fina, parece linha de costura – discordou a mulher – e vamos precisar de muita linha. Não termino nunca isso.  Esse carretel não basta.
Tom chegou mais perto e entregando o carretel, falou baixo.
– É mágica.
– Mágica? – inquiriu com surpresa – Onde você encontrou?
– No bazar da senhora Ana. Só tinha esse e comprei logo. Ela nem sabia que era mágico. Acho que não conhece a diferença.
– Então – disse Lucinha –, faço ante de anoitecer.
De posse do carretel, Lucinha entrou na casa. Apanhou suas agulhas de tricô, sentou na sala e pôs-se a tricotar furiosamente e a linha, ao ser transformada em pontos, ficava como se fosse de lã.
Em pouco mais de uma hora, a cadeira, em formato de ninho de beija-flor estava pronta e Tom a amarrou no cruzamento das ripas.
Era seis da tarde, a lua aparecia no céu e era de um branco amarelado que já iluminava toda a terra e faltavam dois dias para ser cheia.
Um vento do poente, naquele momento, soprava a favor e Eder, pronto para o embarque, estava vestido como um pequeno e corajoso aviador.
– Mamãe, a minha mochila!

A mochila foi colocada nas costas do garoto e Tom fez levantar a pipa que tinha as cores em forma de listas. Estava cerca de dois metros de altura, a rabiola tocava a terra e o corajoso Eder foi colocado na cadeira em forma de ninho e segurou a linha que servia para guiar a pipa.
Lucinha abraçou e beijou o filho já sentado e com as perninhas penduradas do lado de fora.
– Se ficar frio, você veste o agasalho que está na mochila. – aconselhou.
– Sim, mamãe.
– Se ficar com sede, a água está no bolso, você bebe!
– Sim, mamãe.
– Só durma na volta!
– Sim papai, mas eu não quero dormir.
O pai beijou o filho e estava e comovido.
– Já vamos começar. Você está pronto?
– Estou sim, papai.
Tom começou dar a linha com pequenos movimentos de arrancos. A pipa deu sinais de subir, Lucinha correu e mais uma vez, beijou o filho.
– Vai com Deu! Não esquece de vestir o agasalho. Lá em cima deve ser frio e tem muito vento. Não esquece de pôr os óculos!
– Sim, mamãe! – disse já se distanciando, por que a pipa começava ganhar altura.
Lucinha segurou as duas mãos na altura do peito, enrolando nervosamente os dedos, enquanto a pipa subia levada pelo vento e ia na direção da lua que seria cheia dali a dois dias. Por último, apenas a ponta da rabiola ainda tocava no chão e ela ficou mais perto do marido.
– Nosso filho é muito corajoso. – ele falou.
– Tom, você está chorando?  – disse ao olhar para o homem que controlava a saída da linha do carretel.
– Queria ir com ele. – lamentou depois de um suspiro pesaroso – Sempre sonhei com essa viagem.
– Você nuca falou. Se soubesse, teria feito uma cadeira maior.  – disse a mulher consolando.
– Minha felicidade é saber que ele está feliz. E ele está feliz, não está?
A pipa ganhava o céu rapidamente e muito logo, via-se apenas a lista azul que ficava cada vez mais distante. Até que virou uma pequena mancha azul no céu que perdia a claridade e logo, não foi mais possível enxergar. Apenas a linha ficava firme por causa do vento e era preciso soltá-la com mais rapidez.

Fazia mais de duas horas que Eder tinha partido de viagem. A pipa forçava a mão de Tom, fazendo a linha correr mais depressa.
Lucinha veio de dentro da casa com duas cadeiras e as colocou lado a lado, quase encostadas.
– Está ficando muito frio. – disse ela entregando um agasalho que trazia num dos ombros.
– Não deixe escapar. – orientou entregando a ela o carretel que ainda tinha a mesma quantidade de linha. – Se acontecer, nunca mais teremos nosso filho de volta.
– Ah – fez ela preocupada – seremos então, infelizes para sempre.
Tom, muito rapidamente vestiu o agasalho. Sentindo-se mais aquecido, sentou na cadeira ao lado da mulher e apanhou de volta o carretel, pois tinha mais confiança em suas mãos por ter experiência com pipas.
– Somos muito corajosos. – disse ela sentindo medo – Como saber a distância que ele já está?
Concentrado em seu trabalho, Tom demorou responder.
– Não sei, mas já está muito longe e estou tão orgulhoso.
– Ah, se pudéssemos ir os três. – suspirou ela.
– Minha amada, quem sabe um dia.
– Uma viagem pelo céu. – murmurou Lucinha olhando para as estrelas que pareciam um grande punhado de gliter. – Se a linha se romper. – disse ela algum tempo depois – Se o papagaio não aguentar...
– Sempre há o risco, mas nossa aposta é que tudo vai dar certo.
Ficaram em silêncio por alguns minutos. Tom trabalhava freneticamente com as mãos soltando a linha e sentia cada vez mais o peso do vento.
Já passava das dez da noite quando a mulher se levantou.
– Vou fazer um chocolate bem quente. Está mais frio. – disse.
Alguns minutos depois, ela voltou com duas canecas de chocolate que levantava uma fumacinha levemente cheirosa.
– Não posso tomar agora! – disse ele. – Está subindo muito rápido, devia ter pensado numa engenhoca para soltar a linha.
– O sarilho do poço! – lembrou a mulher – Vai servir para enrolar na volta. Vou pensar em alguma coisa. – disse levantando outra vez.

