Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

CARTA RASGADA - FINAL!!!

         
          Ao chegar em casa desesperado, nem troquei de roupa ou banho ou coisa do tipo. Fui atrás dos pedaços da carta que rasguei com envelope e tudo. Eu sequer abri a carta. Deixei tudo no lixo do banheiro. Minha sorte foi que eu não havia queimado a carta como eu planejei. Com lágrimas nos olhos vou até minha sala e jogo o lixo do banheiro no chão. Entre papéis higiênicos e coisas do tipo naquele lixo, encontrei os fragmentos da carta que eu havia rasgado de ódio. Minha cabeça girava, mas tive que ter raciocínio o suficiente para que eu pudesse juntar pedaço por pedaço daquele escrito. Após gastar uns minutos procurando, limpando, colando como pude, comecei a ler a carta:

          São Paulo, 19 de janeiro de 2019.

          “Meu amor,

          Nunca imaginei que as coisas entre nós ficassem do jeito que ficaram, mas realmente a vida nos prega peças e entre essas pregou uma em nós, porém Deus, aquele que sabe de todas as coisas e tens planos perfeitos que não entendemos decidiu dirigir nossa vida por esses caminhos; mesmo que tortuosos. Eu esperei muito tempo para te contar o que realmente aconteceu comigo e creio que essa carta, ao chegar às tuas mãos, irá te esclarecer aquilo que tanto enegrece de dúvidas o seu coração.

          Primeiramente, você foi a melhor pessoa que conheci em toda a minha vida. Embora eu conhecesse todos os defeitos nítidos que sobressaíam em você, como dormir demais, ser meio parado para procurar emprego, não fazer exercícios físicos por causa da sua saúde, falar muito alto, seus vícios em jogos, leituras, os filmes chatos que você me fazia assistir, comer demais, ter muitas brincadeiras sem graça, onde eu ria forçada, mas ria para não te deixar sem graça, seu apego excessivo com seus pais, seus atrasos constantes e injustificáveis, suas oscilações de humor e seu orgulho “másculo” de se recusar a pedir minha ajuda em algumas situações da sua vida, mesmo assim, você foi a melhor pessoa que eu conheci.

          Eu simplesmente sonhava com nosso casamento, mesmo que você estivesse desempregado, eu sabia que um dia você conseguiria um emprego bom e que em breve estaríamos casando, tendo nossa família e construindo uma nova história para nós dois. Entre seus defeitos que citei, suas virtudes, de tão simples, me encantavam. Sua mania em querer sempre me dar sua blusa no frio e ficar sem, mesmo quando eu não queria, sua paciência para comigo quando íamos comprar minhas coisas, seu jeito engraçado de me contar seus micos, sua delicadeza ao me abraçar, seu jeito único de me beijar, seu respeito para com minha família, sua fé firme e fervorosa, sua inteligência para com coisas que eu simplesmente não acreditava que você resolvesse tão fácil, seu olhar, seus chocolates surpresas em meus ciclos menstruais, a forma atenta em que você ouvia meus desabafos, seus elogios sinceros. Você se tornou meu melhor amigo, mas eu te queria pra sempre como o homem da minha vida.

          O que mais me encantou em você, foi seus poemas. Você não era profissional e não escrevia sempre no estilo que eu gostava, mas QUE POEMAS! QUE AMOR! QUE BELEZA! Eu simplesmente lia e relia suas poesias sempre. Amava demais o que você me escrevia. Parecia aqueles amores a moda antiga. E isso foi o que mais me cativou em você. Sempre acreditei no seu potencial como escritor.

          Porém, quando essa doença me acometeu, eu já não tinha muito costume de ir a hospitais justamente com medo do que os médicos poderiam me dizer. E de fato, o que eu temia se tornou realidade. Logo ao descobrir sobre o câncer, eu fui perdendo o desejo de viver mais intensamente... aos poucos fui perdendo o ânimo. Meus pais e a junta médica insistiam comigo para sair de casa para distrair a cabeça e não pensar nisso para evitar uma depressão, mas ela já havia me alcançado. Não era uma doença fácil de lidar. E quando descobri, ele já estava avançado.

          Mas o que mais me entristeceu nisso tudo não foi a doença em si, nem os tratamentos, ou sequer a minha mudança para outra cidade. O que mais me doeu foi imaginar que meu sonho de viver ao seu lado o resto da minha vida não duraria para sempre. Eu morreria em breve. Então tomei uma drástica decisão: se eu não posso te ter pra sempre, não quero que você sofra com essa perca e alimente uma esperança, como eu alimentei, de que realizaríamos muitos sonhos juntos. É muito amargo quando se apaixona demais por algo e mal sabe que terá que dizer “adeus” para isso em breve.

          Por isso terminei com você sem te dar explicações. Inventei uma desculpa qualquer só pra terminar. Não seria justo fazer você sofrer tanto comigo, mesmo sabendo que você ainda me amava. Seria mais dolorido pra mim, confesso, ver seu rosto triste por me perder, do que já te perder. Então ao nos mudarmos, excluí meu face e sumi de todas as redes sociais possíveis. Eu orava triste pensando no que fazer e no porquê Deus permitiu que tudo aquilo acontecesse. Então enquanto eu orava me veio um versículo a mente e uma ideia me surgiu. O versículo foi:

          João 13;7:

          “Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.”

          Ao ler esse texto, decidi que mesmo que eu não pudesse te ver, eu sabia que você estaria desanimado com nosso término e pararia de escrever, coisa que você faz tão bem e tanto se dedicou...  Eu fiz algo com que fizesse o nosso amor durar pra sempre, mesmo que você se casasse com outra, pelo menos ficaria na história da humanidade nosso amor.

