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Capítulo 13 – A sabedoria de Alexia
 
- Nossa, que cara péssima! Pensei que ficaria mais feliz em me ver assim de surpresa. - Alexia alegremente entrou no meu apartamento, sentou-se no sofá e me olhou. – Bom, me deixe adivinhar, Lana?

- É. – Me sentei ao lado dela. - Lana.

- E qual foi motivo da briga? – Ela mexeu nos cabelos castanhos e cheios.

- Começou assim... (...)

No final da história, Alexia me olhava embasbacada.

- Cara, ela ficou bêbada, se declarou e tu simplesmente não acreditou?

- Ah, Lexi! Qual é! Ela se declarou bêbada. Sentimento de bêbado é a pior coisa que existe!

- Não! – Gritou, desesperada. – Não é! E no cinema?

- No cinema eu ouvi demais. – Dei de ombros. – Foi muito intenso, talvez eu tenha ouvido o que queria ouvir e não a realidade. Estou cansado, Lexi. Cansado de estar preso a ela.

- Acho que vocês dois passaram da conta dessa vez. – Revirei os olhos e lembrei, desgostoso, da discussão com Lana. – É sério.

- Eu passei da conta, Alexia? Meu Deus, a Lana é manipuladora e egoísta. Ela sabe disso, você sabe disso e quem não sabe eu faço questão de criar uma apresentação no power point!
 
“Estudo científico sobre Lana Hassenback”
O poder psicológico de uma mulher que sem muito esforço faz qualquer história que você tem razão virar contra si mesmo.
 
- Você é ridículo Ander!

O meu descontrole fez Alexia rir alto. Bom, fico feliz de saber que ao menos alguém vê graça nisso tudo. Sinceramente não consigo ver a coisa com tanta alegria e descontração há muito tempo.

- Ela me disse que não pretende terminar com o Bruno, mas também não consegue ficar sem mim. Olha a situação que estou, Lexi.

De repente Dinorá com toda a sua classe e elegância surgiu na sala. Ela ignorou a presença de Lexi e sentou-se no meu colo.

- A Lana ama você. Ela não quer que o Bruno sofra, mas alguém nessa história vai sair perdendo. Como a sua gata é linda!

- Não ama não. - Alexia tacou uma almofada na minha cara. – Eu sei do que estou falando. Ela no mínimo sente atração e olhe lá! – Eu alisei as costas da bola de pelo no meu colo e recebi um amigável miado em resposta. – É o meu bebezão.

- Você é impossível!

- Eu impossível? Perto da Lana sou quase um monge. - Minha prima se levantou, brava. – Vai sair?

- Sim, eu vim aqui a trabalho, mas como a minha reunião é a noite, tenho tempo para ajudar vocês a se resolverem.

- Gosto da sua positividade.

- Vou na casa dela e volto na hora do almoço. Acho bom você preparar um belo almoço, pois sinto falta da sua comida. – Ela me deu um beijo na testa. – Eu sei que não está fácil, Ander, mas vocês vão ficar juntos. Confie em mim.

Determinada e confiante, Lexi saiu me deixando com uma chama de esperança no ar. Deus, como eu a odeio.

Quando minha prima fechou a porta, Dinorá miou, mas era um miado meio triste. Talvez ela entenda o que está se passando.

- Eu também sinto falta dela Dinorá. Todos os dias.
 
Algumas horas depois...
 
Tinha terminado de me trocar quando ouvi Alexia entrando no apartamento. Peguei meu chinelo debaixo da cama, quando outra voz tomou conta do ambiente. Era Lana Hassenback.

“Você viu a gata dele?”

“Uhum, tá no quarto. Ele saiu, mas deixou a gata lá.”

Não deu tempo de evitar o plano adolescente da minha prima. Impressionante como com o restante do mundo a Lana é a Branca de neve e só comigo ela vira uma vilã cruel e maligna.

Tentei correr até a porta, mas a cama era longe da porta e Alexia foi mais rápida empurrando Lana e tirando a chave.

- DESGRAÇADA!

Lana ficou parada, sem entender o que acontecia até ouvir o miado de Dinorá do outro lado da porta.

“Bom, como vocês são teimosos e impossíveis, resolvi trancá-los no quarto até se resolverem como adultos.”

- Alexia, eu juro que vou matar você, garota! – Gritei, socando a porta.

“Eu tenho até o início da noite, viu crianças?”