– Traga o martelo e um prego grande! – pediu o marido – Minhas mãos não aguentam mais.
Lucinha saiu em passos trêmulos e voltou alguns minutos depois.
Estavam bem perto ao galpão. Tom orientou que pregasse na viga do portal e ela cravou o prego até o meio. Rápido e cuidadosamente, ele deixou a cadeira, sem jamais deixar de soltar a linha. Colocou o carretel no prego e enganchou a orelha do martelo impedindo que ele saísse e começou massagear as mãos que tinham cortes feitos pela linha que continuava desenrolando em velocidade prodigiosa.
– Estou apavorada! – declarou a mulher – O menino poderá ficar perdido no céu.
Tom, escondendo o nervosismo, ainda apertando as mãos para dissipar as câimbras, sorriu levemente.
– Um lugar muito bom para ficar perdido. – disse e foi pegar a caneca de chocolate que já estava frio e o carretel soltava livremente a linha que começava esvaziar da peça.
Enquanto o marido, escondendo a preocupação, tomava o chocolate olhando o carretel rolar no prego, Lucinha saiu, pois estava muito preocupada com o retorno de Eder.

Já passava de uma da manhã.
– Querida! Parou! – gritou Tom para a mulher que fazia algum tempo não vinha fazer-lhe companhia.
– Parou, querida. Vem!
Poucos instantes depois, a lua desapareceu do céu. As estrelas ficaram foscas e ficou muito escuro. O pai e a mãe se abraçaram nervosos.
– O que aconteceu? – quis saber Lucinha muito preocupada – A linha já está acabando. – observou temerosa olhando para o carretel.
– A lua – disse Tom – sumiu! – testou a linha e ela continuava muito esticada – Ele não se perdeu, a pipa está segura. Deve ter chegado! Vamos nos preparar para a volta.
Aproveitando que o carretel estava sem movimento, Tom o pegou e foi com a mulher. Ela tinha instalado uma correia de motor no sarilho que antes era usado para descer o balde no poço. Ali amarrou o carretel e ficou esperando que a linha ficasse folgada, dando sinal que a pipa estava pronta para ser puxada.
Tom e Lucinha estavam muito mais nervosos e ficaram parados, de olho no céu escuro e sem lua. Alguns minutos depois, a linha ficou leve e não sabiam se deviam ficar felizes.
– Será que rebentou? – falou motivado pelo medo. – deu grandes puxadas e não encontrou resistência. Ligou apressadamente o motor instalado na caixa do poço e servia para irrigar o plantio de abóbora.
A polia girou fazendo rolar o sarilho e a linha começou ser enrolada.
Sem ter outra coisa para fazer, os pais ficaram parados, olhando para o céu.
Era três da manhã, no céu escuro apareceu uma luz, um tipo de estrela cadente que descia rumo a terra, na direção da casa, até que, alguns minutos depois, a pipa chegou molhada de orvalho das nuvens. Tom desligou o motor e puxou a linha.
A poucos metros do chão, a pipa dançava na falta de vento naquela hora da madrugada. Ele soltou a linha e correu para apanhar o filho na cadeira embaixo da pipa. A lanterna presa no capacete de aviador estava acesa e com o agasalho molhado, ele dormia.
Tom o tirou daquela espécie de ninho de lã e levou para dentro. Antes de colocar na cama, Lucinha tirou a mochila que seguramente tinha dentro alguma coisa de formato redondo. Apesar de o agasalho estar molhado e frio, as roupas estavam secas e quentes e o menino acordou assim que o pai o cobriu.
– Papai! – gritou – Cadê a minha mochila?
A mochila ainda não tinha sido aberta e estava de um lado, sobre a cama, ele a pegou com a maior pressa que pôde.
Abriu e os pais tiveram uma grande surpresa. Dentro tinha uma lua que estava a dois dias de ser cheia. Eles choraram e o menino gritou:
 – A sua lua, papai. Eu trouxe para você!
Tom, emocionado por ter diante de si, o raro presente, pegou com as duas mãos e repassou à mulher para que também ela sentisse aquela grande emoção.
– A lua, querida. A lua. – disse emocionado.
A lua que tinha entre as mãos, era do tamanho de uma bola de futebol, feita de algo que parecia algodão doce branco e dela, saía uma luz transparente que iluminou o quarto e tudo ali dentro pareceu mudar de cor.
Eder que estava de pé e fora da cama, enfiou outra vez a mão na mochila.
– Mamãe, o seu presente!

