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CARTA RASGADA parte III e parte IV

          Aquele era o carro do meu ex-sogro? Mas como assim o carro do meu ex-sogro estava com ele? Comecei a ficar maluco e paranoico. Se antes eu já estava perturbado por ter entrado um gato no meu quarto pela janela, agora ainda mais porque o “dr. Perfeito” estava com o carro do meu sogro. O que me aliviava é que eu não lembrava direito qual era a placa do carro do meu ex-sogro. Argh! Voltei para o meu posto. Ao terminar, eu já ia pra casa, meu colega me grita:

          - Oh, parça! Pode me dar uma ajuda? Por favor, só sobrou eu pra fazer isso, velho. E eu não queria ir sozinho.
          - Ah meu. Não to com cabeça. Hoje eu tive um dia zoado, sabe... comi o pão que o diabo amassou sem manteiga.
          - Por favor, velho. Eu prometo que não vou demorar. Vamos fazer 4 entregas. Chegaram 4 pacotes de livros pra escola, eu acho, e temos que  entregar ainda hoje.
          - Temos uma pinoia! Você tem. Meu horário já foi. Eu já entro uma hora mais cedo pra sair...
          - Mano, só sobrou eu aqui... por favor... faz essa.
          - Tá bom, meu. Mas olha, só vamos entregar e pronto. Eu não quero nem saber de quem é e pra quem é.
          - Beleza. Parece que é tipo doação. Sei lá também...
          - Mano, pega logo essa encomenda e vamos, meu. Você mora perto e vai de carro. Eu pego condução que só. Moro longe, meu!
          - Desculpa. Aí: vou te deixar pelo menos na estação com o carro da firma. Pode ser?
          - Tu quer que eu volte pra casa de uniforme?
          - Ah, pega nada. Eu já fiz isso várias vezes.
          - Você deve ter algum tipo de problema. Mas fazer o quê.
          - Eu pago a breja!
          - Eu sou crente, filho de Belial! Tá fazendo de pirraça? Vamos que eu já to quase desistindo!
          - Zoas, pô! Vou colocar no carro.

          Enquanto íamos ele ia conversando sobre coisas da vida. Eu já estava no piloto automático. As palavras saíam sozinhas. Não sabia do que ele tava falando e nem o que eu falava. Se ele me pedisse R$ 1.000,00 ali na hora era perigoso eu dizer que iria depositar amanhã, mesmo sem ter um pirulito no bolso:

          - Chegamos. Quer ir comigo deixar lá na secretaria?
          - Velho, desse carro eu não saio nem se for assalto. To morrendo de cansaço. Eu trabalhando andando. Você que usa o carro da empresa.
          - Eh, diacho! Educação mandou lembranças, viu. Joga na cara mesmo. Vou lá e já volto.

          Minha mente não parava de pensar na cena que vi. Nas possíveis coincidências. Rodrigo Silveira Chagas, o doutor bonitão que estava num possível carro do meu ex-sogro. Minha mente pensava tão alto que se alguém passasse na rua iria ver os balõezinhos dos quadrinhos. Só que sangrando:

          - Pronto! Só faltam 3.
          - Meu, se importa se eu for dormindo?
          - Mano, o que você tem? – ele perguntava enquanto ligava o carro e seguíamos em direção aos outros endereços.
          - Amigo, já teve a sensação de que foi passado pra trás? Tipo... superado ou algo do tipo?
          - Como assim “tipo... tipo...” você e seus vícios de linguagem.
          - Não, meu. É sério. Já teve essa sensação?
          - Pra te ser sincero todo mundo já sentiu isso uma vez, mas depende da forma que você reage. Sei lá, a vida é cheia de coisas assim. O jeito é superar ou ser vencido. Parar é que não pode. Mas por que cê tá dizendo isso?
         - Não. Por nada. – eu não tinha intimidade com ele, então preferi deixar pra lá. Afinal, vai que ele entende errado. Aliás, quem me entenderia?

          Após rodarmos por umas 4 escolas, ele cumpre com a palavra dele e me deixa na estação. Pelo menos cortei uma condução lotada. Estresse a menos:
         
          - Amigo, valeu mesmo. Quando for na igreja ora lá pela gente, viu?!
          - Ir em uma que é bom nada, né? Mas obrigado mesmo assim, mano. Me salvou de pegar uma condução cheia.
          - Aí, deixa eu perguntar: você tem face?
          - Tenho não. Eu já não gostava muito. Quando terminei o namoro com a Ana aí que excluí mesmo.
          - Bom. Ela ainda tem o dela?
          - Acho que não. Ninguém mais que eu conheça tem contato com ela.
          - Iiiihhh... sei lá. Vai saber. Mas pelo menos assim você se preserva. Facebook é bom, mas expõe a vida de qualquer pessoa.
          - RAPAZ, É ISSO!!!
          - Tá loco?! Pra que esse grito?
          - Depois explico. Obrigado, cara. Deus abençoe!
          - Beleza, falou aí!