- Lexi! – Lana exclamou, brava. – Você me enganou! – Eu franzi o cenho, com sarcasmo. – O que é?

- Estou surpreso como você pode ser ingênua as vezes.

- Não fui ingênua.

- Foi sim. - Lana cruzou os braços, brava. – Ela não vai abrir a porta até nos resolvermos. Minha tia fez isso na única vez que nós brigamos na adolescência por causa da TV. Depois disso nunca mais brigamos.

- É, mas não sou sua prima. – Rebateu, rispidamente.

Me sentei na ponta da cama, a observando silenciosamente. Lana tinha o cabelo amarrado num coque e casualmente vestia short jeans e uma camiseta regata preta. Era possível ver algumas de suas tatuagens.

- Tem razão. – Murmurei, concordando com a cabeça. – E aí, quer jogar truco? - Lana revirou os olhos e sentou na cama também, mas longe de mim. – Eu falei sério quando disse que Alexia não vai abrir a porta.

- Só vim aqui para ver a Dinorá.

- Ela está bem, mas sente a sua falta. – Lana me olhou de soslaio. – Independente do que aconteça entre nós, não quero que deixe de vir aqui para visita-la.

Ela deu um meio sorriso, não muito confortável, mas tratando-se de Lana era alguma coisa.

- Eu não te odeio. – Disse, depois de um longo tempo em silêncio. – Você me tira do sério e acabo falando as coisas sem pensar. Não é do meu feitio, mas você... – E soltou o ar que prendia. – É como se você... Como se abrisse uma válvula de escape em mim, entende? Sei que estamos nos magoando, Ander. Só queria que as coisas entre nós fossem mais simples.

- Tipo sermos amigos? – Lana concordou. – É complicado. Sou muito gostoso, você não resiste a mim.

- Idiota! – E recebi uma almofada na cabeça em resposta, mas ela sorriu, e agora, de verdade. – Falo sério!

- E se fizéssemos uma aposta?

- Como assim?

- Vamos tentar ser amigos. Zeramos todas as nossas brigas, você fica com o Bruno e eu sigo a minha vida. – Lana me ouvia, atentamente. - Quem falhar, o outro tem que se afastar, mas para sempre.

- Para sempre? – Perguntou, receosa. – Mas...

- Sim, Lana. Quem falhar, tem que se afastar para sempre e admitir tudo o que sente e como sente.

- Tudo bem, eu aceito.

Quando Lana apertou minha mão, foi selado o acordo. Talvez aquilo não durasse uma semana, mas o radicalismo traria alguma coisa à tona.
 
Alexia acreditou na nossa reconciliação e abriu a porta do quarto meia hora depois. Lana precisou ir embora e não almoçou conosco, mas marcou um jantar com minha prima e seu futuro marido. Ah, esse momento eu pagaria pra ver.

- Vocês não se reconciliaram de verdade, não é? – Perguntou minha prima enquanto lavávamos a louça. Bom, me enganei, mas ao menos porta do quarto foi aberta.

- Mais ou menos.

- Como assim?

- Fizemos uma aposta. Vamos manter a amizade, zerar nossas brigas. Quem falhar, terá que se afastar para sempre e precisará admitir ao outro o que sente.

- Você está disposto a fazer isso dar certo?

- Sim. Acho que só desta forma conseguirei fazê-la admitir que me ama.

Lexi foi embora dois dias depois. No caminho, me contou sobre o jantar com Bruno e Lana. Resumidamente minha prima detestou o futuro marido de sua melhor amiga e como é incapaz de esconder o que sente, o jantar virou um pesadelo. Lana tentou contornar a situação, mas não teve muito sucesso e deixou Bruno e Lexi discutindo por quase 2 horas.

“Ele é um imbecil arrogante. Disse que acha Marketing uma piada, cheio de figurões e babacas.”

- E tu respondeu à altura, imagino.

“Eu perguntei para ele se estudar Administração por 4 anos trouxe alguma satisfação pessoal, visto que qualquer um estuda aquilo. Depois me lembrei que ele é playboy e terminei de pisoteá-lo. Administrar empresa da família, meritocracia pura, uau!”

- Ele é legal.

“Ah, pelo o amor de Deus. Cara sal algum, não sei como a Lana consegue suportá-lo.”

- Lexi...

“E ah! Ela me mandou mensagem hoje de manhã. Acho que os dois discutiram por minha causa.”

- Sério?

