Meu pastor e anfitrião Sl. 23 1-6

Salmos 23 1-6 (ACF)

¹ O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.

² Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas.

³ Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.

⁴ Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.

⁵ Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.

⁶ Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

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Podemos colocar o Salmo 23 em diversas características, mas a óbvia seria com certeza uma expressão de confiança do salmista para com Deus. Nesse caso temos o salmista Davi trazendo duas ideias neste Salmo:

1ª Deus como Pastor

2ª Deus como um anfitrião em meio ao Deserto

A ideia do Pastor.

- A ideia de Pastor não é tão suave assim. Davi já tinha dito a Saul que, para ser pastor era necessário enfrentar feras, e Golias seria mais uma delas. Vemos também, Moisés sendo uma pessoa truculenta e áspera. No oriente médio no entanto, era um termo para um grande Rei. HAMURABI, o grande ASHURBANIPAL e até mesmo Ciro (Is. 44.28) receberam a designação de Pastor, bem como algumas divindades. Tudo isso para concluir que “pastor” denota autoridade e poder.

Pastor significa senhor soberano.

Chega-se na ideia de que o pastor é o senhor e as ovelhas seu povo, haja vista, ovelha que não possui pastor está em perigo. Ezequiel 34 fala sobre os pastores que negligenciam seus rebanhos, mas Deus nunca negligenciou seu povo: mesmo não tendo nada no deserto, ele providencia tudo, e ainda promete uma terra, como diz em Dt. 8.9 “ terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela”.

A ideia do Anfitrião

- Percebemos alguns detalhes no Vs 5 que chama a atenção para o costume da hospitalidade que era prestada quando se recebia visita. Preparar mesa, banhar a cabeça com óleo e encher o cálice eram premissas executadas na recepção de um forasteiro (visita), que nessa época valia muito mais do que os próprios filhos (A exemplo de Ló). Percebemos em alguns documentos históricos que a hospitalidade era praticamente um sacramento. Na bíblia temos ilustrações sobre tal costume: 1-discípulos de Emaús, 2- parábola da visita a meia noite, dentre outras.

Aqui temos Davi trazendo uma perspectiva de um Deus que o recebe como visitante, e que o atende, dando tudo de melhor, com todas as honrarias que ele faz jus na posição de visitante. Direito a mesa, banho de óleo e taça cheia.

Exegese do Texto

Sl. 1a – O Senhor é meu Pastor

Em que se fundamenta a certeza de tê-lo como pastor? O fundamento geral desta convicção reside na aliança de Deus com Israel, cujas promessas cada membro verdadeiro e vivo da Igreja tem o direito de aplicar a si mesmo. O fundamento especial reside na experiência pessoal , como a que Davi desfrutava em tão abundante medida.

Meu pastor denota relacionamento. A experiencia diária com ele demonstrará teu nível de relacionamento, proporcionando a intimidade relativa entre pastor/ovelha.

Sl 1b – Não querer/faltar nada - לא חסרת – lo haser

Temos aqui duas palavras apenas para indicar a ideia do texto em questão. Em Dt. 9.8 temos o mesmo “lo haser” sendo traduzido por não me falta nada. Em Salmos 34.10 aparece o mesmo lo haser com a ideia de que os que a Deus buscam, não querem nada mais. Fica aqui uma lição: Aqueles que tem a Deus não precisam de mais nada. Tem tudo, possui tudo. Nada nesse mundo satisfaz mais que a presença de Deus. Ele é suficiente.

Sl 2a – Deitar-me faz em verdes pastos.

- Ovelhas comumente pastam no deserto (etimologicamente, midbār), terra que recebe chuvas muito pouco para apoiar uma população estabelecida e sustentar a agricultura, mas cresce grama suficiente para apoiar bandos que mantêm em movimento. É o território que a comunidade pode dar ao luxo de alocar para ovelhas. Assim, a tarefa do pastor no deserto é achar as pastagens para o rebanho. Fazer com que o rebanho deitar-se lá em vez de simplesmente alimentar sugere ampla provisão. Isso implica que eles comeram e estão satisfeitos, e não têm necessidade de passar a procurar mais grama: esta pastagem irá fornecer a próxima refeição, também.

- pastagens aqui é “na’ah” que é comumente traduzida em algumas passagens da bíblia como habitação, morada. A ideia que se tem é que o pastor no deserto estende a sua tenda e proporciona morada para as ovelhas. Fica claro perceber isso em jo. 1 quando diz que o verbo se fez carne e habitou “construiu tenda, tabernaculou, estendeu sua tenda”. O pastor estende no deserto sua casa, e nela as ovelhas habitam. No deserto dessa vida, o pastor nos levara para sua moradia, nos fazendo descansar e regozijar-nos em sua presença.

- דֶּשֶׁא , deshe ou erva verde, refere aos primeiros brotos de vegetação da terra, difere da erva madura pronta para a ceifa, que é expressa por uma palavra diferente - חָצִיר , hhatzir. Ele apenas não constrói uma tenda no deserto para nós, mas o alimento é novo. O alimento é fresco. O alimento é saudável.

Sl. 2b – guia-me mansamente a aguas tranquilas

- Guia-me (nahal) indica alguém superior levando alguém inferior. Nesse caso, faz-se necessário ser guiado por Deus, independente se for no deserto ou em pastos verdejantes. Já nos diz a canção do nosso hinário “onde guiar-me meu senhor, eu seguirei por seu amor, é tua mão que me conduz, por mim ferida sobre a cruz. Guia-me sempre meu senhor...”

