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COMIC CONSPLAY.

- Olha lá, que ridídiculo. 36 anos nas costas e se vestindo como desenho.

-- É uma série.

- Que?

-- Uma série. É uma personagem de uma série.

- Qual?

-- "Game of Thrones". Mas também já veio ano passado de "Anos Incríveis". Ano retrasado de "Friends" e nos dez anos antes veio de alguém do "Chaves".

- Viu? "Game of Thrones", tem personagem que morre, mas revive, tem dragão, tem um anão que manda na porra toda, é desenho, igualzinho "Caverna do Dragão".

-- Você nunca quis ser alguma personagem também?

- Eu? Hahaha, eu tenho mais o que fazer, não fico brincando enquanto a vida passa não, ó, boleto, boleto, boleto velho, boleto novo. Eles pelo menos tão ganhando pra passar esse ridículo?


-- Não. Pelo menos a maioria não, fazem por amor.

- Amor é? Sabe o que eu já fiz por amor?

-- Não, o que?

- Boquete. Ninguém faz essa merda por querer não, faz porque é troxa. E sabe o que eu ganhei?

--  ...

- Conta pra pagar e má fama no bairro.

-- Mas, eles estão felizes. Olha pra eles.

- Tudo fingimento. Isso aí, depois chega no Instagram e faz post que falando que ta triste. Tooooda vez. Mas, nas fotos, ta lá, maior perfeição. Aposto que nem a louça lava.

-- Mas, estão vivendo o momento, do jeito deles. Isso é bonito.

- Bonito? Cara marmanjo, barbudo  desses, vestido de Pokemon, Digimon, Ultramon, sei lá? E aquela? Daquele tamanho querendo ser a Elsa da "Frozen". "Let it go" daqui, minha filha, seu tempo já passou, deve ter o que, 50 anos? Minha mãe com cinquenta anos tava na beira do tanque ou do fogão fazendo bolinho de chuva a essas horas.

-- Já que entende tanto de desenhos, pense que: São crianças. São eternas criancas que não tem poder sobre os hormônios . Os pelos crescem, orelhas aumentam tanto quanto nariz. Peitos obedecem a gravidade mais rápido do que se imaginava e a saúde mental já não é a mesma. Alguns deles devem ter ou já tiveram problemas com alcool ou drogas. Alguns perderam alguém recentemente ou há muito tempo e não superou. Alguns desses podem estar seriamente doentes. Alguns sabem. Outros, nunca procuraram um médico. Aquele ali, vestido de Ikki de Fenix. Personagem mais brutamontes dentre os "Cavaleiros do Zodiaco". O mais casca grossa e ignorante. Mas a pessoa que veste aquela roupa, não tem coragem de dizer aos amigos de trabalho, á namorada, á família, que é gay. Aquela roupa é realmente uma armadura e enquanto ele necessitar, ela vai proteger ele da forma que ele decidir sobre a sua própria vida. E está tudo bem. Olha aquela ali.

- Qual?

--Ali, aquela.

- A gorda?

--Ela. Ela tem como referência de padrão de beleza a Sheila Melo na banheira do Gugu em 1998. Hoje,  pesando 112kg, ela vem todos os anos vestida de Sub-Zero.

- E o que tem isso a ver?

--Olha bem. O Cosplay dela é o de Sub-Zero do "Mortal Kombat", que já foi game, filme, desenho e série. Tem uma fila de pessoas pra tirar foto com ela. Aqui, ela é vista, mas não debochada. Ela é respeitada e admirada.

- E ela não poderia ter escolhido uma personagem gorda? Deve ter alguma. Não tem?


-- Claro. Nos desenhos da época em que ela crescia, pessoas gordas eram vilões e vilãs. Ursula que o diga. O Sub-Zero proteje ela. E ela atua, honrando a personagem. Ela faz as duas versões. A máscara ela usa para esconder os lábios. Privada pela mãe de se alimentar como qualquer outra criança, ela cresceu com regras absurdas e para não sentir tanta fome, em seu quarto, ela mastigava os próprios lábios. Superior e inferior. Chegava a arrancar pedaços enormes da boca. Não chegava a engolir, mas, a dor física servia como uma espécie de placebo e enfim se sentia com menos fome. Para amenizar a dor e os sangramentos, a mãe a fazia colocar entre 3 e quatro pedras de gelo na boca e a forçava a mastigar enquanto amarrava um pano de prato molhado em água gelada. Conciente ou inconcientemente, ela escolheu a personagem de gelo. Quando os pais morreram naquele acidente com o avião da Gol, desencadeou a depressão e a libertária compulsão por comer tudo o que pudesse. A segunda versão do Sub-Zero ela encarna ainda vestida como a primeira, mas abaixa apenas a touca da máscara, revelando o cabelo curto e milimétricamente penteado para trás com gel. Aquele cabelo, representa o pai dela, cujo cabelo, ela nunca viu com um fio sequer fora do lugar. Mas, a maior característica da segunda versão do Sub-Zero, é uma cicatriz na vertical que desce pela testa atravessando um dos olhos. É uma cicatriz larga e em alto relevo. De perto se nota que o formato dela é o mesmo que a parte quente de um ferro. Presente da mãe aos 14 anos. Mesmo com a touca da máscara abaixada, ela nunca tira a máscara. Dizem que ela não tem mais lábios. Mas para essas pessoas ao redor, ela é a personagem e é necessário ser muitas coisas para estar onde ela está, menos covarde. E isso, ela nunca foi. Ela é só uma criança, como qualquer outra pessoa ao nosso redor.
Adultos são só crianças que fazem merda quando aprendem a mentir e a julgar.


- Quer ir jogar Super Mário, lá em casa?

--Claro, a gente ainda é criança.


As duas crianças de 55 anos voltaram pela calçada brincando de Rocky e Apollo.



FIM.
Elika Hyman
Enviado por Elika Hyman em 06/10/2019
Reeditado em 30/10/2019
Código do texto: T6762676
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Elika Hyman
São Paulo - São Paulo - Brasil, 31 anos
68 textos (1470 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/19 19:44)
Elika Hyman