AVALIAÇÃO DE COISAS, PESSOAS E O AMOR

AVALIAÇÃO DE COISAS, PESSOAS E O AMOR

Há um princípio reinante entre as pessoas que as coisas inservíveis, inúteis, estéreis, infrutíferas, devem ser descartadas. Isso é bom pois não podemos nos tornar acumuladores de inutilidades. O que precisamos é analisar se aquilo que é inútil para nós, não pode ser utilíssimo para outras pessoas. Nesse vácuo, entra um mercado cada vez mais crescente de objetos usados.

Um celular usado, um aparelho de som antigo, roupas em bom estado, móveis antigos, tudo tem o seu valor e alguns, inclusive acabam agregando valor por ter sido usado por alguma celebridade. Na semana que passou, li a respeito de um iate do cantor Roberto Carlos e que está sendo vendido opor cem milhões de reais, sendo que foi adquirido pelo Rei da Jovem Guarda por vinte e cinco milhões de reais. Nesse caso, o fato de ter sido usado por alguém importante agrega valor ao iate, portanto, uma valoração subjetiva na qual o objeto em si não conta muito.
Valorização é algo que precisa ser melhor entendido. Quanto custa um quilo de arroz ou um quilo de camarão. Nas mãos de um expert em gastronomia, podem alcançar valores centuplicados. Um prato assinado por um grande Cheff pode alcançar mais de cem dólares, uma simples folha de papel com texto de reconhecido escritor, uma pequena tela assinada por um famoso pintor, não guarda qualquer relação com o valor material. Há uma valorização subjetiva que depende de quem está por trás daquilo que está sendo avaliado.

Quem adquirirá uma meia de defunto? Em são consciência, ninguém se interessaria em usar a meia de uma pessoa morta, mas pode ser que a mamãe saudosa do filhinho que morreu ainda bebê, guarde com carinho, o sapatinho de tricô que pertenceu ao filhinho que partiu com poucos dias de nascido.

Em suma, no campo das coisas o subjetivismo prevalece. Será que em relação às pessoas a valorização também é subjetiva? A resposta é positiva. Primeiramente os critérios de avaliação são diversificados dependendo de uma série de fatores que não tenho condições de elucidar por falta de conhecimento profundo da psiquê humana. O amor que normalmente se espera de cada um tem a ver com a capacidade individualizada de cada um amar. É por isso que um dos mandamentos diz: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Até em relação ao Criador, não há um marco estabelecido alheiamente à capacidade de amar. Diz o texto: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma , e de todo o teu entendimento (Mt.22.37-39).

Obviamente que esses contornos (todo o teu coração, toda a tua alma e todo o etendimento) e que limitam o ser humano, são balizados pela mente humana sujeita a julgamentos e conceitos que restringem ou ampliam a capacidade de amar. É bem por isso que o mandamento divino exige um amor em relação ao próximo que tenha por paradigma o amor próprio, ou seja, o amor a si mesmo.

Fala-se, ainda, no amor incondicional, ou seja, um amor desinteressado e verdadeiro e que seja direcionado à pessoa, independente da classificação que a sociedade.

Importante também, pensar sobre as armadilhas da autoavaliação. Somos parcimoniosos e indulgentes conosco e superexigentes em relação ao outro. As escrituras sagradas recomendam que cada um considere o outro melhor do que a si. Mas a realidade mostra que há um sentimento oposto, ou seja, consideramos os outros piores e inferiores a nós.

Eu trabalhava numa cidade do interior como juiz de direito. Certo dia, uma senhora idosa foi até o Fórum e queria falar a respeito do seu interesse de transferir o filho de uma prisão situada numa cidadezinha pacata, para a cidade em que eu atuava. Ponderei com ela que seria aconselhável que ele permanecesse onde estava já que não estaria sujeito a riscos de rebelião, violência de outros presidiários. Ela aguardou que eu acabasse de enumerar as razões para a não transferência e desabafou: __ “Minha preocupação são as más companhias.”

Fiquei estupefato com a afirmação daquela idosa, pois o encarcerado, possuía vasta ficha criminal, assim, por pior que fossem as demais companhias, talvez, poucas seriam piores que o filho dela. Mais tarde, pensando bem, minha mente acendeu uma luz. Ela é mãe, por isso, seu amor extrapolava quaisquer objeções racionais que pudessem emergir na crítica das outras pessoas.

É muito complicado tentar amar incondicionalmente e, ao mesmo tempo não sermos vitimizados pelas armadilhas desse amor. Manda a experiência que a razão deve estar sobre a paixão tal como a cabeça está acima do coração, portanto, quando concebemos um “check list” como condições para o exercício desse amor, estabelecemos um amor que nada tem de incondicional.

Finalizando, é necessário desenvolvermos a capacidade de amar o próximo e muito mais que isso, a capacidade de não colocarmos obstáculos que funcionam bem mais como justificadores para a não obediência do mandamento de amar ao próximo. Trata-se algo dificílimo, porém, possível quando percebemos que o amor de Deus, este sim, incondicional, porque nos amou primeiro e sem exigir nada para nos amar, apenas exige uma série de coisas para permanecermos no seu amor.