Se permita ser conduzido por Cristo. O pastor oriental não conduz o rebanho diante dele, mas vai antes do rebanho e os conduz. Isto denota um horizonte a ser seguido. Existe alguém que me conduz. Jesus é meu horizonte. Meu norte. Meu direcionamento.

- o pastor além de conduzir a pastos verdes, conduz a aguas paradas (tranquilas). No deserto, o local mais apropriado para encontrar aguas é nas rochas, onde o sol não a faz evaporar. Como diz certo autor, o pastor conduz as ovelhas as aguas que ficam escondidas nas rochas. Sabemos que esse conceito nos emite a ideia de cristo. Água da rocha. Ele nos leva a beber Dele (Jo 4).

Sl. 23.3a – nephesh yeshovev נַפְשִׁי יְשֹׁובֵב retornar a vida, voltar a vida

- A petição do salmista é literalmente “reaviva-me”. Essa tradução é feita pela hebraísta Teresa Akil, em seu livro Palavras Exegéticas. Segundo a professora Teresa, Davi parece precisar voltar a vitalidade de outrora. Ele precisa viver os momentos de alegria que vivenciou num período passado. O fator determinante aqui se concentra no “retornar”, “voltar”. Ele clama para que o pastor o faça viver as mesmas experiências de antes.

Um pequeno link com Habacuque.

- A palavra avivar que aparece em hab. 3.2 é “chayah”, derivada da raiz “chavar” que significa “respirar”. A ideia central dessa palavra é então “voltar a viver”, “reavivar”.

Só existe possibilidade de avivamento para aqueles que estão mortos: ex. Ez. 37, um exemplo claro de avivamento. Mas no texto de salmos a ideia de avivamento é diferente, pois nesse caso o salmista está fraco, e precisa urgentemente revigorar suas forças, e seu pedido é “faz-me retornar a vida”.

• O que nos pode enfraquecer?

1- as dificuldades;

2- as perseguições;

1 - Dificuldades

1Sm. 17.45 “ Davi pois disse: tu vens a mim com espada e com lança, mas eu vou até você em nome do senhor dos exércitos”.

- nas batalhas, todo vassalo tinha um escudeiro. Este tinha o objetivo de levar as armas do homem de guerra. Percebemos isso quando Davi no salmos 142.4 diz que “ao olhar para sua direita não encontrou ninguém para o ajudar, nenhum refúgio tinha”. Na batalha contra Golias, o agente ativo da história não é Davi e sim Deus. O guerreiro não é Davi, mas sim Deus. Davi é apenas o escudeiro que comportava os equipamentos que Deus necessitaria para derrotar Golias. A dificuldade poderia enfraquecer Davi naquele momento, mas o Deus da guerra revigorou as suas forças e o entregou Golias.

2 - As perseguições

1sm. 19.18 “assim Davi fugiu e escapou e veio a Samuel a Ramá, e lhe participou tudo quanto Saul lhe fizera, e foram ele e Samuel e ficaram em Naiote”.

- Ramá = colina, lugar alto

- casa dos profetas = naiote = navar = habitar

Perseguiram Davi, mas sem sucesso tiveram que retroceder porque diz as Escrituras: "se por um caminho saíram adiante de ti, por sete caminhos fugiram”.

Sl. 23.4 Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temeria mal algum pois tu estás comigo, a tua vara e teu cajado me consolam.

Esse vale representa momentos sombrios que vivemos. Nas imediações de Ispaão (ou Ispaã) há um vale notável, estéril, sombrio e destituído de água, que é chamado de vale do anjo da morte. O salmista refere-se a essas águas profundas e rapinas selvagens e sombrias, que abundam nas montanhas da palestina, cujos lados rochosos estão cheios de cavernas e moradas de feras de rapina. Muitas vezes é necessário que o pastor guie seus rebanhos através desses perigos e desses desfiladeiros, e é sempre perigoso até mesmo para o próprio pastor. Não há referência aqui à própria morte, mas ao perigo da morte vêm muitas vezes vivenciados na vida.

Nesse vale escuro há uma grande probabilidade das ovelhas se desviarem pelo fato delas terem um senso de ótica muito debilitado durante a noite. Logo, durante o vale a sombra da morte a ovelha só conta com duas possibilidade para ela atender uma ordem do pastor:

1 – através da voz.

2 – através do toque do cajado.

Sl. 23.5a – preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos

O cenário agora já não é mais o campo com as ovelhas. Mas se tem a ideia de uma mesa posta provavelmente no palácio do rei. No oriente, o anfitrião era obrigado não só a entreter o hóspede, mas a protegê-lo de seus inimigos.

Sl.23.5b – unge minha cabeça com óleo

Esse óleo significa aromas, perfumes.

Sl.23.5c – meu cálice transborda – literalmente taça cheia

Aqui temos um sinal de abundância.

Sl 23.6 - O Salmo termina com um coro cantado pelo salmista, afirmando categoricamente que, tendo Deus como pastor e como anfitrião, a bondade e misericórdia seguirá todos os dias.

Bondade liga diretamente com o pastor, enquanto a misericórdia ao anfitrião.

Mas não somente isto, o salmista decide tomar uma atitude que serve de norma para nós outros: Habitar na casa do Senhor por longos dias. Isto significa, não apenas conglomerar com irmão em comunhão a Deus no Templo, mas ter a presença de Deus habitando dentro de nós por longos dias, até a morte.

Deus abençoe e boa reflexão.

Lembrando que esse é apenas um esboço reflexivo.

Fique a vontade para pensar mais sobre esses pontos e contribuir com um pensar mas aprofundado.

Jefter Souza

Jefter Souza
Enviado por Jefter Souza em 29/02/2024
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