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Eu sei, mas quero insistir...

Eu sei, mas quero insistir...
Sei que família é uma instituição falida e que seus componentes às vezes gastam muito verniz para segurar a onda das aparências, mas quero insistir na necessidade de pertencer. Isto: ser importante para alguém e sentir que o semelhante é importante para nós ainda é uma embarcação sentimental imprescindível. Nela fica mais fácil ter equilíbrio na agitação das ondas e na empolgação ante a serenidade das águas que permeiam nossas vidas.
Pertenço, logo existo.

Eu sei, mas quero insistir...
Sei que o trabalho tem sido um meio para o homem explorar outro homem e para a mulher assujeitar outra mulher, mas quero insistir na importância de fazermos do trabalho um jeito de participar na obra da criação, de interagirmos com a natureza e com a humanidade. É elementar: ao produzir para o outro estou produzindo para mim mesmo e vivencio o valor ético da reciprocidade essencial à manutenção coletiva da vida.
Trabalho, logo me faço.

Eu sei, mas quero insistir...
Sei que a cultura está sendo tratada como uma indústria, empregando profissionais que produzem mercadorias com o único objetivo de angariar cifrões, mas quero insistir na urgência do refinamento do espírito. Prefiro o belo perseguido pelo artista e o saber popular elaborado pelo povo às peças venais dos marqueteiros culturais. Nada substitui a experiência estética que me transforma por calibrar meu modo de sentir e de pensar.
Cultuo o belo, logo me singularizo.

Eu sei, mas quero insistir...
Eu sei que a política encontra-se fagocitada pelo econômico e que o partidarismo engoliu o compromisso social; sei que os políticos profissionais nos tratam como idiotas; que eles agem como se estivessem acima do direito, da ética e da moral, mas eu quero insistir no sentido originário da política, a arte de se envolver com os modos de exercício de poder que visam à garantia da justiça, da igualdade, dos direitos e da liberdade.
Participo da organização da pólis, logo sou portador de poder.

Eu sei, mas quero insistir...
Eu sei que os bens humanos, materiais, simbólicos e políticos têm sido acumulados em pouquíssimas mãos, mas quero insistir no valor da cidadania. Bens humanos usados para desumanizar, bens materiais empregados para pauperizar, bens simbólicos mobilizados para embrutecer e bens políticos aplicados para alienar só servem para concretizar nossas misérias espirituais.
Participo da produção e apropriação de riquezas sociais, econômicas, culturais e políticas, logo me faço cidadão.

Eu sei, mas quero insistir...
Eu sei que as pessoas se aproximam entre si por puro egoísmo e que elas nomeiam suas ligações de coleguismo, amizade e amor. Mas essas são pseudo-relações. Na falsidade da simulação e no teatro da dissimulação, acabamos rifando a ética dos vínculos, a autenticidade dos encontros e o fair play das relações as quais deveriam ser baseadas no respeito e na sinceridade. Sei disso, mas quero insistir que podemos ser companheiros uns dos outros, e nada mais.
Amo por amor, logo me realizo e faço realizar.

Eu sei, mas quero insistir
Eu sei que a verdade anda exilada de nossas mentes, corações e espírito, mas quero insistir no princípio da liberdade. Sim, a mentira é uma forma de escravidão. E na mentira, nada, nada faz sentido: a pertença não dá segurança, o trabalho não garante  estabilidade, a cultura não cultiva, a política descuida do bem comum, a cidadania não abre a cidade e nossas interações humanas deixam de ser nutritivas.
Eu sei de todas essas coisas, mas quero insistir na idéia de que para sermos plenos precisamos de tudo isso. Basta-nos um pouco de esforço no sentido de saber, querer e realizar.

A vida é uma só e curta demais para ser medíocre! Carpe diem, colha o dia e viva intensamente todas as dimensões daquilo que é e pode vir-a-ser.
Wilson Correia
Enviado por Wilson Correia em 12/10/2007
Reeditado em 13/10/2007
Código do texto: T691193

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Sobre o autor
Wilson Correia
Amargosa - Bahia - Brasil
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Wilson Correia