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Capítulo 10 – Eu não posso forçar esses olhos a verem o fim
             
              1 mês depois...
 
É ridículo admitir para si mesmo que ama tanto uma pessoa a ponto de ficar doente por causa da ausência dela na sua vida. Numa tarde, depois de voltar do hospital, relembrei as palavras do médico: “O seu problema é emocional, meu rapaz. Você adoeceu por estar com saudades de algo... Ou alguém!”. Tentei ignorar aquele laudo, pois pra mim é totalmente inconcebível a ideia de ter ficado doente por sentir saudades da Lana. Ok, fiquei dias sem comer direito e me joguei no trabalho como nunca para esquecer dela indo embora com o buquê de chocolates? Fiquei, cara, fiquei. O pior é que não tive como evitar, simplesmente foi muito difícil digerir aquele novo fim.

Fui afastado do trabalho por uma semana, e nesse tempo recebi ligações diárias de minha tia, da Lexi e a visita de Gabi com certa frequência. Ela vinha sendo uma amiga e tanto. As vezes tentava sondar o motivo que me levou a ficar de cama, mas entendia as minhas razões em não querer lembrar daquele dia. Sempre que Gabi ia embora, minha prima me ligava por chamada de vídeo pelo celular.

- E aí, Lexi!

“Nossa, você está horrível!”

- É, eu sei. Pensei em fazer a barba hoje, mas estou sem forças para sair do sofá. Como você está?

“Estou bem... Já você, eu nem preciso perguntar! Minha mãe vai te ajudar com uma coisa.”

- E como seria essa ajuda? - Lexi olhou para o relógio em seu pulso e deu um sorrisinho sacana. A campainha tocou naquele mesmo instante. – Já volto!

“A gente se fala depois, Ander. Te amo, tchau!”

Com muito esforço saí do sofá e caminhei até a porta. Quando abri, uma figura feminina segurava duas sacolas brancas que pelo cheiro, denunciavam ser algum tipo de comida.

- Com licença, estou entrando... – Lana passou por mim tomando cuidado para não derrubar as sacolas e equilibrando uma mochila vermelha nas costas. Fechei a porta, em seguida. – Sem surpresas você mesmo doente ainda vestir essa camisa horrível do seu timinho, não é?

- Oi, Lana. – E deu um lindo sorriso. Naquele momento todas as células do meu corpo voltavam a ter vida. Ela deixou as sacolas na mesa da cozinha e retornou para a sala. – O que faz aqui?

Voltei a me sentar e puxei a coberta ao meu lado.

- A Lexi me falou que você está doente e a sua tia me passou uma missão muito difícil.

- Qual missão? – Perguntei.

- Fazer a sopa que você gosta para essas situações de enfermidade. – Ela se aproximou e colocou a mão na minha testa. – Caramba! Você está com febre!

- Não estou. – Murmurei, com teima. Lana fez menção de tirar minha camiseta do Flamengo, mas a impedi. Nisso, sem querer, tive o pé pisado e ela escorregou, caindo em cima de mim. – Eu estou com frio, Lana. – Minhas mãos foram para a sua cintura, mas sem pretensão de nada.

- Eu sei... Mas me deixa cuidar de você, por favor? - Ergui meus braços, o que foi subentendido como um “sim”. – É... – Senti seu olhar em meu corpo. – Hã...

- O que foi, Lana? – Perguntei, sentindo o seu olhar.

- Você tem ventilador?

- Tenho. Está no meu quarto.

- Vou lá pegar.

Lana voltou alguns minutos depois com o meu ventilador antigo, o posicionando próximo a mim. Depois, umedeceu uma toalha dentro de um balde com água morna.

- Tempo maluco, né? – Murmurou, sentando ao meu lado. Ela passou a toalha na minha testa. – Lá no trabalho várias pessoas também ficaram doentes.

A conversa fiada dela parecia ter algum proposito, mas não entrei em seu jogo.

- Sim.

A toalha desceu para o pescoço, tomando assim, seu caminho até o meu peito. Eu respirei fundo, mas não muito, pois sentia uma dor muito forte. Lana alisou meu rosto e deixou um beijo em minha têmpora. Não demorou muito e eu me encontrava deitado com a cabeça no seu colo.

- Lana...

- Oi, Ander.

Ela continuou seu trabalho de passar a toalha molhada em meu rosto.

- Quer falar sobre a briga?

- Quero.

