Brigadeiro a flores - Cap. 8: Abre-se a porta do inferno

"Você?" Erva disse sem entender por que Gabriela Mendes estava em sua faculdade.

"Eu!" Gabriela disse se sentando na frente de Erva. "Hoje de manhã, quando entrei na faculdade, eu jurava que tinha te visto na sala ao lado, mas não tive certeza. E agora, você está aqui."

"Aaah legal! Quer dizer... você estuda aqui?"

"Estou de uniforme, bobinha!" Gabriela disse sorrindo apontando para seu conjunto impecável com uma bolsinha rosa choque. "Eu retornei faz dois dias da Europa. Eu tinha comentado na Brigadeiria".

"Ah, sim, mas eu não associei uma coisa com a outra".

"Nem eu podia imaginar, você está diferente". Disse a garota sem más intenções e Erva percebeu, então sorriu.

"Eu não estou de cabelo solto, nem vestida com uniforme de atendente."

"Verdade. Eu sinto muito."

"Pelo quê?" Erva perguntou sem entender.

"Seus pais devem ter te colocado de castigo, não é? Por isso você está trabalhando lá."

Minha nossa! Erva pensou e sorriu.

"Não, não! Eu sou bolsista aqui. Preciso trabalhar lá mesmo".

"Ah, entendi." Gabriela disse como se as coisas estivessem se encaixando na sua cabeça. "Nossa, como você consegue? Trabalhar e estudar. Você não cansa?"

Minha nossa 2! Erva sorriu de novo.

"Sempre, mas eu preciso, não é?" As duas sorriram sem mostrar os dentes. "Mas qual curso você faz aqui?" Erva mudou de assunto.

"Economia. Quarto ano!" Respondeu Gabriela tirando seu lanche da bolsa.

"Ah, você traz comida também." Erva ficou feliz de encontrar alguém parecida com ela em alguma coisa.

"Sim, eu preciso seguir uma dieta. Ontem, na Brigadeiria, estava nervosa com meu pai, e sai totalmente da dieta. O meu nutricionista criou meu cardápio e minhas empregadas fazem minhas refeições pensando milimetricamente nas calorias".

Não, definitivamente não é parecida comigo. "Entendi". Erva sorriu sem mostrar os dentes.

"Mas então, eu preciso continuar a faculdade por causa dos negócios dos meus pais. Minha mãe é dona de uma empresa de cosméticos na Alemanha, e meu pai é CEO de um banco aqui no Brasil."

"Entendi."

"Foi muito difícil conseguir entrar aqui nesta data do ano, mas os amigos dos meus pais conseguiram ajustar as coisas e encontraram uma vaga para mim".

"Nossa, complicado" Difícil??

"E parece que as pessoas aqui desistem da faculdade, então eles conseguiram argumentar". Gabriela falou em um cochicho.

"Não desistem na verdade." Erva falou sem pensar.

"Não?"

"Quer dizer... é que..." Erva hesitou.

"Pode dizer. Fica entre a gente! Somos amigas!" Gabriela falou sorrindo e isso aqueceu o coração de Erva.

"Amigas?"

"Sim, como... como..." Gabriela olhou em volta. "Você não tem amigos aqui?"

"Não. Eu sou bolsista, esqueceu?" Erva disse com um sorriso sem mostrar os dentes.

"E daí? Você é gente como qualquer outro." Gabriela aqueceu o coração de Erva mais uma vez. "Não tem outros bolsistas por aqui?"

"Tem, mas eu não sei quem são." Respondeu Erva. Olhando a cara de desentendimento de Gabriela, ela respirou fundo e explicou. "A universidade disponibiliza 3 bolsas todo ano. Quando eu entrei, mais dois entraram comigo, mas um cancelou a matrícula no primeiro dia, o outro, eu não sei quem é. Nos outros anos, entraram mais, mas também não sei quem são. Somos poucos e as pessoas daqui, bom, eles têm preconceito com bolsistas. Ficam zoando, julgando. Eu aprendi isso um pouco tarde, então as pessoas sabem que sou bolsista e não me incluem nas coisas. Os outros, ou já desistiram, ou souberam se misturar muito bem."