“Sim! Ela estava no trabalho e não quis me contar tudo, mas rolou até insinuação sobre terminar. Ele chorou e com isso Lana recuou. Uma pena.”

- Lexi, você as vezes é tão cruel.

“Eu sou justa. Vocês se amam e o palhaço quatro olhos é um empecilho.”

- É, mas a vida não é muito justa, Lexi... Infelizmente.
 
(...)
 
Com o nosso “acordo”, Lana e eu passamos a nos ver com menos frequência. Ela visitava Dinorá em horários alternados aos meus, evitado assim qualquer encontro. Comecei a me acostumar a ideia até que numa tarde em que sai mais cedo do trabalho, a encontrei no apartamento.

- Oi! Levei a Dino no veterinário. – Explicou, ao ver minha cara de surpresa.

- Aconteceu alguma coisa? Você nem me mandou mensagem!

- Não, consulta de rotina só! – Respondeu, calmamente. Fiz carinho na orelha de Dinorá, que ronronou em agradecimento, mas saiu da sala em seguida, nos deixando a sós. Me sentei no sofá, deixando algumas pastas na mesa. – Como você está?

- Bem. – Respondi, a olhando a rapidamente. – E você?

- Estou bem... Quer dizer, mais ou menos. – Ela se aproximou, encostando o joelho na minha perna. Quando teve minha atenção, corou, timidamente.

- O que foi?

- Eu preciso te pedir uma coisa. - Ah, não de novo, não. – Hã... Não sei como pedir isso, mas vamos lá! – Minha total atenção era dela. – Ontem deu um tipo de problema na fiação do meu apartamento, mas a maior prejudicada fui eu que moro no último andar. Estou completamente sem energia em casa. A sorte é que sempre como na rua ou na empresa, então não perdi muitos mantimentos. E eu...

- Sim. – Respondi, sem deixa-la concluir sua fala. Ela franziu o cenho, confusa.

- Sim?

- Sim. Você vai pedir para ficar aqui em casa, não? - Lana assentiu. – Minha resposta é sim.

- Tem certeza? Preciso de pelo menos 1 semana e meia. É o prazo estipulado pelo meu síndico.

- Você pode ficar o tempo que quiser, Lana. – Aliviada, me abraçou, espontaneamente. Quando pensou em se afastar, eu a segurei em meus braços bem forte.

- Obrigada. – Disse, agora me olhando fixamente.

- O Bruno não vai achar estranho?

Tentei ser o mais sutil possível em minhas palavras.

- Nós brigamos e ele foi para o Rio de Janeiro, ainda está trabalhando por lá e acho que vai demorar para voltar. Creio que até lá já estarei no meu apartamento. Pensei em você como último caso, mas não queria gastar dinheiro com hotel. E bom, também posso ficar mais pertinho da Dinorá.

- Sim, eu concordo. Posso perguntar o motivo da briga?

- Pensei que Lexi tinha contado.

- Me contou por cima.

Tá, não era uma total verdade da minha parte, mas também não era de todo uma mentira.

- Ah, nós fomos jantar num restaurante bem bacana, mas Bruno e Lexi não se deram nada bem, sabe? – Eu tentei conter meu riso. – Ela te falou dessa parte?

- Sim.

- Simplesmente desisti dos dois e os deixei se matarem. No final, eu e o Bruno fomos para a minha casa e discutimos, pois ele disse que me importo mais com uma amizade do que com o nosso namoro. As coisas ficaram meio feias e por fim, ele chorou e foi embora.

- Alexia se entra numa discussão, é para ganhar.

- Sim, eu sei! Por isso desisti. Senti pena quando ela falou que o Bruno não passava de um burguês mimado e arrogante. No queria que os dois se odiassem.

- A Lexi antes de saber que você era a garota da minha adolescência sempre dizia que a cota de aceitação com paulista se resumia a você. - Lana deitou a cabeça no meu ombro.

- Obrigada mesmo.

- Pelo o que?

- Por tudo. - Eu beijei sua têmpora e a aninhei nos meus braços. – Prometo que dessa vez não irei queimar o arroz.

- Assim espero, capitã arroz queimado.

- Cala a boca, idiota!

Abracei Lana e recebi um sorriso que infelizmente fez meu coração disparar forte demais, como desde a primeira vez que a vi.
Tamiris Vitória
Enviado por Tamiris Vitória em 06/01/2021
Reeditado em 09/01/2021
Código do texto: T7153726
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Sobre a autora
Tamiris Vitória
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Tamiris Vitória