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No escurinho do cinema

 
“Você só pode estar brincando, Ander.”

- Eu não estou. – Apoiei os pés na mesa da minha sala.

“Mas...”

- Eu sei o que você vai me dizer, Lexi. Eu não queria sentir o que estou sentindo. Preciso ver ela.

“Ela não quer te ver.”

- Ela nunca quer. – Dei de ombros e acabei, sem motivo algum, sorrindo. – Eu já estou acostumado com o tratamento que ela tem por mim. Vocês conversaram?

“Faz alguns dias que não. Ela me mandou mensagem na última vez em que vocês estiveram juntos. Acho que vai seguir o que você pediu, mas você precisa ajuda-la, cara!”

- Eu vou ajudar sim, mas não agora. Liga para ela e me dá a localização por mensagem.

“Que inferno, garoto! Já mando!”

Encerrei a ligação e coloquei o celular na mesa. Cerca de 10 minutos depois a mensagem de Lexi chegou.

 
“Ander,

Ela está no cinema do shopping Cidade São Paulo. Vai assistir um filme infantil que começa às 16 horas.

Adianto que ela está estressadíssima. Boa sorte!”
 

- Ah, Hassenback... Você não perde por esperar.
 
(...)
 
Cheguei no cinema faltando 30 minutos para a sessão começar. Como era segunda-feira, não havia uma superlotação e foi bem fácil comprar o ingresso. Encontrei Lana sentada numa sorveteria próximo a bilheteria. Ela mexia no sorvete sem muita empolgação. Parecia, na verdade, muito triste com algo ou alguém. Eu fiquei por trás dela e juntei nossas mãos, depois afundei a colher na massa rosa cheia de confeitos e levei até a minha boca. Ela deu um pulo, assustada. Me sentei na cadeira vazia ao seu lado com um sorriso bastante sereno.

- Framboesa?

- O que faz aqui? – Perguntou, brava.

- Eu quero saber o sabor do sorvete primeiro.

- Sim, é Framboesa! – Respondeu, ríspida. – O que você faz aqui?

- Ah, parecia uma boa vir num cinema em plena tarde de segunda! E cá estou eu! – Me ajeitei, confortavelmente na cadeira. – Que cara de brava, Hassenback.

- Meu Deus! Agora entendi todo aquele interrogatório da sua prima! Traidora!

Ela cruzou seu belo par de pernas, evidenciando as curvas no vestido com estampa florida.

- Nós vamos assistir a uma animação? – Perguntei, olhando o ingresso na tela do celular.

- Nós vamos? Como assim “nós vamos”?

- Sim, nós vamos! Eu comprei o ingresso na vinda para cá!

Foi bem engraçado ver suas reações. Primeiro ela pareceu ofendida, depois com raiva e por fim, esbravejou derrotada como se tivesse perdido uma batalha. Vi quando se levantou, rumo a fila da pipoca. Eu a segui, tranquilo e me divertindo muito com o mau humor dela.

- Lana.

- O que é? – Parei ao seu lado. – Nossa, eu não acredito que perdi a vontade de comer por sua causa.

- Eu posso te fazer uma pergunta?

- Não vai adiantar dizer que não.

- Como o Bruno reagiu ao saber que você perdeu a aliança de compromisso? – Seu olhar furioso me fez soltar uma risadinha. – É só uma pergunta.

- Eu... – Ela procurava palavras para responder sem dar o braço a torcer. – Bem, ele... Entendeu. Vamos comprar outra. – E deu de ombros. – Por que?

- Curiosidade.

Seu olhar encontrou o meu e ela revirou os olhos, zangada. Quando chegou a sua vez de comprar algo para comermos, a atendente foi muito simpática, mas somente comigo. O que fez a enciumada Lana Hassenback desistir e me puxar para seguirmos até a sala do filme.

- É essa a forma que você quer que nos afastemos? – Perguntou, quando nos acomodamos numa fileira mais reservada, de apenas duas poltronas. Bom, não que isso fizesse alguma diferença, pois estávamos sozinhos naquela sala imensa.

- Shh! Eu gosto de ver o trailer. – Ela afundou na poltrona, muito entretida em sua própria agonia e raiva das minhas atitudes.
O trailer durou 5 minutos, o que ajudou Lana a se acalmar. Quando o filme começou, eu a olhei de soslaio.

- Ainda quer uma resposta? – Perguntei, cínico. Ela sustentou o meu olhar, mas ainda havia muita rispidez nas íris verdes.

- Você não me ajuda, Ander. Eu fiz o que você me pediu, mas preciso que você coopere comigo.

- Eu sou mais fraco do que você. – Admiti, com um longo suspiro. – Achei que soubesse disso. - A minha resposta a pegou desprevenida. Ela jogou a cabeça para trás e mordeu o lábio, nervosa. – Você sabe que pode viver sem mim, Lana. E eu também posso viver sem você, mas não quero.
Quando toquei sua mão, ela se afastou, mas não foi com agressividade, era como se evitasse o que aquele contato poderia fazer conosco.

- Cala a boca e assiste o filme!

- Tá bom!