          Peguei todas as suas poesias e sem você saber, juntei uma por uma e enviei para uma editora que ficava perto da rua do hospital. Meu pai me deu o dinheiro suficiente para isso, por mais que ele achasse uma ideia boba, pra mim não era. E eu saberia que no tempo certo você descobriria.

          Entre todas as poesias que você me escreveu e eu guardei numa caixa, elas foram impressas, encadernadas e se transformaram em livros. Na capa, um coração com o titulo:

          “POESIAS DE UM AMOR ETERNO”

          Após a editora fazer aquele livreto, com capa dura e tudo, eles viraram doações. Primeiramente elas foram enviadas para o hospital onde o Dr. Rodrigo havia as encomendado para as crianças com câncer e os idosos. Porém vários pacientes em estado terminal ou a muito tempo internados ali pediram um exemplar. Mas só um pacote foi enviado pelos correios para aquele hospital.

          Logo após que consegui mais dinheiro com meu pai, pedi para a editora fazer mais deles. Dessa vez o dinheiro multiplicou o serviço e então vários exemplares das poesias foram publicados. Dessa vez, em forma de doação para escolas infantis, foram enviados 4 pacotes cheios deles. Um para cada escola infantil. Tudo pelos correios. Me ligaram das escolas me informando que os livros chegaram. Me agradeceram muito, porém disseram que levaram bem depois do expediente de receber, mas que dois carteiros num carro levaram os pacotes. Um entregava, o outro ficou no carro.

          Quando a doença se me agravou, eu queria distribuir mais, mas só sobrou um único exemplar. Que foi o primeiro a ser impresso e publicado. Esse foi o que ficou comigo por todos os dias. E todos os dias a noite eu lia e relia seus poemas de amor para mim. Os meus preferidos eram A ESMERALDA, VENTO QUE PASSA NO JARDIM, NAS SUAS MÃOS, A PORTA, O LADRÃO... mas o que eu lia quase todas as noites era o meu preferido: “E SE...”.

          Quando pensei em te devolver a caixinha, foi porque eu já havia imprimido todos os livretos, que agora serão usados em escolas e lidos no hospital. Fiquei com o meu. Nos meus últimos dias em casa, escrevi essa carta e pedi pra que meu pai, antes que eu morresse, levasse a caixinha para você e entregasse as duas cartas no dia. Uma agradecendo pelas poesias e outra explicando o motivo da devolução.

          Eu nunca amei outra pessoa a não ser você, meu amor. Você fez o meu coração continuar batendo forte nesses meus últimos dias. Nunca tive outro relacionamento, porque ainda te amava muito. Imaginei que nunca mais iria te ver e só teria as lembranças das fotos antigas e das poesias. Até que eu te vi entregando como carteiro entregando meus resultados de exames. Foi como um sonho. Eu jamais imaginei que iria te ver outra vez. Você ficou lindo com esse uniforme kkkkk. Naquele momento eu entendi o que Deus reservou pra mim, que eu pudesse te ver, pelo menos pelas ultimas vezes. E minha oração foi atendida.

          Quando essa carta chegar até você, provavelmente eu já estarei no hospital e não sei se retornarei, mas saiba que a morte nunca nos separará. Desejo que você seja feliz casando com quem quer que seja, porque você conseguiu me fazer a mulher mais feliz do mundo.

          TE AMO MUITO!!! OBRIGADO POR FAZER PARTE DA MINHA VIDA!!!

Ass: ANA SANTOS FERDINANDO.

          OBS: acesse essa matrícula no site dos correios: 54878651493455541. senha: ANA SANTOS FERDINANDO"


          Eu me joguei no chão. Eu gritava! Eu nunca chorei tão alto na minha vida:

          -  A mulher da minha vida sempre me amou, ela se afastou para que eu não a visse morrer, e eu ainda fui o mensageiro que levava as tristes noticias dos seus exames e levei sua maior homenagem para minha vida... Meu Deus! Meu Deus!!! Meu Deus!!!

          Dormi a noite abraçado com aquela carta remendada. Até hoje tenho ela guardada nos meus pertences. No dia seguinte, antes de trabalhar, peguei a carta e fui. Chorei o trajeto inteiro. As pessoas olhavam pra mim, mas eu não me importava.

          Ao chegar ao meu posto, me disseram que eu seria transferido de região para uma mais próxima de onde eu morava e que meu posto agora seria mais perto de casa. Uma mudança que me chocou, mas que eu já entendia que era apenas a Mão de Deus concluindo seu plano para Ana e eu. Antes de sair, decidi acessar meu cadastro e ver qual região eu iria cair. Num bairro próximo de casa. Gostei. Antes de fechar a tela, me lembrei das últimas palavras da carta e que continha uma matrícula nos correios. Abri a carta e acessei. Era um link fechado. Cliquei no modo de segurança e entrei. Ao olhar, tive a maior surpresa do mundo: ANA TAMBÉM PRESTOU O CONCURSO DOS CORREIOS! Mas por que ela não estava na lista?

          Acessei seu cadastro, a senha era o nome completo dela por incrível que pareça. Ao clicar na sua colocação, apareceu a DÉCIMA! Quando eu vi, percebi que meu nome estava abaixo do dela na lista. Quando eu cliquei para ver seu perfil na colocação, apareceu o seguinte pop-up bloqueando o acesso:

          VOCÊ NÃO PODE MAIS CONCORRER A ESSA VAGA! LAMENTAMOS.
          MOTIVO: DESISTÊNCIA.

Fim.

Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 31/05/2019
Reeditado em 21/08/2019
Código do texto: T6661085
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
77 textos (3475 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/11/19 02:41)
Leandro Severo II