- Eu começo ou você começa?

- Você já me falou muitas coisas... Eu começo. – Respondeu, deixando a toalha na mesa do centro e puxando a coberta para me cobrir. – Desculpe ter feito aquilo de novo... – Franzi o cenho, confuso. – Você sabe, ter dito para você sair da minha vida. Horas depois tive uma crise de choro até conseguir admitir em voz alta que não consigo ficar sem você. Sem ver você é fácil, dói, mas é fácil de lidar. Depois que nos reencontramos não tem sido mais tão fácil assim. - Ela me olhou rapidamente. – Quando te vi com aquela moça me incomodou sim, mas tratei de afastar aquilo, pois era um sentimento infundado, tendo em vista que concordamos em sermos amigos.

- E o que faremos, Lana?

- Não sei, Ander... Realmente não posso ter... – Interrompi suas palavras puxando seu pescoço, de modo que foi possível beijá-la. Aos poucos, me sentei no sofá e a trouxe para o meu colo. Segurei sua cintura e voltei a beijá-la, mas infelizmente todo o esforço físico me fez tossir que nem um tuberculoso. Ela riu, me dando um beijo na testa cheio de compadecimento. – Você está doente, não se empolgue.

- Por um momento me esqueci disso. - Ela me abraçou, carinhosa. – Eu não aguento mais te ver indo embora, Lana.

- Eu também não aguento mais mandar você embora.
– Eu revirei os olhos, fazendo-a rir. – É sério!

- Eu sei.

- Eu vou tentar ajeitar as coisas.

Quis dizer a ela que o seu – ou nosso – problema não era somente o seu relacionamento com o Bruno, mas fiquei em silêncio, apenas observando a mulher da minha vida me olhando cheia de carinho e complacência. Desde que ela continuasse me olhando daquela forma, nada mais me importava.

- Você está com aquela cara de idiota passional.

- E você está com os olhos brilhando, Hassenback! Seus olhos estão parecendo duas bolas de gude.

Lana ficou na minha casa por três dias. Nesse tempo, cuidou não apenas da mim, como também da minha casa. Ela não era tão boa dona de casa como eu – segundo suas próprias palavras – mas se esforçou em manter as coisas do meu jeito. “Você é tão taurino que chega a ser irritante, Ander!” – Disse, ao lavar minhas roupas na máquina de lavar. E depois ela chorou ao ver que colocou muito amaciante nas roupas que ficaram com um cheiro enjoado. Foi hilário.

- Eu sou uma péssima dona de casa!

- Lana, para! Isso acontece. – Eu a abracei, consolador. – É normal.

- Não, Ander! Não acredito que você é um dono de casa melhor do que eu! – Ela deitou a cabeça no meu peito. – Que raiva!

Depois fui ajuda-la no almoço. Foi engraçado vê-la tomar o maior cuidado para não confundir o sal com açúcar. As vezes ela parava, secava as mãos no pano e observava, toda cheia de preocupação o arroz cozinhar na panela.

Fui acordado daquele momento graças a ligação por vídeo de nada mais nada menos que minha digníssima prima.

- Lana, é a Lexi! – Ela ficou dividida entre se aproximar para conversar e continuar prestando vigilância com o arroz. – Eu fico de olho no arroz, pode deixar.

Lana assentiu, meio receosa e ficou ao meu lado.

Aceitei o convite para a conversa e logo uma tela se abriu com Alexia sorrindo.

“AAAAAHH!!! Eu não acredito no que meus olhos estão vendo!”

- Bobona! – Lana exclamou, sorrindo.

“Esse menino voltou até a sua cor normal, estou chocada!”

- Alexia...

“Nossa, sério, vocês são muito o meu casal!”

Olhei de soslaio para a moça ao meu lado, que apenas sorria, sem jeito. Ela passou o braço pelo meu pescoço.

- E como você está, amiga?

“Trabalhando pra caralho. Mal estou conseguindo ver a minha mãe! Ela te mandou mensagem, Ander?”

- Mandou sim. Perguntou se estou me cuidando e pediu para agradecer a Lana pela ajuda.

“Ótimo! E vocês, como estão?”

- Estou melhor. – Respondi. – Lana tem me ajudado bastante!

- Eu estou bem também. Aceitando, com certo horror, que o seu primo é melhor dono de casa que eu.

“Ah, ele é mesmo, sempre foi! O Ander cozinha igual a minha mãe, cara! Nem eu, que sou filha mesmo tenho esse dom!”

