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Mickey Conta e a Minie ouve!

Jardim do Éden

    "Desculpe-me as feias despedaçadas pelo vento, desbotadas pelo sol e defloradas pelo tempo, mas quantas Florisbelas de pétalas suaves e tenras pelo viço da juventude minhas vistas veem e as minhas mãos tocam! Flores semeadas, colhidas a dedo e bicadas com extrema docilidade, são irrestíveis aos beija-flores machos." - palavras de um surpreso, sugador e polinizador Beija-flor, ao jardim denominado Harém.
          "A poligamia é algo longevo, sustentável e saudável à beleza, tanto quanto   necessário a autoestima. Só quem vivência-a pode dizer." - rodopiando feito um lobo insano em dias de lua cheia, completou pasmo. Estupefato.


Um conto Filosófico Marxista
              Quando tomei conhecimento que meu sonho se realizaria, apressei-me em fazer os primeiros ensaios. O primeiro deles foi ficar de quatro, engatinhando feito humanos e sair berrando, como um bezerro desgarrado, o que deveras eu era. Bezerro modo de dizer, porque era um sacudo de reserva maior.
       Chamei o meu dono, ou melhor meu algoz e pedi que trouxe-me urgente um kit contendo um cincerro, queria ser identificado e ouvido à longa distância; uma argola parecido aldraba de portão de castelo para pendurar no nariz, um aguilhão pontudo, para usá-lo em minhas ancas, em caso d'eu fazer birra quando posto em juntas tracionando o carro carregado, uma marca chancelada com os iniciais do nome dele, obviamente de meu proprietário.
      Pedi também que me trouxesse um par de chifres bons, daqueles que impõe respeito na manada; e por fim, um harém de vacas. Muitas vacas para o meu deleite o ano inteiro. Inicialmente, este foi o meu pedido.
             Na etapa posterior, a qual já exercitara o que eu queria para o futuro, fui para o pasto todo garboso, de maneira que não cabia em mim. Concordo plenamente que estava todo desajeitado, pois sair de uma vida cômoda, caminhando sobre duas patas, batendo cartão numa renomada empresa, para ser um bovino garanhão puxador de carro, não é para todos.
Por outro lado, realizava-me olhar aquele hárem prostituido, o qual eu dominava, o único macho dominante rompedor, multiplicando os bens do patrão. E para mostrar serviço e dizer porque estava ali, subi um cima duma novilha úmida e tenra, suava feito panela de pressão e após meia hora de batalha entre o consumismo e a pobreza, berrei para o meu proprietário que observava o meu aguerrimento em prol de sua riqueza: " tá empregnado as minhas digitais em sua nova patrão".
    Ao que ele respondeu: " os olhos engordam o bolso do patrão" . Rimos até; ou melhor, ele riu e eu berrei. A vaca, mocinha nova, primeiro cio, por sua vez, olhava-me de soslaio, como quem diz": esse fez o serviço direito; era tudo que eu queria. O outro, coitado, velho, já não dava mais no couro. Aliás, nem sei porque o patrão vai mantê-lo aqui, comendo capim, bebendo água da fonte; e como não bastasse, aposentado. Muito ajuda, quem não atrapalha."
           Era noite de lua cheia e assim como eu, rodeada de estrelas. Dei um cheiro nela, cochichei alguma coisa em seu ouvido, talvez um muito obrigado por me fazer feliz, e caminhei em direção à outra que estava em ponto bala; expressão muito usada por mim, quando andava sobre duas patas.
  Ao lado, a pastagem estava meio amarelada, pobre, solo desmineralizado e povoado por um gado sem brilho, insosso, insípido e sem a menor perspectiva de dias melhores. Vez para outra, uma vaca esvaziava a boca, deixava de ruminar e mirava o horizonte.
                     Aluada, soltava um berro em sinal de protesto, fato que rapidamente era abafado pelo detentor do rebanho. Embora não tivesse nada com a vida deles, queria passar uma temporada com eles, para saber do que se tratava. Sempre fui curioso e intrometido em potencial. Bisbilhotar é comigo mesmo.  Mas não só isso: gosto de poder, dominar, fama, berrantes me saudando e holofotes iluminando minha essência; e nem imagino ser prisioneiro, trancafiado num pasto, recebendo tudo. Sou representante das manias, liberdade e grandezas. O que poderia fazer àquela manada feliz; porque será que a riqueza caminha ao lado da pobreza? Por um momento quis ser Maquiável e adentrar àquele campo, apenas para obter tais respostas para minhas perguntas; as quais, aliás não são poucas.
                  Parei de bisbilhotar o quintal alheio, meneei negativamente a cabeça e retornei ao meu posto. Se lá impera a infelicidade em pasto minguado, do lá de cá as coisas estão viçosas, chamativas e ricas. Fui ter com Briosa, a mocinha efervescente, disse para ela, que dormisse o sono dos nobres, que em breve, assim que os galos despertarem, seria a vez dela. Completei dizendo que sou socialista convicto e dou oportunidade para todos; desde que sejam fêmeas e boas reprodutoras. Tenho que mostrar, não números, mas uma safra de novilhas e bois qualificados para o patrão. Ela respondeu-me, dizendo que sentiria uma inútil, uma estúpida cúmplice, se por acaso, o nosso pasto viesse ficar, como o pasto vizinho. Sorri e repliquei ao pé da letra, que aqui tem e sempre terá, um líder cumpridor que faz. Fomos dormir. Eu particularmente, ruminei à noite toda o que ouvira de Briosa. Nem só de subir, descer e enxertar a comadre, tomar água e pastar, vive e pensa um novilho reprodutor. Pelo menos, é o que penso e faço; até quando eu não sei, porque minha raça é salafrária e desleixada.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 03/06/2019
Reeditado em 03/06/2019
Código do texto: T6663745
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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Mutável Gambiarreiro