A animação era alguma coisa de heróis. O mesmo de sempre, com um enredo bastante clichê por sinal, mas tinha alguma graça pelo protagonista ser um cachorro. Demorei para me entreter com a história, e quando aconteceu, fui enfeitiçado com a doce e contagiante risada da mulher ao meu lado. Fazia um tempo que não a via rir e acabei sentindo uma coisa muito estranha. Senti meu coração disparar, um suor nas mãos e um absurdo tipo de plenitude em estar ali com ela.

Vi quando levantou o braço da poltrona e deitou a cabeça em meu ombro. Eu a acolhi em meus braços e respirei seu cheiro, torcendo para nunca mais esquecer da maravilhosa sensação que era estar com Lana.

- Até que não é ruim o filme. – Murmurei, com um sorriso sincero. – Quer dizer, eu acho que... – Ela colocou o dedo nos meus lábios, me silenciando, depois tocou meu rosto, fazendo os nossos lábios se encontrarem com carinho e paixão.

E claro, pra variar, Lana recuou quando as coisas começaram a ficar fora do seu controle. Ela me empurrou, sem ar e voltou a sua atenção ao filme. Eu olhei para o teto e dei um longo suspiro, o que a fez me olhar de canto.

- A gente não pode ficar perto um do outro. – Sussurrou, com a voz séria. Foi a minha vez de olhar para Lana. Ela precisa ser tão bonita assim? Precisa me envolver com tanta facilidade? Eu toquei seu rosto, tomando caminho para o seu pescoço. Ela tentou me conter, mas em vão.
– Ander...

E tudo começou de novo. Era irresistível. Ela se jogou em meus braços, parcialmente cansada de lutar contra si mesma e ao mesmo tempo sabendo que aquilo pioraria tudo para nós dois. Ela sentou por cima de mim, ajeitando-se com muita facilidade nos meus braços. Segurei sua cintura por dentro do vestido, sentindo toda a suavidade de sua pele. Beijei seu pescoço, sentindo seu cheiro despertar o meu lado mais selvagem. Com a mão livre, baixei a alça do seu vestido, tomando um perigoso caminho até os seus seios. Ela capturou meus lábios, sedutora e sorriu em meio ao beijo. Confesso, naquele momento me segurei muito para não dizer o quanto a amava. Minha mão desceu por sua coxa, indo até o meio de suas pernas em suaves movimentos de vai-e-vem. Lana encostou a testa na minha, jogando o cabelo para o lado enquanto eu prazerosamente assistia suas reações ao meu toque.

Ela encostou o lábio em minha orelha, com sua respiração perdendo o ritmo. Por muitas vezes sonhei em vê-la assim, entregue ao momento, como sempre me entreguei a ela. Eu sonhei com isso, mas nunca em todos esses anos pensei que a ouviria falar as três palavras no pé do meu ouvido.

- Eu te amo tanto...

E bem, a minha reação foi tão inesperada quanto as suas palavras. Eu a olhei, embasbacado.

- O que você disse?

Lana me olhou, confusa.

- Eu não falei nada.

- Não! – Eu exclamei, alto demais. Ela saiu de cima de mim, trêmula. – Você disse! Eu ouvi você falando que me ama!

- Você está maluco, Ander!

- Você falou “eu te amo tanto”! Eu não estou maluco!

Eu escondi a mão entre o rosto, mais confuso ainda. Talvez minha mente esteja me sabotando. Só pode ser isso, mas ao mesmo tempo parecia tão real.

- Você está inventando coisas!

- Não, Lana! Você disse! – Tentei, mas sem muita força na voz.
Ela ajeitou o vestido, arrumou o cabelo num coque frouxo e me olhou, friamente. Eu nem precisava da luz ligada para sentir todo o olhar dela me congelando vivo.

- Por que eu diria que te amo, Ander?

Eu sabia que aquela pergunta tinha o intuito de me magoar, mas não entrei em seu jogo.

- É, você tem razão. Não tem um motivo para isso. – Me levantei da poltrona. – Eu vou embora.

Quando cheguei na saída da sala, Lana me empurrou contra a parede. Seu rosto molhado de lágrimas contrastava lindamente com a raiva dos seus olhos verdes.

- LEMBRA QUANDO VOCÊ DISSE QUE EU NÃO TINHA O DIREITO DE MEXER COM OS SEUS SENTIMENTOS? ENTÃO! VOCÊ TAMBÉM NÃO TEM O DIREITO DE ME PROCURAR DEPOIS DE PEDIR PARA FICAR LONGE!
Balancei a cabeça em um sim, mentalmente exausto para brigar com ela.

- Eu só quero ir embora, Lana.

- Ótimo! – Exclamou, sem conseguir controlar as suas lágrimas. Um funcionário do cinema nos olhava, preocupado. – É um favor que você me faz!

E assim fui embora, sem olhar para trás. No retorno a minha casa, mudei o caminho e segui rumo ao centro da cidade. Eu não sabia o que estava fazendo, mas sabia desesperadamente que precisava me livrar dos meus sentimentos por Lana Hassenback. Peguei meu celular do bolso, chamei o número e fui atendido no segundo toque.

- Oi Gabi, tá em casa?

 
Tamiris Vitória
Enviado por Tamiris Vitória em 23/03/2020
Código do texto: T6894550
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Tamiris Vitória
São Paulo - São Paulo - Brasil, 25 anos
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Tamiris Vitória