Resíduos

Adoro quando discordam de mim. Discordar significa que leram algo que eu escrevi. Mesmo que não entendam, eu curto quando alguém me lê.
 
Dona Menô é minha heterônima. Vou tentar explicar a razão de ela existir.
 
Militar pode vestir uma sarongue e soltar a franga no bloco das piranhas? Até pode, mas se a sua turma vir, vai dar em prisão... Padre pode fumar e beber? Até pode, mas se o clero o vir num barzinho em Copa, vai ter um chilique. Uma ginasta pode encarar uma feijoada? Claro que pode, desde que seu personal não a encontre no mesmo restaurante... Os tementes a Deus podem mandar alguém à merda? Claro que sim! Desde que na missa de domingo todo mundo se beije e se abrace...
 
Um médico pode ser gente normal? Ele é gente normal! Talvez algo anormal, pois não é qualquer um que aguenta presenciar  a morte, com todos os seus requintes, e comer um misto quente depois. Mas médicos são gente normal, sim. Então eu faço o resumo do que sou hoje:
 
Sou a doutora Leila, que cuida, que trabalha e que salva vidas. Profissional normal. Competente? Claro! A gente estuda pra isso! Não é favor nenhum! É obrigação! Estamos aqui como profissionais. A única diferença é que eu faço de minha profissão a continuidade de minha personalidade e educação. Se isso é legal, só tem a ver com minha formação, não com a medicina em si.
 
Também sou a Leila que vai ao mercado, que paga contas e briga com o gerente de qualquer merreca de lugar, e que barganha até na feira.
 
Amores? Claro. Bem realzinho, nada de lance virtual. Eu vivo a Internet porque é nela que eu construo um trabalho muito bonito e diferenciado.
 
Em outras horas eu sou mãe, um pouco de pai, às vezes irmã. Do pouco, do muito pouco que ficou de mim. Sou parente de quem me tem como parente, mesmo que sejam amigos.
 
Sou normalzinha até onde acham que sou normal. Por falar nisto, pessoas normais demais têm minha compreensão, mas não por isso, minha admiração.
 
Saber quem é alguém e criticar alguém, demanda conhecimento, pesquisa e, além de tudo, inteligência. Quem está habituado a ler cinco minutos sobre alguém e logo sair fazendo críticas, sem ter conhecimento de causa, terá cinco minutos de fama, mas inevitável desprezo de quem lhe é superior.
 
Quantas pessoas gostam de Drummond? Muitos... Talvez tenham lido uns três poemas dele - fora os que atribuem a ele - e acham que são profundos conhecedores do autor, de sua obra e. principalmente de sua vida... Quantos "estudaram" Drummond ou leram algum livro inteiro dele?
 
O que Drummond achava de sua obra ao final da vida? Heim?... Como ele se sentia? Alguém conhece a evolução dos sentimentos dele? Não? Só sabem que ele tinha óculos e falava "Mundo, mundo, vasto mundo" e que no caminho tinha a tal pedra em seu sapato?...
 
Ninguém conhece o homem do trem, mas um dia leram sobre o homem atrás dos óculos e bigode - ou nem isso. Ele falou de bundas, de amor, de Deus, do país.... E qual é o pouco de Drummond restou em cada um?
 
Se de tudo fica um pouco, por que não ficar um pouco de mim na vida de quem me lê? Mesmo que seja resíduo tudo o que escrevo. Mesmo que resíduos sejam os meus leitores.

 
 
 
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 12/02/2009
Reeditado em 07/10/2009
Código do texto: T1434698
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