          Cheguei em casa. Mesma coisa, mas com o coração curioso ao extremo. Vamos saber quem é esse dito cujo Rodrigo Silveira Chagas. Tentei reativar minha conta, mas já fazia meses que excluí e passou e muito do prazo de reativar. Fiquei louco! Criei um perfil falso por nome de Alfredo. Quem adicionaria alguém com esse nome? (brinks kkkk)
          Fiz o perfil. Ok... vamos então primeiro ver se a Ana excluiu mesmo o perfil dela. De fato... nada encontrei. Ou eu fui bloqueado, ou ela excluiu mesmo. Ninguém tinha ela. Comecei a procurar então esse Rodrigo. Apareceram vários. Achei o perfil dele. Entrei. A foto do cara já era sem camisa (ousado. Que infeliz ousado!) e a foto de capa era ele no hospital. Fui lendo, vendo os amigos... parecia ser gente boa. Tinha amigos demais. Mais amigo do que eu já tive de caspas na vida. Cliquei nas fotos. Aquelas fotos clichês fazendo pose de machão. Ele estava com EM RELACIONAMENTO SÉRIO. Meu coração pulou da boca. Fui clicar pra ver quem era: não aparecia. Ouço o barulho de gato miando na minha janela de novo. Em um acesso de raiva jogo um travesseiro pela janela para acertar o gato. Eu não estava no meu juízo perfeito.
          Já que não tinha nada, continuei vendo as fotos. Entre as fotos, achei uma foto onde estavam ele e alguns amigos. Parecia serem todos médicos, enfermeiros, colegas de trabalho. Era numa festa até chique e bem badalada. Eles estavam com copos de bebida na mão. Enquanto eu continuava a ver as fotos, achei uma foto dela: Ana, abraçada a ele...


          Continua...


************************************************************


Como assim a Ana aparece nessa foto? O que ela tá fazendo nessa festa? Ela conhece esse pessoal de onde? Fui olhar pra ver se tinha algum comentário. Os de sempre: “Festa boa hein. Tínhamos que sair mais vezes.”, “Povo lindo! Amo vocês!”, “Nem me marcaram, né?”.
Eu fiquei confuso e ao mesmo tempo muito mal. Seria esse moço o atual namorado da Ana? Eu sei que eu sempre fui meio pobre, mas volta e meia ela reclamava das minhas condições financeiras quando brigávamos. Mulher tem mania de jogar na cara qualquer coisa útil no momento, mas eu também era muito largado na vida. Agora por que tão rápido ela já arrumou outro. Eu pensei que ela ficaria pelo me nos um ano ou dois sem ninguém... fui procurar pra ver se tinha mais fotos... minha internet começa a dar problema. E olha que nem é de escada. Eu já tinha acertado as atrasadas, mas isso é hora de bugar tudo? Fui dormir com raiva porque parece que era queda geral e quando você fica sem internet numa situação dessas ou você quer virar homem das cavernas ou você aprende a sobreviver sendo apenas gente... mas sem internet hoje em dia... quem é gente?

          Eu tinha garantido por mim mesmo que iria acordar de manhã e procurar mais sobre esse tal Rodrigo e saber porque a Ana estava lá. Acordei. SUPER ATRASADO! E o que é melhor, fui pro serviço com o celular no 5% de bateria. Fiquei tão fissurado com essa foto que esqueci de colocar meu bendito celular pra carregar. Agora além de não ter levado o carregador, eu não teria tempo de pesquisar quem era aquele mald... aquele dito cujo.

          Ao chegar no meu posto, sou designado para a localidade onde a rua Dr. Francisco Filho ficava. Tinha correspondência pra lá. A maioria era conta de água, luz, internet, boleto bancário, etc. casa da Ana. Carta de novo. Só que dessa vez num envelope grande. De quem era? Adivinha? Rodrigo Silveira Chagas. A vontade que me deu de abrir aquela carta foi imensa. Eu entreguei a carta um pouco amassada. De propósito. Fui almoçar. Na volta do almoço, percebo que já tinha quase acabado as correspondências e então poderia voltar pro meu posto mais cedo. Já que eu tinha então tempo de sobra, decidi passar novamente naquela rua. Mas claro, meio como quem não quer nada. Ao chegar perto o portão automático da casa dela se abre. Sai um carro de lá. O Jetta prata quatro portas. É meu sogro que estava dentro do carro. Mas o vidro era fumê, nem dava pra ver. Saí de lá. Fiquei no meu posto até dar a hora de ir. Então aproveitei e fui pro computador que tinha lá. Vi que não tinha ninguém lá. Entrei no face. Alfredo. Pesquisar Rodrigo Silveira Chagas. Entrei no perfil dele. Não tinham postagens novas. Fui até a foto. Consegui ver a foto novamente. Coração apertou demais. Fui ver de quando era aquela postagem:

          Jan 10 2019

          Era recente. E não foi nem ele que postou, foi uma foto marcada que tinha ele. Mas ela nem face tinha mais. Não sei o porquê tantas perguntas vinham na minha cabeça e nenhuma se respondia sem outra resposta: “ela agora está com ele!”. Graças a Deus tinha um cabo USB ali que serviu pra carregar meu celular por um pouco de tempo. Fui tentar procurar mais fotos no perfil dele. Achei mais algumas, mas da mesma festa. E ela estava junto com esse pessoal. Ela não bebia, com certeza era um refrigerante na mão dela. Chegou alguém na sala. Desliguei o computador correndo e como um ninja fiz que não estava fazendo nada e que já iria pra casa. Fui.