Fiz uma expressão convencida. Lana me beliscou, rindo. Conversamos por algum tempo com a minha prima, mas foi necessário pararmos pois o arroz queimou e ouvi a maior bronca do mundo.

Lá pela noite, depois de várias aventuras domésticas, nós fomos assistir a um filme.

- E aí, capitã arroz queimado! – Ela entrou no meu quarto vestindo um conjunto de pijama vermelho. – Já superou o arroz?

- Não e estou com raiva de você por isso! – Eu a puxei para os meus braços assim que se deitou. – Nem vem.

- Ficou brava mesmo? – Beijei sua bochecha. – Mas tá! Quem é a minha capitã arroz queimado?

- Eu vou te bater. – Segurei suas mãos, rindo. – Ai como você é idiota, nossa! – Ela tentou me empurrar para o lado, mas sem sucesso.

- Capitã arroz queimado!

Nós começamos um tipo de luta corporal, mas bem de leve. Levei alguns tapas, arranhões e uma mordida no braço.

- Pelo menos eu tenho saúde! – Revidou, jogando o travesseiro no meu rosto.

- Ah, é?

- É! - Puxei seu pé e a enchi de cócegas. – Agora você vai ver!

- NÃO! – Lana tentou fugir, aos risos. – TA BOM, CHEGA!

- Então fala assim: “Meu nome é Lana Hassenback e meu apelido é Capitã arroz queimado!”

- NÃO!

Soltei seu pé, mas a dominei pela cintura e em seguida os seus braços.

- Fala. – Ela balançou a cabeça em um “não”. Dei um selinho nela. – Lana...

Fui traído por uma dor no joelho e com isso, Lana me empurrou na cama, me dominando com muito empenho.

- A RÁ!

Ela jogou os longos cabelos cor de chocolate para o lado, toda vitoriosa.

- Você é uma idiota, sabia?

- Quem é a mamãe agora?

Me sentei com a maior facilidade possível e tentei beijá-la. Lana brigou, relutou, mas quando a segurei pela cintura e passei as unhas pelas suas costas, ela arfou, sedutoramente.

- Minha nossa, como você joga baixo!

- Eu nem fiz nada garota! – Me defendi, passando as unhas pelo meio de suas costas, trilhando pela lateral e ameaçando tocar seus seios. Sua testa encostou na minha e ela sorriu. – Ah, não. Já desistiu?

- Não, estou só refletindo...

Minha mão livre passou por sua clavícula, suavemente. De início, sem intensão de qualquer coisa, a não ser ver suas reações. O orgulho, característica forte de Lana, não teve forças. Ela só não falava, mas seu corpo falava e muito. Eu sei, isso devia ser o suficiente para acreditar em seus sentimentos, mas havia uma instabilidade nas ações dela que me fazia ter certo desespero em ouvi-la admitir o que sente por mim.

- Ainda refletindo? – Perguntei, no pé do seu ouvido.

As minhas mãos passavam por suas coxas. Ela mordeu o lábio ao responder sim com a cabeça. Dei um beijo em seu pescoço, mudando o caminho. Baixei uma alça de sua blusa, depois a outra, até ver seus seios a mostra. Eu toquei sua pele, sentindo a maciez e o cheiro despertando e me curando. Abracei sua cintura, com força e a olhei nos olhos.

- Para quem está doente você está com muita energia, não? – Perguntou, encostando a testa na minha e selando nossos lábios. – Eu vim aqui só cuidar de você...

- E está dando certo, juro. – Respondi, vendo Lana ajeitar a blusa no corpo.

Ela tomou minha mão em sua cintura e uniu as nossas mãos livres. Havia muita coisa a ser dita, mas nenhum daria o primeiro passo. Não parecia apropriado para o momento. Eu deitei a cabeça em seu peito, sentindo no seu cheiro uma paz que só ela era capaz de me dar e também de me tirar.

Naquele momento a tv passava um comercial da novela das 21h00, e a cena era de um casamento.

Parecia um lembrete para mim. Um duro e terrível lembrete que não importava o que tínhamos. Não importava se era real, talvez mútuo e profundo, ela iria se casar com outro homem.

 
Tamiris Vitória
Enviado por Tamiris Vitória em 03/01/2021
Reeditado em 05/01/2021
Código do texto: T7151145
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Sobre a autora
Tamiris Vitória
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Tamiris Vitória