HELOÍSA

(“Eu sempre soube que não pararia em mim”- Marina Colasanti)

Dia primeiro, foi quando você chegou. Não poderia ser diferente; você vem antes de tudo. Primeiro a semente, depois a flor.

Sim, você era uma sementinha. Um grão. Tornou-se carne aveludada, atada em mim por uma haste-cordão. Germinou, rompeu o solo com a liberdade das flores nascidas por entre as trincas de um muro. Nenhum bisturi rasgará o laço do nosso buquê.

Comprei um presente pra você: um girassol, querida, a sua flor preferida, mesmo sabendo que, daqui a pouco, de tanto amor, o pobre girassol estará em pedaços pela casa, despetalado em todos os vão deste lugar. Eu me zangarei com a bagunça que você fará, mas no instante seguinte, eu rirei da minha impotência de não conseguir conservá-lo por um dia ou dois.

Mas você é assim, minha flor: você derrama o amor, espalha a luz por onde passa, como naquele conto infantil em que o chão era marcado para que não houvesse incertezas. Você pintou o meu coração com o amarelo de Van Gogh.Você sabe quem é Vicent Van Gogh, falou-me dele, outro dia, com a maior intimidade. Falou-me dos seus girassóis.

Heloísa, você é o meu sol e eu deitei a minha alma em seu jardim miniatura.

Minha terra era dura e você a semeou. Plantou sorrisos. Dengos.Dentes de leite.A candura de sua pele.Histórias mirabolantes.Desenhos fascinantes.Bilhetes de amor e bilhetes malcriadinhos. E você regou, Helô!

Sabia que quando venta, sobe o seu cheiro de filha que eu tanto amo? Eu sinto uma paz sem fim.

Quando a noite chega, deitamo-nos à sombra de girassóis imaginários, cerramos os olhos e nos abraçamos. Afastamo-nos do mundo e nos tornamos uma só novamente. Todo resto é nulo: as cores (mesmo as de Van Gogh), os sons... o instante para. Eu existo só para lhe amar e para lhe cantar as cantigas que me adormeceram um dia; eu só existo para lhe contar as histórias que ninguém nunca me contou na cama, mas eu as conto para você, meu amor, meu amor!

Pássaros e borboletas invadem o nosso lar e espiam o nosso sono. Eles são cuidadosos em não nos acordar.Eles só estão em busca de uma pétala de amor, do pólen que você deixou sobre os móveis, pelos corredores, debaixo do sofá. Eu sou um passarinho e saio do casulo toda a dias metamorfoseada, por sua causa.

Você tornou o meu cobertor mais curto e a minha risada mais longa.

Desejo que se abram em perfume todos os girassóis deste mundo e que eles lhe atapetem os caminhos, que seus campos sejam aturdidos de delicadeza. Os girassóis de vida breve invejam sua força, minha menininha.

Heloísa, você crescerá, brotará fora de qualquer estufa, eu lhe prometo.

Desabrocha, minha florzinha. A primavera é sua. Feliz seis aninhos!

(Maria Shu- 01/10/12)

Maria SHU
Enviado por Maria SHU em 01/10/2012
Código do texto: T3910263
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