          Ao chegar em casa (já que decidi voltar sem mexer no celular por causa da bateria que não carregou o tanto que eu queria. Percebi que ela já estava viciada...) nem jantei. Nem banho tomei. Fui direto pro computador e colocar o celular pra carregar. Face. Alfredo. Rodrigo. Fotos. Fui para as mesmas. Olhei a foto em que ela estava abraçada com ele. Era só um abraço, mas que me doía tanto ver aquele sorriso perto de outro alguém que não era eu. Duro. Fui procurar se essa pessoa que marcou ele tinha mais fotos. Não achei. Era enfermeiro, casado.achei uma foto com um moço que me parecia suspeito pelo olhar de malandro. Acessei o face dele. Não tinha namorada. Até que achei algumas fotos dele e o Rodrigo. Em várias festas. E rapaz: era uma safadeza sem tamanho. Eu fiquei espantado. Mas espantado ainda porquê eu estava olhando aquilo.

          Nas fotos desse rapaz ele estava com várias moças diferentes. Todas mal vestidas (se é que você me entende). E o “doutor perfeito” estava com ele. Acho que ela devia ser um mulherengo, mas nada que pó incriminasse. Esse moço tinha alguns amigos no face dele. Fui ver.

          Quando não, achei outro perfil do Rodrigo. Ué, por que ele teria dois perfis? Cliquei. Que absurdo. Que absurdo! Evito falar as palavras que estavam nas descrições do perfil dele por ética cristã. Mas o homem era um pervertido. Fui ver as fotos. Parecia que ele estava num baile onde várias pessoas se agarravam. Ele estava com duas moças e em várias fotos beijando uma e outra. Mas como, se ele estava com relacionamento sério em um perfil? Continuei a ver as fotos. Na praia rodeado de mulheres com esse amigo e mais um que não estavam no primeiro perfil dele. O cara era “o pegador”.

          Nesse perfil ele tinha instagram. Acessei. Se as fotos do face eram meio complicadas de descrever, o instagram quase abalou minha fé. Cheio de vídeo nessas festas que mais pareciam festas carnais que... é péssimo pra um crente descrever isso. Pior ainda é eu ficar vendo, já que o que os olhos veem o coração deseja. Perdi a conta de quantas boates esse Rodrigo aparecia bebendo, “pegando todas”, etc. Parei de ver, porque agora eu estava confuso. Afinal, ele namora a Ana ou não?

          Voltei para o face antigo, aquele que era mais “family friend”. Cliquei. Procurei as fotos. Até que fui ver algumas postagens em que ele foi marcado. Encontro uma postagem onde eles estão numa casa de praia. E a Ana está lá com eles. O mesmo pessoal. Ela esboçava um sorriso lindo. Quando vou vendo as outras fotos dessa postagem, tinha uma amiga dele que eu não tinha visto. Cliquei. Médica. Divorciada. A primeira postagem foi uma lembrança em que ela havia sido marcada, mas percebi que o Rodrigo não foi.  As fotos eram na praia. Ao ver as fotos, encontro algumas fotos com meu ex-sogro e ex-sogra ali junto com ele. Como assim? O que eles estão fazendo aí? Eles se conhecem? Desde quando. Entre as fotos vejo uma foto dele e do meu sogro juntos perto do Jetta prata. Ao olhar... um comentário, que me foi suficiente para me perturbar mais:

          “Dirigir esse Jetta foi uma experiência e tanto. Logo logo me acostumo com marcha automática.”

          Peraí? Ele já dirigiu o carro do meu ex-sogro? Mas como? Por que? Eles se conhecem desde quando?
          Então vasculha aqui e ali, acho uma foto da Ana, junta com o Rodrigo, minha ex-sogra e ex-sogro. Juntos numa mesa. Rodrigo está ao lado da Ana. Ela está sorrindo. Roupa de praia. (Nem sabia que meu sogro tinha casa na praia. Mas ele não tinha. A casa seria do Rodrigo?) Essa foto me intrigou demais. Demais mesmo. Como pode o doutor perfeito de dia e a noite lobo devorador estar sentado ao lado de uma família tão casta como a da Ana? E por que é sempre esse cara que está do lado dela? Fui ver a data do foto. Nesse momento meu mundo começou a desmoronar aos poucos:

          Março 15 de 2018

          A foto foi tirada duas semanas antes da Ana terminar comigo...


          Continua...
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 30/05/2019
Reeditado em 21/08/2019
Código do texto: T6660534
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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