"Entendi. Bom, de onde eu venho tratamos todos como iguais. Agora, eu gosto mais de você do que desses que julgam sem te conhecer" Gabriela sorriu e pegou na mão de Erva, que correspondeu com um sorriso. "Sou sua amiga, você pode contar comigo para qualquer coisa!".

"Obrigada!"

"E pode me chamar de Gabi! Acho que eu nem me apresentei formalmente." Riu.

"Tudo bem. Sou Erva Dana!" As duas apertaram as mãos.

"Mas me conta, e sobre esses alunos não desistirem na verdade? Tem algo que eu precise saber desta escola?"

"Tem muita coisa! Mas, vamos indo, acho melhor conversar em outro lugar" Erva falou olhando para os lados. "O que vou te dizer, se alguém escutar, pode nos linchar aqui dentro." Disse em um cochicho.

"Credo!" Gabriela disse franzindo a testa. "Me deixa apenas ir ao banheiro, já venho e vamos, tudo bem?".

"Claro!!" Concordou Erva.

Erva deu um sorriso e terminou de comer sua marmita. Que garota simpática, totalmente diferente das pessoas daqui. Será que podem existir ricos legais? Claro que sim Erva, sem generalizar. É bom ter alguém para conversar aqui na faculdade, me sinto sempre soz...

Plaft, plaft, pla!

Os pensamentos de Erva foram interrompidos por um barulho de bandeja, copo, talheres, tudo caindo no chão. Por normalidade, Erva virou a cabeça na direção do barulho e, por uma fenda na multidão que se formava, ela viu do outro lado da praça de alimentação uma cena que, por um tempo, parou sua respiração: uma garota de cabelo liso sedoso, uniforme impecável e bolsinha rosa choque estava de frente para os F4 boquiaberta e com os olhos arregalados. Gabriela acabara de derrubar uma bandeja com copo de suco de morango e um prato de mousse de chocolate em cima do Bernardo, que estava com sua camisa branca, calça de couro e sapato camurça vermelho todos lambuzados com a comida e bebida caída.

"Me desculpa, eu..." Gabriela disse em uma voz fina, quebrando o silêncio mortal que fez após a cena e olhando fixamente para Bernardo.

Por instinto, talvez, o corpo de Erva se levantou e a fez correr até o outro lado, cortando as pessoas da multidão, tentando se aproximar cada vez mais de Gabriela. Eu devia ter falado para ela logo sobre eles. O que aconteceu?

"Desculpa?" Bernardo disse debochando. "Você sabe o quanto custou essa camisa? Essa calça? Esse..."

"Eu posso mandar lavar!" Disse Gabriela que percebeu o tom da voz de Bernardo que a amedrontou.

"Mandar lavar?" Ele pegou a bolsa rosa choque dela e, com fúria, jogou no chão. Gabriela abaixou a cabeça e parou de olhá-lo.

"Calma Bernardo, ela é uma menina linda, vai?" Disse Carlos, mas Bernardo ignorou.

Erva, preocupada em se aproximar, não prestava atenção na conversa dos dois, até chegar de frente para eles e ver Bernardo encarando Gabriela friamente e ela, tremendo, olhando para o chão.

"Você sabe quem fez esse sapato?" Gabriela acenou negativamente a cabeça. "Ele foi feito sob medida em Paris, só existem 3 no mundo, e todos são meus!"

"Desculpa... Eu só escorreguei, meu cadarço estava desamarrado, eu não te vi, eu..." Gabriela começou a chorar e o coração de Erva apertou de dor e raiva.

"Para de desculpas! Você sabe com que você está falando? Você sabe o que eu irei fazer com vo..."

"CHEGAA!!" Erva gritou, ofegante, com a mão ao lado do corpo fechada em um punho, e deu um passo para o centro da roda que se formara no início.