– Mamãe, o seu presente! – repetiu – A sua estrela grande que mora bem pertinho da lua.
Lucinha, muito emocionada, entregou ao marido a lua e pegou o seu presente que tinha o tamanho de um ovo e era luminoso, mais dourado que a lua e dele saíam pontas de raios macios.
– A sua estrela, mamãe. – disse ao colocar nas mãos tremulas o presente, tantas vezes visto de longe. – A maior que tinha no céu e eu estava pertinho dela.
Procurou no fundo da mochila e encontrou outra, porém muito pequena, mas que tinha o mesmo brilho.
– A minha – disse feliz –, olha como é pequena.
– Não, Eder – disse o pai carregado de emoção – a estrela pequena é do papai e você tem a lua.
– Papai, não! Você ama a lua. Ela é sua. Eu sempre quis buscar para você.
– Eder, meu filho...
– Papai, fica com a sua lua. Eu trouxe para você!

Depois de tomarem chá bem quente com torta de chocolate que a mãe tinha feito enquanto eles construíam a pipa, Eder falou com os olhos brilhando:
– Quando a gente contar, ninguém vai acreditar.
– Todo mundo vai acreditar, por que vai saber que a lua sumiu do céu. – falou o pai.
– Não é que parece noite de Natal, mamãe?
– Sim, parece, mas acho que não podem ficar aqui. As pessoas do mundo inteiro, serão muito infelizes se não puderem mais ver a lua.

A família, naquele fim de noite fria, dormiu no mesmo quarto e na mesma cama, com Eder no meio e junto no quarto, faltando dois dias para cheia, estava a lua de algodão doce e duas cintilantes estrelas que piscavam a mais de um metro do chão.
– Estamos no céu. – disse Tom ao ver a mulher acordando, ainda bem cedo no quarto fechado.
O menino acordou com a conversa dos pais e logo começou falar da aventura na noite que findava.
– Era muito rápido – disse –, eu cansei de ficar na cadeira e subi, fiquei em cima da pipa. Viajei de pé, papai. Você acredita? O vento queria me derrubar, mas eu fiquei lá um tempão! Você sabia, papai, que tem uma manada de javali que cuida da lua, mas a pipa passou por cima deles. Acho que é por isso que ninguém nunca conseguiu chegar lá. E depois que passei, tinha gansos, um macho e uma fêmea e tinha um ninho e dos ovinhos, não nascem gansinhos – o menino olhou para o pai e depois para a mãe – Sabe o quê que nasce? Estrelas, papai. Você acredita?

FIM



Num papo reto, que um dia desses o Augusto teve comigo, ele disse: – Vou buscar a lua e colocar na minha mochila.
Lembrei outras conversas seríssimas que tivemos – a estrela grande é sua, a minha é pequena; vamos fazer um foguete para ir lá na lua e vamos levar...; cadê a mamãe?; eu não tenho uma pipa...
Meia hora depois, eu estava no computador, com os dedos trabalhando no teclado, até que escrevi 15 páginas de uma só vez. As outras 5, escrevi no dia seguinte.
Agora você já sabe que o autor intelectual do conto A PIPA tem apenas dois anos e meio. Eu apenas escrevi, por que ele não sabe ainda.













Gilmar Batista da Costa
Enviado por Gilmar Batista da Costa em 24/11/2017
Código do texto: T6181250
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Sobre o autor
Gilmar Batista da Costa
Alvorada d'Oeste - Rondônia - Brasil, 40 anos
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