Anjo Menino,
há silêncios e silêncios. 
Neles nos conhecemos e 
reconhecemos, no chão, 
penas que eram asas. 
Serafins depenados são mudos,
anseiam por palavras,
estas que nos faltam à boca
perdidas no céu escuro,
a espera dos nossos vôos angelicais.

Quando depenados, Anjo Menino, 

somos impotentes. Por agora aguarde!

Já não nos erguemos do solo,
a lira já não é tocada traquejante,
não se ouve as cordas vocálicas. 
Os olhos fitam um infinito invisível, 
os ouvidos não decifram novos sons. 
No tatibitate dos nossos pensamentos 
refazemos o instante do pouso forçado,
vasculhamos as áridas paisagens,
corremos rumo ao sol, 
quando, por força inexplicável,
somos derretidos a um passo da criação. 
À pele fina, fria, rugosa  e ressequida 
falta o viso da vida e, às costas, 
aguardamos nova plumagem.
Aterrados em nós mesmos, 
vivemos
parte da jornada íntima, intransferível
e incompreensível para maioria dos mortais. 
Sei que desse calar visionário, 
as cores se transmutam 
negras no dia, brancas na noite.
A inversão dos valores berra e cala.
É preciso recolhimento nessa curta passagem.
Canta e chora a  troca das plumas -  inexorável! 

Não te assustes, Anjo Menino, 
assim estas  coisas acontecem.

 

Divina Reis Jatobá
Enviado por Divina Reis Jatobá em 14/07/2007
Reeditado em 07/07/2008
Código do texto: T564625
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